Valete: “Eu creio que as novas gerações são escravas das visualizações”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro e Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Em Movimento. É assim que Valete garante estar: em marcha, a construir, muito paulatinamente, o seu próprio futuro. “Colete Amarelo” foi um primeiro sinal e agora que se sente amparado por uma equipa em que “jogam” pontas de lança sérios como Dino D’Santiago, Here’s Johnny ou SP Deville, Valete quer dar fogo à peça e meter-se a caminho. Para já, o veterano rapper sabe de onde partiu, mas não quer arriscar onde irá parar ou quando lá chegará. Garante apenas que irá partilhar com todos os seus fãs as diferentes etapas dessa jornada. E a próxima, que já terá vídeo gravado por esta altura e tudo, não deverá tardar.

Enquanto não chega, o Rimas e Batidas foi sentar-se com Valete num jardim de Lisboa, para uma conversa sobre as rimas e as ideias que nelas se revelam, sobre a separação de gerações, mas também sobre o que une e leva diferentes representantes de diferentes eras a juntarem-se, a comunicarem e a partilharem experiências. Valete não enjeita o papel de referência para artistas mais jovens e até assume com orgulho essa responsabilidade de educar, de apontar caminho, de partilhar aquilo que ele mesmo aprendeu.

A conversa não terminou sem que algumas das pessoas que se encontravam nas proximidades a estudar (não é por acaso que a entrevista tenha decorrido numa biblioteca…) pedissem uma foto a Valete. Sim, há fenómenos recentes com milhões de views, mas Valete, que nem se pode queixar de falta de atenção — o seu single mais recente já coleccionou quase 2 milhões de visualizações em pouco mais de um mês –, continua a ser uma das mais reconhecidas e seguidas figuras do movimento.



Ainda ontem o Sam The Kid anunciou estes novos concertos que vai dar, que coincidem com os 20 anos da edição do seu primeiro álbum. Por outro lado, neste ano assinalam-se os 25 anos do Rapública. Os Mind Da Gap já assinalaram os 20 anos de carreira. Os Dealema também já estão com uma marca pesada nas costas. Tu, embora tenhas surgido “cinco minutos” depois, acho que se pode considerar que és um dos veteranos e um dos pilares da coisa também. O facto de vocês carregarem essa história nos ombros — a tua geração e alguns destes nomes que mencionei — sujeita-vos a uma responsabilidade especial? Finalmente têm toda esta audiência à vossa frente. Sentes a responsabilidade de os educar acerca das origens desta cultura?

Eu sinto muito isso. Até acho que é um dos papéis que eu devo cumprir. O papel de guardião da cultura hip hop, dos valores da cultura hip hop. Acho que há muitas virtudes nestas novas gerações — são umas três ou quatro gerações depois da minha, não é? Têm muitas virtudes. Mas eu sinto que há um défice de rappers a defender a bandeira da cultura hip hop, dos valores da cultura hip hop. Eu sinto isso nestas novas gerações. Também tem um bocado a ver com a massificação da música rap, com uma necessidade natural de os rappers de hoje quererem ser mainstream. O que é natural, porque o rap já está lá. Então, um rapper novo, é normal que queira ser mainstream. Uma necessidade e ambição que nós não tínhamos. A minha geração não tinha essa ambição. Pelo menos a maior parte dos protagonistas não tinha essa ambição.

Porque achavam que existiam barreiras erguidas que vos iriam sempre impedir de lá chegarem?

Sim. Achávamos que existiam barreiras e não tínhamos muitos exemplos de rappers que tivessem chegado lá acima. Era-nos dito várias vezes que com isto não dava. E os poucos exemplos de rappers que nós fomos vendo, que chegaram lá acima, chegavam sempre com a música muito filtrada, muito diluída. Às vezes um bocado estéril. Então nós, que amávamos aquilo e que estávamos a observar o que estava a acontecer nos Estados Unidos e em França, queríamos fazer o que os Mobb Deep estavam a fazer, o que os Wu-Tang estavam a fazer, o que os IAM estavam a fazer… Várias pessoas nos diziam que em Portugal isso seria muito difícil. Há um álbum, e creio que participaste nesse disco como produtor-executivo, dos Mind Da Gap, o Sem Cerimónias, que na minha opinião era um álbum que estava ao nível do melhor que se fazia nos Estados Unidos, um álbum impressionante e incrível, e que era o tipo de álbum que nós queríamos fazer.

