Vários Artistas // The World of Keith Haring

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

Que a obra plástica de Keith Haring tenha encontrado espaço tanto nas paredes de um clube como o Paradise Garage, em Nova Iorque, como numa das capelas de uma grande igreja, como acontece na Saint Eustache, em Paris, ou, ainda, no corpo de uma mulher-diva como Grace Jones diz muito do amplo alcance da sua arte. Hoje, os dinâmicos e monocromáticos bonecos do artista desaparecido em 1990 aos 31 anos adornam tudo, das mais íntimas peças de roupa a objectos de uso diário como canecas, de capas protectoras para smartphones a utensílios de cozinha, mas o facto da sua linguagem visual se ter tornado tão ubíqua não lhe belisca a genialidade. Pelo contrário, apenas a reforça.

A Tate Liverpool recebe agora uma grande retrospectiva de Keith Haring, uma vasta mostra da sua multifacetada arte que volta a inspirar uma compilação da Soul Jazz Records, depois da exposição Soul of a Nation: Art in the Age of Black Power ter servido de ponto de partida para dois volumes recheados de underground jazz e street funk. Ao contrário dessas antologias, no entanto, que procuravam ser uma espécie de banda sonora para a arte que representava um importante período da história cultural afro-americana, a presente compilação, The World of Keith Haring, disponível como triplo LP ou duplo CD, ilustra, como se explica em subtítulo, as “influências” que o artista recebeu do mundo da música bem como as “ligações” que estabeleceu com o mesmo universo. Afinal de contas, os curiosos bonecos de Haring pareciam estar permanentemente em movimento, muitas vezes mesmo a dançar, prova de que o artista possuía uma intensa e muito natural ligação à música.

Haring chegou a Nova Iorque em 1978, uma entusiasmante era de profunda transformação e agitação, quando as ruas e os clubes da cidade revelavam ser vias comunicantes entre os mundos do jazz mais livre que se abrigava nos lofts, o nascente hip hop que já procurava os caminhos que iam do Mudd Club até à mais central Danceteria, a vibrante cena punk que despontava a partir do CBGB, a mais dissonante no wave que procurava agitar o mundo a partir de espaços comunais como o Artists Space, as exploratórias vanguardas que Rhys Chatham programava no The Kitchen ou, pois claro, o disco sound que exportava a febre de sábado à noite para todo o mundo a partir de templos como o Studio 54.

Foi a circular nessa intrincada rede de espaços musicais que Keith Haring encontrou muita da sua inspiração e até alguns dos seus cúmplices e aliados para futuras criações. Haring expôs em clubes, como o Club 57, em East Village, mas foi no Paradise Garage, o clube construído para Larry Levan, em 1977, no auge do disco, que o artista encontrou a sua casa espiritual e conheceu muitos dos seus amigos, de Jean-Michel Basquiat a Madonna ou Grace Jones: “Nunca mais fui o mesmo depois de ter entrado no Paradise Garage. A música era fenomenal — o Larry Levan era o DJ residente e ele era um verdadeiro Deus na cabine. Fiquei totalmente hipnotizado,” confessou, a dada altura, o próprio Keith Haring.

Haring haveria de trabalhar abundantemente com a MTV, outro “produto” dos anos 80, e a sua popularidade, sobretudo na segunda metade dessa mesma década, ajuda a explicar os vários convites que recebeu para criar arte para capas de discos: dos Peech Boys de Larry Levan a Malcolm McLaren, de David Bowie a Sylvster, passando por várias compilações, há vários exemplos dessa estreita ligação entre as criações do artista e a música que chegava aos escaparates das lojas. Como já se referiu, os bonecos de Haring pareciam, eles próprios, responder à música, traduzindo, em murais em locais públicos, em espaços em clubes nocturnos, no metro de Nova Iorque ou em galerias e museus espalhados pelo mundo, a vibração de uma efervescente época de dança e experimentação.

The World of Keith Haring traduz isso mesmo com um generoso alinhamento que inclui mutações electro-hip hop de gente como as Beat Girls, Jonzun Crew, Extra T’s, John Sex ou Fab 5 Freddy, latin freestyle de Johnny Dynell, punk-funk dos Talking Heads e Pylon, disco sound de vários quadrantes por artistas como Damon Harris, Adiche, The Golden Flamingo Orchestra, Convertion, Class Action (aqui representados com uma remistura de Larry Levan para “Weekend”) ou Sylvester, derivas dub para pista de dança pelos Funk Masters, no wave abrasivo dos Girls e experiências mais avançadas e experimentais assinadas por bandas e artistas como os Art Zoyd, Yoko Ono ou os Gray (de Jean-Michel Basquiat).

Apesar de reflectir sobretudo o lado mais enérgico e dançante, mas também mais subterrâneo da multifacetada cena musical de Nova Iorque de finais dos anos 70 e inícios dos anos 80, deixando de fora as sonoridades mais jazz dos Lounge Lizards, os mergulhos no ruído de Glenn Branca, as poéticas investigações dubby de Arthur Russell, o hip hop mais “directo” de Afrika Bambaataa, a new wave mais exposta de Blondie, o tropicalismo dandy de Kid Creole, os experimentalismos mais obtusos da cena em que se movia Laurie Anderson (áreas cobertas noutras antologias com marca Soul Jazz, de New York Noise a Boombox, de Nu Yorica a Vogueing, além de inúmeros outros títulos com olhares mais focados sobre obras de gente como as ESG ou Arthur Russell) ou as mais óbvias “cabeças de cartaz da época”, The World of Keith Haring não deixa de ser um fascinante retrato de uma era e de uma cidade específica, apresentado com o cuidado recorrente no catálogo da Soul Jazz, com o patrão Stuart Baker a assumir as notas de capa e a curadoria de um alinhamento que só não é mais amplo (Madonna ou Grace Jones fariam todo o sentido, bem como os Peech Boys ou até David Bowie…) devido a naturais constrangimentos em termos de licenciamento. Mas é precisamente nesta “segunda linha”, mais independente e por isso também mais acessível a um selo como a Soul Jazz, que se encontra muita da música mais genuinamente excitante, o som que os DJs escolhiam tocar na época e que provavelmente serviria de inspiração aos mais notáveis habitantes da “cena”. E só por colocar lado a lado artistas como Sylvester e The Girls ou Yoko Ono e Fab 5 Freddy, afirmando na prática ligações que se calhar os compêndios não admitem, esta compilação já vale a pena.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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