Vampi Soul: memórias da Discos Fuentes de regresso ao presente

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

A espanhola Vampi Soul integra o mais vasto grupo da Munster Records e apresenta-se mais sintonizada com o universo do groove nas suas múltiplas encarnações (isto em oposição à inclinação mais rockeira da casa-mãe).

No seu catálogo encontram-se bastantes preciosidades de diversas proveniências: Joe Bataan, nome grande da salsa nova-iorquina e pioneiro do hip hop (conhecem “Rap-O-Clap-O”?), depois de uma intensa carreira nos anos 70 e 80 regressou por breves momentos ao activo com o álbum Call My Name lançado em meados da década passada por esta etiqueta espanhola (e correctamente mantido em catálogo, com direito a recente reedição); Perujazz recupera para o presente um colectivo de jazz psicadélico do Peru; Nelson Psychout investiga o material dos míticos I Marc 4 na etiqueta de library Nelson… apenas alguns exemplos de um catálogo já vasto que se estende por centenas de títulos e que nunca escondeu a ambição de abarcar muitos géneros — do rock psicadélico ao afrobeat, da cumbia à library music, do jazz à electrónica — de várias épocas e continentes.

Recentemente, a Vampi Soul inaugurou uma nova série focada no legado da mítica Discos Fuentes, selo de Cartagena, na Colômbia, activo desde os anos 30 e mais tarde re-estabelecida em Medellin. Neste selo gravaram nomes absolutamente lendários da explosiva cena de cumbias como Wganda Kenya ou Fruko Y Sus tesos e La Sonora Dinamita. Muitas das fusões contemporâneas de cumbia com electrónica nascem do impulso de recuperação dos maiores clássicos da Discos Fuentes. Faz portanto, nestes dias de global bass, perfeito sentido que a Vampi Soul foque uma série nesta etiqueta.

Com títulos já lançados de Fruko Y Sus Tesos (A La Memoria Del Muerto e Tesura), Pedro Laza Y Sus Pelayeros (Rito Esclavo), Los Chicos Malos (Los Chicos Malos), Lisandro Meza Y Su Combo Gigante (Salsita Mami), Los Supremos (Atiza Y Ataja) ou Tita Duval Y El Nuevo Ritmo de Bobby Rey (Cumbias Internacionales) esta é uma óptima opção para aumentar a conta pessoal de cumbias e derivados sem ter que arrombar o banco: no Discogs, as mais cobiçadas peças do catálogo da Discos Fuentes começam nos 2 mil dólares e um álbum como Tesura de Fruko Y Sus Tesos pode custar 250 euros…! Estas reprensagens são opções mais racionais, sem a menor sombra de dúvida.

Abaixo, dois títulos recentes na série Discos Fuentes da Vampi Soul.

 


[Michi Sarmiento Y Su Combo Bravo] Salsa Con Monte

Oriundo de uma família musical — o seu pai, Climaco Sarmiento — também gravou abundantemente para a Discos Fuentes -, Michi estava destinado a ser músico e estudou tudo na sua juventude em Cartagena, das percussões ao clarinete e saxofone passando pela voz. Neste álbum – reedição facsimile, como todas as outras nesta série –, Sarmiento percorre um leque vasto de géneros — do boogaloo ouvido na música que chegava de Nova Iorque, até aos mais locais guaguancó, cumbelé, calypso, pasebol, cumbión e rumba – demonstrando uma versatilidade que era essencial possuir para se sobreviver no concorrido ecossistema de clubes da Colombia nocturna. O álbum, lançado originalmente em 1973, inclui até uma versão de “Viramundo” de Gilberto Gil logo a abrir, sinal de uma abertura que só injecta vibração pura na música e, claro, causa estragos em qualquer pista. mesmo nos dias de hoje. E para além de tudo o resto, de todos os argumentos que se desprendem das espiras do vinil, há ainda a gloriosa capa, com Michi adornado em vestes tradicionais, de charuto na boca, em cima de uma Honda novinha em folha. Pura classe!

 



[Peregoyo Y Su Combo Vacaná] Mi Buenaventura

Outra das tendências do “departamento de arte” da Discos Fuentes era a clássica ideia de meter uma mulher bonita na capa, forma directa de destacar um disco numa parede cheia de novidades de uma qualquer loja dos bairros mais agitados de Medellin ou Cartagena. E essa foi a opção para este clássico de 1967 de Peregoyo Y Su Combo Vacana, colectivo que gravou mais três registos para a Discos Fuentes.

O álbum é uma intensa e ultra-festiva amostra psicadélica de ritmos: currulao, abozao chocoano, porro, cumbia e aguabajo com piscadelas de olho aos ritmos importados de Porto Rico ou de Cuba através da rádio e dos discos importados pelos DJs locais que sabiam bem o valor da descarga, bomba, guaracha ou son montuno na hora de agitar as pistas ou as ondas hertzianas. Sob a direcção do saxofonista tenor Enrique “Peregoyo” Urbano Tenorio (que faleceu em 2007 com a respeitável idade de 90 anos!!), um combo de feras locais atirou-se às tradições com o intuito de as modernizar, criando um som que à era era moderno, arrojado e sempre festivo. Um argumento de peso, mesmo nas pistas contemporâneas que sabem misturar raízes com futuro. Ou na estante de um produtor que queira injectar raiz nas suas produções. Fica a dica…

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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