E que queriam vender.

Claro. E esse álbum não teve a projecção que merecia, na minha opinião. Se calhar, tu até podes dar melhores respostas para a não abrangência desse disco, não é? Mas o que nós vimos, de fora, é que aquilo não teve o impacto que merecia. E pensámos, para nós, que a nossa música seria sempre uma música de nichos, uma música alternativa, underground, e que não iríamos sair muito daí. Mas agora, os rappers desta nova geração, também por causa das nossas conquistas, percebem facilmente que podem ser estrelas da música portuguesa.

E tu dialogas muito com estas novas gerações? Há um ano ou dois, surgiu uma polémica na Internet em que um destes novos rappers — já não me lembro qual foi o Lil que disse isto, se calhar até foi o Young Thug — dizia nunca ter ouvido o 2Pac, ou algo do género. Tu achas que corremos o risco de, um dia destes, um sucessor do Sippinpurpp vir dizer que nunca ouviu o Valete ou o Sam The Kid? Achas que esse risco existe ou achas que até já está a acontecer, esse gap geracional?

É uma grande questão. Eu creio que… Uff. Essa pergunta é grandiosa. Eu creio que nós vamos ter cada vez mais rappers mas vais ter aqui uma facção, provavelmente vai ser cada vez maior, de rappers que não estão necessariamente ligados à cultura hip hop. Eu creio que isso vai acontecer cada vez mais. Eu creio que, se tu carregas essa bandeira de MC e fazes parte da cultura hip hop, tu tens de conhecer as referências. Ponto. Ponto! É como tu quereres fazer reggae e não ouvires Bob Marley ou Peter Tosh, ok? Isso está muito claro na minha cabeça. E eu creio que qualquer miúdo de 13 anos, que está a fazer rap nesta altura, também entende isso. Os que não entendem não têm hip hop no DNA e provavelmente não querem ter.

Mas não têm havido grandes diálogos. Não têm saído sons novos, de Valete featuring seja quem for da nova escola. Esse encontro não está a acontecer, pois não?

Esse encontro não está a acontecer, nessa dimensão, da música publicada, mas eu sou um gajo que…

O Sam até fez isso, embora enquanto produtor.

No Mechelas, é verdade. Mas eu sou um gajo que, praticamente, duas/três vezes por mês, recebo uma chamada de um rapper da nova escola a ligar-me. “Valete, olha, a Sony está interessada em mim, o que é que achas? Esta agência está interessada em mim, o que é que achas? Lê o meu contrato, achas que devo fazer isto?”

Ok. Esse diálogo está a acontecer, nos bastidores.

A esse nível. O pessoal percebe a minha trajectória, entende que eu já estou aqui há muito tempo, que há coisas que eles estão a conhecer agora que nós — eu, os Dealema, o Sam, o Boss AC… — temos muito mais conhecimento, e nós hoje somos conselheiros deles, da maioria deles. Acredito que sim. Tenho esse diálogo muito frequentemente com o Estraca. Há uma semana tive com o Gson a falar quatro horas, com ele a fazer-me perguntas sobre o que ele pretende ser, sobre o que ele quer para a carreira dele.

Uma masterclass, quase.

Se quiseres. Nós temos esse papel também. De guiar as novas gerações. Depois há aqui uma outra coisa, em que tu tocaste, e que eu acho que é muito importante. Eu, ou nós, quando fazíamos… Quando o Mundo fez um som com o Berna, ou quando o Sam fez um som com o Regula, ou quando o Xeg fez um som com o Master Pula, provavelmente havia alguma relação de amizade, não é? Mas era também porque “tu és bom, então ‘bora fazer um som”. Era o reconhecimento do skill do outro MC, do MC que está ao lado.

Seal of approval.

