Uno continua a preferir O Caminho Mais Difícil

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

A nova temporada já começou no Consultório. Uno apresentou O Caminho Mais Difícil no passado domingo. O álbum que conta com as participações de Tilt, Pilha, Rott ou D’Éléments.

Este é o segundo LP de originais na carreira de Uno, que em 2016 formou o seu próprio selo discográfico para se multiplicar em diversos projectos que o levariam a contracenar com outros artistas próximos da sua órbita. Foi nesse mesmo ano que nos deu a conhecer Teorias Que Não Interessam a Ninguém, notável álbum de estreia, no qual, para além de escrever, assumiu grande parte da responsabilidade musical ao produzir e tocar grande parte do que nele ouvimos.

Apesar de dotado de um alinhamento maioritariamente a solo, Uno abriu os braços a mais colaborações para atravessar aquele que é O Caminho Mais Difícil. Pilha ganhou maior destaque em comparação ao seu antecessor e D’Éléments teve um voto de confiança por parte de Uno, que durante uma estadia na Suíça atacou alguns dos seus beats e o deixou encarregue da masterização do seu novo disco. A mistura e pós-produção é assinada por TK, habitual parceiro nas rimas, com Tilt, Rott ou Cevas entre os MC chamados a prestar provas na fita.

O Rimas e Batidas conversou com Diogo Colaço, que explicou alguns dos detalhes mais significantes da sua nova obra.

 



 Vamos começar pelo título: que “caminho mais difícil” é este a que te propões atravessar?

É um caminho onde sentes que podes morrer sem o atravessar e continuas bem com isso, por ser o teu. É impensável para mim qualquer raciocínio do género “é isto que está a bater então olha… paciência… vou fazê-lo”. Sempre preferi, por muito que me custe, trabalhar no duro ou ser sustentado pelos meus pais, cheio de peso na consciência. Às vezes aparece-me uma solução fácil para um problema que tenho. Muitas vezes é fácil e eu só não tinha chegado lá, mas outras vezes não vou resolver dessa forma porque vai contra os meus princípios. É essa a minha postura em relação à divulgação e promoção do meu trabalho.

Fazendo a ponte entre este disco e o teu antecessor — Teorias Que Não Interessam a Ninguém —, o que é que mudou para ti, enquanto artista, nestes dois anos?

Antes de finalizar o Teorias já andava a trabalhar lentamente em novas faixas que queria incluir num novo projecto (como está a acontecer agora). Pouco depois de o lançar, decidi (subitamente) ir viver para a Covilhã uns tempos. Congelei a matrícula da faculdade, tirei uma formação de Animação IPSS e estagiei num lar de idosos. Foi nesse período que comecei este álbum. Ia fazendo uns beats, escrevendo, gravando os rascunhos e enviando ao Pilha, ao Benny e ao TK, para pedir opiniões. Já quase a terminar a escrita do álbum, no Verão de 2017, fui convidado pelo D’Éléments — vão ouvir a cena do mano — para ir lá passar umas férias à Suiça. Aproveitámos para fazer duas faixas (“Nada De Novo” e “Tens Medo do Quê”) que acabaram por me dar aquela pica que faltava para fechar a parte criativa do álbum. Foram dois anos de muito movimento. Ainda antes de ter ido para a Covilhã, começou-se a construir um estúdio cá em Lisboa. Acompanhei de perto o processo, pois vinha quase todos os fins-de-semana. Quando voltei, pude gravar lá os takes finais, acrescentei instrumentos que faltavam, o Pilha fez uns beats e consegui gravar convidados. Esse estúdio era para ter sido o espaço de uma label, mas não deu em nada. Entretanto, como estava paralelamente a acabar o meu segundo projecto com o TK (Do Glóbulo ao Globo), perguntei-lhe se podia dar uns toques na mistura e na pós-produção, dado que eu andava a curtir como a minha voz ficava a soar nas mãos dele. E assim foi, com toda a dedicação e amizade (eternamente grato). No final, o D’Éléments deu uma masterização geral e mandei vir os CDs. Desde 2016 fizemos acontecer muitas coisas para além desta: bastantes concertos dentro de vários âmbitos, vários EPs, álbuns… Muitas viagens para fazer rap. As coisas intensificaram-se. Em 2016 ainda era um ser bastante solitário [risos].

Noto aqui, se calhar, uma maior preocupação com a orgânica das faixas, recorrendo a mais instrumentos reais. Fala-me sobre o processo de composição destes temas e do cuidado que tiveste na escolha da sonoridade.

Quando estou a fazer beats uso tudo o que tenho à mão naquele momento. Nesta altura já estava a usar a Roland SP-404sx e um teclado MIDI (ligado ao Fruity Loops) para trabalhar os samples. Um baixo e duas guitarras (acústica e eléctrica) para dar uns toques. Tenho também uma bateria electrónica, que não uso sempre, pois produzo em vários locais. Quando faço um beat para mim, costumo preocupar-me primeiro com a melodia. Na minha vida nunca vi muitos filmes, por isso já um pouco antes dessa altura comecei a tentar recuperar esse tempo perdido. Dei por mim com imensos samples. Foram muitos filmes que interrompi assim que ouvi um bocado da banda sonora. Usei o GoldWave para extrair o som directamente do filme para WAV. Muitos dos beats deste álbum começaram assim. Das duas uma: continuava a ver o filme ou fazia o beat — não havia tempo para os dois. Depois de ter a base do sample e da batida punha-me a tocar cenas com os instrumentos e VSTs que tenho — umas vezes essas experiências ficaram, outras não. Os beats inspiram-me quando dão espaço para a voz. O meu terreno é a sonoridade de elementos simples e orgânicos, sempre aliados a algum tipo de dissonância e a acompanhar um ritmo constante. Eu e o Pilha fechámo-nos muitas vezes a fazer beats os dois. Mas quando fazíamos os dois naquele estúdio, com altas condições, saía uma música completa. Muitas vezes senti que a minha voz não ia fazer ali grande cena, apesar de me inspirar para escrever. O beat ficava cheio de instrumentos por todo o lado (vão sair quatro beats desses num EP, e ficaram sem voz). Para este álbum usei beats que ele fez sozinho lá no estúdio enquanto eu escrevia. Só acrescentei a linha de baixo. Na última faixa, com o Tilt e a Tradição, tocámos riffs de guitarra e de baixo à toa (completamente random, sem batida feita, nem eram frases, eram notas dispersas) e modificámos tudo radicalmente através de corte e costura, depois de construirmos a batida. Adorei o resultado. Até andávamos a fazer um álbum inteiro com essa vibe. Temos boas maquetes. Talvez o retomemos, um dia. Gosto de carregar os beats com originalidade, mas por outro lado, gosto também que os MCs oiçam e pensem “cuspia nisto com muito gosto”.

Tens temáticas muito distintas neste álbum, que vão da crítica ao egotrip ou storytelling. Ao nível das letras, que ideias tiveste desde sempre na cabeça para explorar?

Mesmo se quisesse, não conseguia cumprir à risca um plano prévio de temas para um álbum. Há sempre qualquer coisa que tem de aparecer à medida que vou criando. Preocupo-me em escrever coisas que são pensadas e ficam por dizer. Desvelar situações de constrangimento. Atraio, sem querer, situações caricatas. Coisas que só visto é que acreditas, mas por acaso estão sempre lá poucas pessoas ou nenhuma para ver. Costumo esperar por essas vivências. O som “AVÓzinha”, por exemplo, é uma história real, que surgiu quando já tinha a parte escrita do álbum quase pronta. Aquela senhora, se não fosse eu a estar ali por acaso, tinha passado a véspera de Natal sozinha. Quantas pessoas costumam passar a véspera de natal com prostitutas GILF abandonadas pela família? Essa oportunidade (que pouca gente quer) foi-me dada. Aparentemente pode não ser muito inspirador. Mas há, sem dúvida alguma, sumo nessa história para eu espremer. Melhor ainda: neste caso em especial retiro de lá uma lição que ainda não me tinham dado como deve ser. Eu dei-a a mim próprio. É esse o tipo de coisas que mais me chama para escrever. No entanto, gosto de escrever noutras ocasiões. Gosto de me fechar um dia inteiro no estúdio com um MC que sinto para fechar um som na hora, gosto de voltar a tocar em temas que já explorei, corrigir sons com outros sons… Há cenas que inevitavelmente estão sempre presentes. Apesar de toda a imprevisibilidade, este já respeitou muito mais uma estrutura prévia do que o anterior por “levar” a experiência do primeiro álbum.

Lançaste também o videoclipe para o “Nada De Novo” juntamente com a edição do álbum. Que crítica é esta que fazes, tanto no tema como no vídeo?

O som é sobre uma paranóia minha. E a partir do momento em que pedi ao Sebas [Sebastião Santana] para trabalhar num clipe comigo, ele conseguiu tornar a cena bem mais objectiva. O conceito do video é dele. A paródia é explícita: pessoal que pensa que está “a rebentar” ou “a dar o salto” porque juntou umas guitas para um clipe standard, decidiu tentar fazer um hit e agora tem mais seguidores; pessoal que toma medidas meio desesperadas para atingir números. O clipe representa uma situação hipotética em que eu, na minha ingenuidade, alinho no jogo e tudo corre mal (O Caminho Mais Difícil). Mais do que uma crítica, estou a assumir que não tenho personalidade nem paciência (nem o dom!) para entrar nesse jogo. É nesse ponto que o som e o vídeo se cruzam.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira