Vários Artistas // Further Perspectives & Distortion

O retrato colectivo de uma era

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

As melhores antologias são as que propõem ligações entre eras, estilos, artistas ou correntes que julgávamos não se tocarem por alguma razão, as que buscam túneis secretos, pontes invisíveis, linhas de fluxo não reconhecidas e dessa forma lançam outro tipo de luz sobre determinados momentos da história da música. A clássica narrativa crítica erguida no período que se seguiu à explosão punk em Inglaterra, na segunda metade dos anos 70 do século passado, procurou a todo o custo impor a ideia de uma verdadeira ruptura epistemológica, da construção de uma barreira que teria isolado o punk do resto da história, projectando-o no futuro sem grandes ligações ao passado (Stooges ou Velvets eram excepções admitidas, mas pouco mais). E, como refere Mark Paytress nas notas de Further Perspectives & Distortion, espantosa compilação agora lançada em caixa de 3 CDs pela Cherry Red, “a ideia de que os Lemon Kittens, Virgin Prunes e Matt Johnson antes dos The The pudessem pisar terreno comum com Morgan Fisher, Lol Coxhill e Kevin Coyne parecia fantasiosa e descabida, uma perfeita idiotice”. Mas foi essa, precisamente, a ideia na base de Perspectives & Distortion, álbum de 17 faixas editado pela Cherry Red em 1981 e que aos nomes citados acrescentava os de gente como Eyeless in Gaza, Ben Watt, Thomas Leer, Kevin Harrison ou Two Daughters.

Paytress admite que a ideia não pegou no arranque dos anos 80, precisamente por ter sido apresentada na era em que a tal narrativa vendida pelos media ao público consumidor de música estava no auge e ninguém acreditava que tais ligações pudessem ser possíveis: para um qualquer adolescente ou jovem à entrada da década de 80, a escola que tinha saído do punk praticava arte em oposição. Oposição a tudo: ao prog e ao jazz, ao rock clássico e à folk, aos devaneios experimentalistas intelectuais. Logo o conceito não colheu e o disco morreu nos escaparates (a boa notícia é que o original encontra-se facilmente em plataformas como o Discogs e a preços perfeitamente condizentes com a sua condição de ideia incompreendida). Esse “falhanço” com quase 4 décadas não impediu, no entanto, a Cherry Red de voltar ao mesmo conceito para esta Further Perspectives & Distortion, compilação em clamshell de cartão com três CDs muito bem recheados e booklet generoso com as já referidas notas do jornalista Mark Paytress, fotos, capas de discos e fichas técnicas.

Esta compilação é inserida na série Close to the Noise Floor e assume-se, portanto, como mais um tomo exploratório da mais avançada música britânica criada nos anos 70 e 80, sobretudo com algum tipo de ligação à electrónica e às novas tecnologias que autonomizavam os criadores mais libertários e aventureiros. A opção, desta vez, foi ignorar completamente algum tipo de organização cronológica ou estética e alinhar todo o material por ordem alfabética o que significa que temos os Alterations e os Alternative TV a abrir o primeiro CD e Robert Wyatt e Zos Kia a fecharem o último.



A música aqui apresentada concentra-se num período de tempo muito específico com as faixas mais remotas (de 1976) a pertencerem a David Cunningham (“Error System”) e Soft Machine (“Softs”) e as mais recentes (todas de 1984) a carregarem a autoria dos Bohdi Beat Poets (“Positive Paranoia / The City in the Sea”), Het (“Music For the Hanging of a Minister”), No Artist (“(Extract From) The Compassion and Humanity of Margaret Thatcher”) e Zos Kia (“Baptism of Fire”). Esta é, precisamente, a era de uma profunda alteração tecnológica, em que os sintetizadores se tornam finalmente acessíveis para músicos sem o orçamento das super-bandas prog, em que os gravadores de fita se tornam suficientemente autónomos e confiáveis para equiparem qualquer cave ou apartamento permitindo assim registar ideias em que boa parte das editoras poderia não acreditar à partida. Ruído, caos, completo desrespeito pelas noções musicais convencionais, vontade acima da capacidade são algumas das marcas que atravessam boa parte do material aqui reunido. Boas notícias, portanto.

E neste retrato colectivo de uma era em que as ideias avançavam à velocidade do som e não havia regra que a criatividade individual não estivesse apostada em implodir ressaltam as participações de, além dos artistas já citados, nomes como os AMM III de Keith Rowe e Eddie Prévost, os Art Bears, Blancmange, Gavin Bryars, Paul Burwell e David Toop, Chris and Cosey, Clock DVA, Deux Filles, Eyeless in Gaza, Robert Fripp, Fred Frith, Ron Geesin, Kevin Harrison, Henry Cow, Nocturnal Emissions, Nurse With Wound, Mark Perry, Psychic TV, Robert Rental, Will Sergeant, Swell Maps, Test Dept, The Pop Group, This Heat, Throbbing Gristle, 23 Skidoo ou Trevor Wishart, pesos pesados representantes de uma tão vasta quanto fascinante área em que se cruzaria o jazz mais libertário, o prog mais experimental ou art-rock, o pós punk, as experiências industriais e a música electrónica mais desafiante, antes da simplificação synth-pop ter passado a dominar as mentes de todos os que tinham adquirido Korgs ou Mini-Moogs.

Further Perspectives & Distortions impõe-se assim como um agudo retrato de uma era e de um pensamento em que era possível vislumbrar terreno comum entre músicos tão avançados como os Roberts Fripp e Wyatt ou os que militavam nos AMM III, Soft Machine e Henry Cow e outros possuidores de reduzidos argumentos técnicos, como os Pop Group, Robert Rental ou Swell Maps, mas capazes de desbravarem novo terreno pela força de ideias novas e de um atrevimento aprendido, de facto, nos bancos de escola do punk, mas nunca limitados pelos dogmas que essa corrente também foi capaz de erguer.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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