Vários Artistas // Brazil USA 70: Brazilian Music In The USA In The 1970s

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

Basta olhar para os nomes constantes da mais recente compilação da Soul Jazz para se perceber o quão especial é: Airto e Flora Purim, Sérgio Mendes e Deodato, Milton e Luiz Bonfá, Dom Um Romão e Moacir Santos, Sivuca e Tamba 4… Uma espécie de elite, uma primeira divisão de uma era muito particular da música produzida no País Tropical, feita de músicos que tinham em comum o facto de terem trabalhado abundantemente nos Estados Unidos durante a década de 70, tendo aí protagonizado uma série de momentos de fusão entre duas práticas e tradições distintas, erguendo um novo e vibrante som que insiste em manter-se agarrado ao presente. E até é fácil compreender porquê: na música de artistas contemporâneos como Kaytranada, Flying Lotus, Thundercat e outros adivinha-se a inspiração recolhida no tipo de música que estes artistas ofereceram ao mundo na já referida década de 70.

Como explica certeiramente Stuart Baker (homem do leme da Soul Jazz e compilador de serviço neste Brazil USA 70) nas generosas notas de capa, duas razões principais contribuíram para o considerável fluxo de talento brasileiro para os Estados Unidos: por um lado, o crédito que estes artistas puderam recolher na América graças ao alargado impacto da bossa nova na década anterior ofereceu-lhes um certo conforto e segurança na aposta de emigrarem; por outro, o clima político repressivo da ditadura militar estabelecida a meio dos anos 60 incentivava quem buscava um clima criativo livre de constrangimentos e se cantautores como Caetano ou Gil encontravam na swinging’ London um ambiente propício à sua particular forma de expressão, é mais do que natural que outros vissem na agitada cena de estúdios de Los Angeles uma sólida oportunidade de trabalho.

E com Miles Davis a chamar Airto, Dom Um Romão a ingressar nos Weather Report, Flora e de novo Airto a darem uma mão a Chick Corea nos Return to Forever ou, entre tantos outros exemplos, Wayner Shorter a gravar com Milton, a sintonia entre os dois mundos estava mais do que afinada. Nos seus férteis anos de “fusão”, o jazz americano procurou estabelecer diálogos com outras culturas e práticas musicais, tentando encontrar nessas benignas colisões novos mundos sonoros. E, claro, todos estes músicos viram as suas reputações crescer o suficiente para conseguirem eles mesmos gravar alguns dos seus melhores registos na América, beneficiando de um acesso que traduzia o estatuto de que gozavam e o interesse gerado em torno de tudo o que carregava essa identidade brasileira.

Como sempre, a selecção de Stuart Baker é cuidada e com um certo grau pedagógico, funcionando como resumo de uma era, mas também como porta de entrada para um universo em que é sempre possível ir mais fundo. E é igualmente uma excelente DJ tool para os que procuram este tipo de grooves para inflamarem os seus sets tropicais. É difícil resistir ao deboche polirrítmico de “Braun-Blek-Blu” do mestre Dom Um Romão ou ficar indiferente à familiaridade insinuante do maravilhoso “Bahia Soul” do guitarrista Luiz Bonfá (tema usado como base do “hit” “Underwater Love” dos Smoke City), mas há por aqui propostas muito diferentes, por artistas com visões muito personalizadas da música: vocalistas como Flora Purim ou Milton Nascimento vinham de diferentes tradições, percussionistas como Airto ou Romão coloriam a música que faziam com tonalidades rítmicas muito distintas e líderes como Sérgio Mendes ou Deodato sabiam conduzir os seus colectivos por territórios novos em cada momento das suas prolíficas carreiras. E por isso esta é uma viagem cheia de tonalidades e de nuances: mais funk, quando João Donato ilustra o que são “Almas Irmãs”, decididamente mais jazzy quando os Tamba 4 do pianista Luiz Eça estão ao volante, para dar só mais um par de exemplos.

Já se sabe que muito mais do que um grande Brasil, sempre existiram muitos “Brasis”, e o que aqui se ilustra nesta viagem com 16 belíssimas paragens é fascinante, múltiplo, rico e, percebe-se a esta distância, extremamente moderno. Mas essa, enfim, é uma qualidade que marca quase todos esses “Brasis” que fomos aprendendo a amar, os mais psicadélicos, os mais sambados, os mais funk ou até os mais experimentais que recentemente têm ganho espaço no plano editorial internacional. Lá chegaremos.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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