Percebes? Isto era muito orgânico, muito espontâneo. Hoje, eu creio que as novas gerações são escravas das visualizações. E tudo o que eles estão a pensar, a nível de carreira, é perigosamente comercial, perigosamente estratégico, e creio que isso os vai fazer ter carreiras mais curtas e está a tirar-lhes a coisa mais bonita que a música tem, que é esta espontaneidade, esta naturalidade. Está a tirar-lhes muito disso. Rappers de um milhão de visualizações não estão a fazer sons com rappers de cinquenta mil visualizações. Ou seja, o critério agora já não é o skill. Mas há excepções, Rui. Obviamente que haverá excepções.

Mas estamos a falar da regra.

Sim. Está a acontecer muito. Eu já ouvi este diálogo entre eles, muitas vezes, percebes? Então…

O que tu me estás a querer dizer é que quando a questão era o skill, dois artistas diziam “vamos encontrar-nos no mesmo patamar. Temos o mesmo skill.”

Exactamente. O meu sonho era fazer um som com o Chullage.

Agora o patamar é diferente, porque estamos a falar da diferença de views.

Eles têm algo que mede. Está tudo numerado agora, não é? E então eles baseiam-se nessas numerações para fazer colaborações. E tu reparas que a nova escola faz muito menos colaborações do que a minha. Mas muito menos. É que nem há comparação. E tem muito a ver com isso. Eles nunca vão admitir, mas tem muito a ver com isso.

Porque é que tu, nos últimos sons que foste largando, foste trabalhando com diversos produtores, e chegas agora a um single e dizes “atenção, este é o primeiro single do meu novo álbum” Isso significa que encontraste o tipo de produção de que andavas à procura?

Sim. Eu estava com uma dificuldade que era: eu não sou um produtor e entre tu comprares um beat e teres a música produzida é preciso dar ainda muitos passos. Não é comprares um beat e o som está feito. O que eu queria e que estava a ser muito difícil para mim era ter uma coisa competente, a nível de produção, mas que não alterasse o que é Valete. Isto foi mesmo muito difícil para mim conseguir. Eu trabalhei com o Slow J, e com o Slow J tive um bocado esse problema. Ele é um génio musical, na minha opinião, acho que actualmente até já é dos melhores produtores da música portuguesa.

Já lá iremos, até porque tenho aqui uma pergunta que aponta para aí…

Mas, às vezes, os produtores queriam levar-me muito para a esquerda, estás a ver? “Valete, vem para aqui”. E por acaso os produtores que eu mais gosto até são os mais experimentais. Mas depois não casam com o que é Valete. E Valete é uma cena que é muito tradicional, um hip hop muito clássico. E eu quero sempre manter o registo. Sempre não, mas a maioria das vezes. E agora encontrei uma equipa. Eu trabalho com o Dino D’Santiago, que faz uma espécie de pós-produção, com o Here’s Johnny e com o SP Deville. E eles estão a co-produzir e a pós-produzir as minhas músicas sem nunca alterar a essência do Valete. Isso então tem sido um conforto do caraças para mim. E a conversa que eu tive com eles foi “Dino, eu preciso da tua ajuda nisto, mas isto não é um projecto de Dino D’Santiago. Here’s Johnny, eu preciso da tua ajuda nisto mas isto não é um projecto de Here’s Johnny nem de Holly Hood. SP, eu preciso da tua ajuda nisto mas isto não é SP”. Então eles percebem exactamente o que é que eu quero e põem só os pózinhos deles.

Tu não querias ir ao pronto-a-vestir, querias ir ao alfaiate buscar um fato por medida.

Exactamente. E estou a conseguir. Aquilo agora está Valete, só com os pózinhos deles. E às vezes tu estás a ouvir a cena e nem percebes onde é que o SP entrou ali, estás a ver? Esse single que eu lancei tem co-produção do SP mas tu nem percebes onde é que está o SP ali. E é isso que eu quero. Eu preciso do toquezinho deles. Eu quero o Valete a brilhar um bocadinho mais.

Olha, esta frase foi algo debatida na Internet: “Manos dizem que o mano Estraca é o novo Valete / Que se foda esse wero wero, o novo Valete sou eu”. Obviamente que isto não é um ataque ao Estraca nem nada que se pareça. Até porque é um rapper a quem tu já demonstraste, mais do que uma vez, o teu apoio. Mas parece que hoje existe grande necessidade de se apontar o novo isto ou o novo aquilo. Como se rappers fossem iogurtes e perdessem a validade, não é?

Exacto. Exacto [risos].

É uma preocupação na tua cabeça, sentires que não há um novo Valete, “eu sou o novo Valete”?

Vou tentar-te responder a isto o mais sinceramente possível. Número um: creio que para o Estraca não é bom.

Pode aprisioná-lo, até?

Acho que sim. Eu estou com quase 20 anos disto. Nós tínhamos uma grande vantagem em relação a esta nova escola. Nós podíamos errar na invisibilidade. Eu cometi muitos erros, fiz música más que pouca gente ouviu [risos]. Eles agora estão muito expostos. O Estraca tem 22 anos. E tudo o que ele lança é visto por milhares e milhares de pessoas. O Estraca é condenado por cada erro que der. Eles estão a crescer com muita pressão. Muita, muita pressão. Dares esta coisa do novo Valete ao Estraca, ou do novo Sam ao Slow J… Eu acho que é terrível. Primeiro para o Estraca. Número dois: eu acho que cada MC tem que ter a sua identidade. As pessoas têm de acabar com essa coisa de procurar novos heróis. Obviamente, haverá novos heróis. Mas não necessariamente para substituir outros. Mesmo que o Valete deixe de rimar, eu não gostava de ouvir que está aqui um novo Valete. Eu acho que nem é bom para essa pessoa.

Isto não é também a cultura a lidar com com o facto de… Em ’94, ninguém imaginava que um dia houvesse rappers em Portugal com 20 ou 25 anos de carreira. Nunca se pensou nisto como uma coisa a longo prazo. Ia-se para o quarto, gravava-se uma mixtape e isto um dia ia acabar. Hoje, de repente, há um bocado essa ideia de… Tu tens rappers que já são pais. Agora imagina um dia um rapper fazer uma música para um neto...

Eu creio que já deve haver um ou outro rapper avô.

Sim, o Barrako já é avô, creio eu.

Eu acho que nós estamos com um problema grande agora, no hip hop português. Que é, até por causa da massificação do rap, nós estamos com muito produto musical juvenil para miúdos de 12, 13 anos. Temos muito produto. E não há problema nenhum. Nós temos uma audiência gigante, de pessoal que tem 20, 30, 40 anos e que adora rap e cresceu com a nossa geração. Alguns cresceram a ouvir rap americano dos anos 80. E estão com muito pouco produto. Muito pouco produto. Eu lido com essas pessoas a toda a hora. Deixaram de ouvir discos, porque não há discos para eles. Há muito poucos discos. Então, o que o rap mais precisa agora — e fazendo uma análise, assim, mais sociológica — é de produto para uma audiência adulta. Há muito pouco produto para essa audiência adulta. Então, o que nós mais precisamos é de rappers com 30 anos, 40 anos. Isso é o que tu precisas mais. Porque há uma audiência gigantesca que quer ouvir isso. O rapper que hoje tem 30 ou 40, se ele rimar a idade que tem, ele é super necessário.

Mas não há gente a querer escrever as rimas que essa geração precisa de ouvir, não é?

Sim. Eu sei qual é o problema. O problema é que, realmente, se tu quiseres fazer 100 datas por ano, vais ter que apelar ao público juvenil. São os miúdos que têm mais energia. Não quer dizer que os outros não estão a ouvir música. Estão e querem ouvir. O problema é que se calhar não têm aquela energia para ir aos concertos a toda a hora. Quando tu fazes aquelas 80 ou 100 datas por ano, quando és o artista da moda, tu tens mesmo que entrar com muita força no público infantil e juvenil. E toda a gente quer isso agora, fazer essas 80 ou 100 datas por ano. Mas, até pensando financeiramente e comercialmente, o streaming está a pagar cada vez melhor, tu já tens rappers a viver ou que poderiam estar a viver só do dinheiro do streaming, essa audiência dos 30 e 40 anos está no streaming também. É possível tu fazeres um rap adulto e teres esse revenue do streaming.

Ok. Outra rima: “Lá na zona só se debate sobre a nova escola/ Quem é o novo Maradona quem é o mano que move a bola/ Quem é o novo Zidane, quem passará no exame/ Dillaz, Holly Hood, Slow J , Prof ou G-Son”. Isto és tu a identificar talentos em que acreditas? Ou estás a desafiá-los?

É isso. Estou a identificar e também porque tenho um grande respeito por eles, porque acredito que conseguiram todos essa projecção afirmando uma identidade muito própria. E também, na sequência da pergunta que fizeste sobre o Estraca, não interessa se eles são o novo Valete. O Estraca será grande quando for o Estraca e quando o deixarem de comparar com outras coisas. Esses nomes que tu estás a ver aí, eu acho que eles já caminham sozinhos e têm uma marca muito vincada. Tu sabes o que é um som do Slow J, tu sabes o que é um som do Dillaz, do Holly Hood. Então, grande mérito para eles. Para além do meu reconhecimento à trajectória e ao talento, eles também são os gajos que estão na boca das pessoas. No fundo a rima também serve para isso. Eles são os miúdos de quem o pessoal está a falar como os gajos que vão carregar a tocha do rap e da cultura hip hop. E quero que eles sintam que é uma missão que eles devem abraçar, carregar essa tocha. Porque eles vão-se confrontar com muitas tentações, mas creio que a primeira coisa na qual eles devem pensar é na tocha que eles estão a carregar já nesta altura. Vai aparecer muita coisa, eles vão ter muita pressão. Mas se eles pensarem na tocha as coisas vão correr muito bem para eles.

Tu disponibilizaste dois episódios das sessões que estás a fazer no Big Bit. Falas sobre questões muito importantes e profundas, ansiedade e depressão. Tens que ser muito bom antes de ser muito famoso. Qual é o teu objectivo com isto? Como é que meteste este plano em marcha?

Foi um bocado espontâneo, sabes? Eu gravo no Big Bit há muito tempo.

É uma casa.

Ya, há mais de 15 anos. E eu observava que, actualmente, a Big Bit é, posso arriscar, o estúdio em Lisboa, cidade, com mais actividade. Muitos estúdios fecharam. A Big Bit é um estúdio com muita actividade e toda a gente passa pelo Big Bit. É um estúdio que gravou alguns dos melhores talentos da música portuguesa. Talentos que hoje são incontornáveis. E eu sempre tive conversas, debates incríveis no estúdio. Eu sempre pensei “foda-se, nós devíamos gravar esta merda”. Sempre pensei isso. Conversas minhas com o Sam, Regula, Phoenix, pessoal da nova escola que também já gravou lá… Então eu quero documentar mais isso. Eu passo muito tempo no Big Bit, com muita gente que vai passando por lá, tanto novos talentos como pessoal mais antigo. E eu quero documentar cada vez mais, isso. A importância que tem a Big Bit na cultura hip hop, estas conversas e, às vezes até, estas músicas de novos talentos que as pessoas vão reconhecer daqui a alguns anos. Quero documentar isso. É um estúdio icónico.

Quais são os próximos passos? Sabemos que podemos esperar por um álbum. Até lá, o que é que se vai passar e que tu possas revelar?

A forma de fazer este álbum vai ser um bocado diferente, mais fácil para mim. Vai-se chamar Em Movimento, porque é realmente um álbum em movimento.

Ou seja, estás a dizer-me que sabes como é que ele começa mas ainda não sabes como é que acaba?

Exactamente. Não sei como é que acaba o disco. O que também é muito fixe. É mesmo muito fixe. Toda a música que eu finalizar no estúdio, é só uma questão de se fazer o videoclipe e lançar. Não vai ser aquele processo de me trancar seis meses ou um ano no estúdio, aglomerar 15 ou 20 canções e depois lançar 15 ou 20 temas inéditos. Nada disso. A música que eu finalizar no estúdio é misturada, masterizada, faz-se o vídeo e lança-se. Em Movimento. Eu tenho o álbum pensado mas, naturalmente, daqui a seis meses, pode ser outra coisa. E isso também é bonito. É bonito para mim. Vai ser mais confortável, porque já não tenho aquela coisa de, de repente, o álbum que eu comecei em Janeiro, em Novembro já não gosto das primeiras músicas. Acontece muito. Porque ficas com muitas músicas acumuladas.

