Vários Artistas // Breakdance / Breakdance 2: Original Motion Picture Soundtracks

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Mesmo não sendo o tipo mais dado a nostalgias, e afirmando-me como bastante desprendido de qualquer música que possa evocar a minha “juventude”, não posso negar que a reedição por parte da Cherry Red destas duas bandas sonoras que há muitos anos existem em vinil na minha colecção conseguiu colocar um rasgado sorriso no meu rosto.

Não é que tenha algum tipo de saudade especial dos meus 15 anos — vi estes filmes no cinema Avenida, em Coimbra, em meados dos anos 80… –, mas estas bandas sonoras e os filmes que ilustravam representam não apenas um momento em que realmente despertei para a música, como o início de uma das minhas mais duradouras relações musicais.

Em 1984, Hollywood ainda tentava compreender a cultura que então despontava no Bronx, ainda muito longe do actual domínio exercido sobre o universo pop, e claro que estes ingénuos filmes se inscrevem na subcategoria de “exploitation”, mas em 1984, numa era pré-Internet e para boa parte dos portugueses ainda pré-MTV, a 10 anos de distância da edição do nosso primeiro trabalho hip hop — Rapública só foi lançado em finais de 1994 — estes filmes eram mesmo um dos únicos vislumbres possíveis de uma cultura que mesmo à distância já exercia um exótico fascínio sobre a mente de um adolescente sem qualquer tipo de mundo dentro que não fosse aquele que a magra TV, alguma literatura e ocasionalmente alguma imprensa musical proporcionavam.

Por isso mesmo, esta música foi absorvida e vivida com entusiasmo, com o quarto transformado numa versão imaginária do Roxy de Nova Iorque. Mas, na verdade, Breakdance (ou Breakin’, no seu título original para o mercado americano) pouco hip hop contém, pelo menos tal como hoje o entendemos. O alinhamento vive sobretudo de temas posicionados algures entre o disco sound e o electro, com o hip hop a funcionar mais como oblíqua inspiração do que outra coisa, apesar do impacto mais alargado que começava a registar graças a nomes revolucionários como Run-DMC ou LL Cool J (tanto uns como outro tiveram hits em 1984…).



As bandas sonoras são dominadas por nomes como Ollie and Jerry e Carol Lynn Townes (com presença em ambos os volumes), mas apesar de incluírem alguns temas mais datados albergam também várias pérolas realmente intemporais, casos dos verdadeiros clássicos “Ain’t Nobody” de Rufus and Chaka Khan (em Breakdance) ou “Din Daa Daa” de George Kranz (Breakdance 2 – Electric Boogaloo). E depois há pequenos tesouros, como o electro uptempo futurista de “Cut It” dos Re-Flex ou “Reckless”, o momento mais hip hop da primeira parte deste duplo CD, com Ice-T, tema em tempos citado pelos grandes Micro.

Em Electric Boogaloo, momentos como “Radiotron” deixam entender o enorme poder que o caminho já então apontado por Prince já carregava, com “When I.C.U.” da dupla Ollie & Jerry a destacar-se como um fantástico exercício de electro cinemático e “Stylin’ Profilin'” de Mark Scott a impor-se como uma lição no uso extremo das capacidades da Drumatix. Mas a surpresa oferecida por Rags & Riches mesmo a fechar o alinhamento, “Oye Mamacita”, é uma delícia de “freestyle electro”, com as devidas colorações latinas a fazerem-nos recordar que no início esta cultura não era apenas afro-anericana, mas também bastante latina, fazendo jus à diversidade étnica do Bronx.

Sim, para quem esteja imerso na cultura hip hop contemporânea, a audição destes registos é como uma visita ao Museu Nacional de Arte Antiga efectuada por um adepto das mais recentes tendências de street art, mas, lá está, prestar atenção à história é sempre uma maneira de melhor se compreender o presente, certo?


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu