Valas, Holly Hood e Regula: triunvirap no Caparica Primavera Surf Fest

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTOS] Sebastião Santana

O surf deu à costa. E para o receber, a Costa de Caparica parece ter escolhido roupas a condizer. Das bancadas com vista para o mar, local predilecto para observar as manobras nas cristas das ondas, passando pelas rampas e percursos de skate, que trazem à memória jogos de consola onde tudo parece fácil, e acabando na generosa tenda iglo que alberga os concertos sabiamente guardados para a noite, tudo faz sentido e joga em função da harmonia entre praia e areal já existente.

É precisamente dentro do iglo que nos encontramos de momento, à espera dos concertos de Valas, Holly Hood e Regula. Enquanto se ultimam detalhes para o início das hostilidades, os dois ecrãs que ladeiam o palco vão passando imagens alusivas ao que já aconteceu neste espaço. Há testemunhos de artistas como Slow J e Allen Halloween, demonstrações de capoeira e entrevistas a atletas da modalidade que dá nome ao festival secundadas por pequenos vídeos que mostram a sua destreza dentro de água. Por detrás de um grande homem (festival), há sempre uma grande mulher (Caparica). E, a avaliar por tudo o que nos rodeia, esta cidade parece não ter feito a coisa por menos.

 


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Valas é o primeiro artista a subir ao palco, numa altura em que a plateia ainda se encontra em fase de composição. A fotografia mais imediata que nos é possível tirar é a de um público muito jovem, no limiar da idade para o consumo de bebidas alcoólicas, com uma vontade de estar e assistir que se estende muito além do cabeça de cartaz, ou seja, Regula. E prova disso é que não deixam as canções de Valas à mercê do nada, aproveitando, sempre que possível, para acompanhar a letra, como servem de exemplo “Bitches & Dogs”, “Fyah no Hood”, “Acordar Assim”, “As Coisas” e “Alma Velha” (que, infelizmente, não trouxe Slow J a palco). É também nesta fase que o PA começa a evidenciar alguma fragilidade. Os instrumentais não chegam à plateia com a força desejada e as vozes soam um tanto ou quanto agressivas.

Valas é um rapper em fase de ascensão, é por isso normal que ainda não tenha reunidas em si as faculdades necessárias para conquistar uma multidão, porém, o que demonstra em palco é uma enorme vontade de lá chegar. Não lhe falta atitude, colocação de voz e, acima de tudo, ambição. É uma questão de tempo e repertório.

 


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A ovação na entrada de Holly Hood é incrível e espelha bem a sua representatividade no hip hop português, mais precisamente nos meandros do trap, subgénero no qual se assume como um importante símbolo. O indício vem à boleia de “O Meu Nome”, canção que abre o concerto. Há pessoal a saltar pela vida e a cantar a letra como se esta fizesse parte do cancioneiro popular, entoando o refrão a plenos pulmões. Holly Hood, de óculos de sol e boné branco, acompanhado por elementos da editora Superbad, não poupa na atitude. Salta de um lado para outro, puxa pelo público e faz do palco a sua casa, contagiando, por isso, aqueles que na audiência fazem a festa, numa altura em que a lotação atinge a sua capacidade máxima.

Sem grandes intervalos para conversa, apenas tempo para respirar e pouco mais, Holly Hood vai explorando O Dread Que Matou Golias, álbum lançado no ano passado, do qual retira temas como “Cartas da Justiça” (com a participação de No Money), “Qualquer Boda” (que, infelizmente, não trouxe Regula ao palco), “Spotlight” (dedicada às mulheres presentes e com iluminação em tons de rosa), “Panorama” (com direito a homenagem ao falecido Short Size) e “Fácil” (uma das mais celebradas). Holly Hood é o tipo de rapper que, apesar do concerto em nome próprio, não gosta de ter o foco de luz apenas dirigido a si, por isso, divide protagonismo com aqueles que o acompanham: Mo Money interpreta “Veneno” e 9 Miller dá voz a uma música que, segundo palavras do principal anfitrião, “verá a luz do dia nas próximas 24 horas”. O remate surge na voz de Holly Hood e Bigg Favz, com “Cobras & Ratazanas”, canção que encerra a actuação tal e qual como esta começou: em ambiente festivo.

 


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Regula é, muito provavelmente, o rapper português com menos dinâmica de palco que mais plateias consegue incendiar (tentem entender a ideia antes de começar a arremessar pedras). Compará-lo com Holly Hood, por exemplo, é comparar o dia com a noite. Regula mantém-se quieto, no centro de cena, e raramente – quase nunca – embarca em corridas e saltos de um lado para o outro. Todavia, são as canções o seu maior sustento, é através delas e de todas as vivências focadas em si que consegue contagiar da primeira à última fila. As histórias surgem envoltas em experiências de bairro e embebidas numa atmosfera gangster digna de uma película cinematográfica. É todo este imaginário que o coloca entre os melhores rappers em álbum e, por mais incrível que possa parecer, derivado ao que já aqui foi explicado, ao vivo.

“Tarzan” assinala a entrada, algo atabalhoada (evidenciando que esta não será a melhor música para abrir concertos), e mostra-nos um Regula de boné e óculos, flanqueado pelos seus “sicários” (um deles trata dos backvocals, o outro limita-se a marcar presença: vai virando garrafas de vinho como quem bebe água e exibindo orgulhosamente as suas tatuagens). A recuperação não se faz demorar. “Casca Grossa”, “Nasty” e “Langaife” roubam ao público efusivos coros e mostram que o primeiro milho é dos pardais, afinal de contas, estamos perante um artista com anos de experiência que certamente saberá como e quando agarrar o público. “W.O.M.B.” faz as delícias dos herbanários presentes, “Nívea” sugere uma solução para as dores de cotovelo, “Bar Aberto” serve de mote para os jovens que desde o início do espectáculo andam numa constante correria entre plateia e bar, “Nada a Ver” faz soar o célebre “nicooooooo”, e “Kara Davis” leva-nos até aos tempos das mixtapes. Euforia total na plateia e o concerto ainda vai a meio.

Segue-se “Toni do Rock”, que vai ao encontro da faceta “goodfellas” deste Robert de Niro do rap – os envelopes com dinheiro, os cães rafeiros e as lerpas “com dois ou três velhotes barbeiros” ajudam nessa ideia. O público vibra e mesmo que a mistura sonora não seja a melhor e não nos traga a voz do artista nas condições ideais (como foi constante a noite toda), não desiste na vontade de acompanhar a letra. “Solteiro” (com um início a cappella), “Mémo a Veres”, “Casanova” (com o verso “está a dar de stick, não é só roça roça” a ser entoado em uníssono) e “Cabeças de Cartaz” (a primeira e única vez que o rapper se mexeu realmente em palco) encerram o espectáculo com chave de ouro e em apoteose. Eles disseram “Gula cospe” e ele cuspiu. E pouco mais precisou fazer para arrebatar os presentes.

 


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