Eu ia perguntar-te: quantos discos acumulaste em casa?

Uff… Três, porque um deles era duplo. Um deles tinha 20 e tal canções.

E o teu problema era esse? Entre a primeira música que fazias e a última, achavas que havia ali um desfasamento e que já não te representava?

Sim. Esse era o meu grande problema. Eu começava um disco em Janeiro e em Outubro já não gostava de metade das canções.

E tu achas que um dia, quando tiveres 65 anos, vamos ouvir esses discos? Ou foram destruídos?

Eu tenho-os lá mas quero destruí-los. Porque acho que não merece… Eu já cometi esse erro. Eu lancei uma mixtape, a Contra-Cultura, e fui lançando uns sons, em que eu partilhava o meu “lixo” com as pessoas. E eu acho que o lixo tu não partilhas. O lixo é para pôr no lixo [risos]. Eu acredito bué nisso.

Também há a frase que diz que “o lixo de uns é o tesouro de outros.”

Pronto. Essa frase existe. Mas o meu lixo não é o tesouro de ninguém, garanto-te [risos]. Eu já fiz isso e fui muito criticado pelos fãs. Eu compilei a Contra-Cultura com demos que eu tinha, coisas inacabadas que eu tinha no estúdio e que eu sabia que não ia lançar. “Mas olha, ‘bora partilhar com os fãs, como o Nas faz com as The Lost Tapes“. E eu fui muito criticado. “Hey, isto não está fixe, Valete”. [Risos] Estás a ver? “Se eu não gosto e vocês também não gostam, então não se partilha mais.”

Então um dia vai haver uma fogueira, algures num jardim, em que vão estar a arder uma série de masters?

Estamos numa era digital, né?

Uma fogueira digital.

Sim. É para deitar fora.

E se estamos aqui no início de um processo que tu não sabes como vai terminar, não me podes, obviamente, revelar o fim da história, porque tu próprio não a conheces. Mas podes revelar-me qual é o próximo passo. O que é que vai acontecer?

Eu vou finalizar um videoclipe amanhã.

Com a mesma equipa que mencionaste há bocado?

Com a mesma equipa. O SP, por acaso, não participou agora. Mas o Dino… Tu nem os vais notar. São aqueles toquezinhos, estás a ver? O Dino e o Here’s Johny, eles estão lá. É a mesma equipa. E eu, nesta equipa, também incluo o pessoal do vídeo. Estou a trabalhar com o pessoal do Afro Digital, os 93 Studios. Eu sinto que eles estão num estágio de competência muito alto e eu quero explorar os gajos um bocado mais. Eu creio que nesta altura já dá para fazer coisas mais elaboradas com o pessoal do vídeo em Portugal. Tens pessoal mesmo muito competente. Eu creio que já há alguns gajos de nível internacional em Portugal, a fazer vídeos…

Como, de resto, na produção também, não é? A coisa está muito evoluída a esse nível.

Sem dúvida.

Portanto, finalizas um vídeo novo amanhã, dizes tu. Isso significa que em breve temos um som novo na rua?

Em Agosto ou Setembro, lanço.

E em palco, o que é que se vai passar?

Pronto. Eu lancei um som em Junho e a nossa ideia era começar a fazer coisas a partir de Setembro. Porque, sabes, as coisas do Verão já estão marcadas desde o início do ano. Mas começaram a cair bué convites já para o Verão. Então vou já para a estrada. Tenho já uma data para o Algarve, acho que é Vilamoura, depois Tavira, depois vou para Espinho, vou a São Tomé pela primeira vez. Estou já com muitas coisas para o Verão, porque o single correu bem. Vamos estar aí na estrada.

E o formato na estrada, como é que vai ser? Alguma novidade?

Creio que vou ter uma novidade mas não para já. Tenho o meu homem das máquinas, que não é um DJ mas sim um produtor que vai largando os beats e que está a aprender a tocar bateria. Então, em Setembro, eu creio que ele já vai estar bem apto para tocar os nossos beats ao vivo. Talvez leve um baixista, ali com uma coisa assim meio coreografada. Creio que as pessoas vão gostar.


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