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Fotografia: Direitos Reservados

Asio Otus é a participação solitária do mais recente projecto do produtor português.

UNITEDSTATESOF sobre Selections 1: “Agora estou mais preocupado com a não-emoção e o não-humano”

Fotografia: Direitos Reservados

É a partir dum fade in subtil e harmonioso que mergulhamos em Selections 1 de João Rochinha, um produtor que tem dado cartas em diferentes âmbitos da música electrónica, mas com maior incidência na sua vertente mais imersiva e ambient. O seu regresso a trabalhos de maior dimensão a solo deu-se pela Rotten \ Fresh, a 10 de Março, editora pelo qual lançou também Selections 0, em 2018, e da qual é colaborador. Entre estes trabalhos, lançou ainda projectos com ADW e PURGA, dois duos de que faz parte, entre muitas outras faixas soltas e participações em compilações.

“Desde o último disco que UNITEDSTATESOF ficou em construção”, confessou-nos em conversa por e-mail. João Rochinha experimentava com regularidade e disparidade entre diferentes tipologias de performance e estilos musicais, e isso reflectiu-se em Selections 1 que, apesar da coesão sonora, dá a sensação de que esta jornada é para ser consumida de uma assentada — “é uma viagem por mais sítios”. O longa-duração compila várias sonoridades com que o produtor se identifica, os tais “mundos” que procura na sua música. Uma maior preocupação com “ouvir mais e tocar menos”, um maior interesse na passividade emocional e no que não é humano, emergiram neste trabalho de imersão variada, mas impreterivelmente ambient e em que a guitarra perde importância. Um software de produção e o acesso à Internet, como nos conta, foram a base da construção deste objecto sonoro. Pode-se evidenciar destas selecções o brilhante crescimento dinâmico de “Piccolo”, possivelmente o ponto alto do projecto: deparamo-nos com um abrupto caos organizado de loops, que se esvai para cães a ladrar no arrebol nova-iorquino de “In NY The Day Starts Now” – no qual demonstra um excelente trabalho de found sounds e field recordings. “Reverie” expõe o momento em que o elemento rítmico aparece mais claramente em Selections 1 e, mesmo aí, surge solto, descomprometido, esvoaçando no campo estereofónico. Sonicamente, embora seja desnecessário descrever com afinco, poderia ombrear com Huerco S., Kareem Lofty ou Vítor Joaquim por jogar com loops e motivos rítmicos etéreos – uma sonoridade reflectida visualmente na capa, muito precisa para o que é a estética de UNITEDSTATESOF –, mas também com HRNS ou Aires, em determinados pormenores texturais. A apresentação de Selections 1 teria lugar no dia 14 de Março, no Cosmos em Campolide. Dadas as circunstâncias, ouvir em headphones duma ponta à outra é a melhor solução. João Rochinha conversou com o Rimas e Batidas sobre a evolução na sua produção, os remixes que acompanham o disco (o lado B da cassete tem os nomes de Odete, Ondness, Oströl, TERRORRIBA, Swan Palace, FARWARMTH e mais) e o seu trabalho colaborativo.

Tens sido sempre prolífico a produzir, com várias participações em vários colectivos e compilações, por estares tão dentro do meio desta música electrónica mais underground. Demoraste algum tempo a voltar a lançar um trabalho maior por alguma razão? Acho que a resposta a esta pergunta está algures no que mencionas. Existem várias razões: agora vivo por minha conta e por isso o tempo que tenho para criar é mais limitado do que era em 2018; também estive mais envolvido na Rotten, mais noitadas em Odivelas nos nossos headquarters; e, por fim, estou sempre cheio de concertos, seja a tocar, a organizar ou a ver. Apesar disso, houve mesmo muito material a ser descartado nestes últimos dois anos. Acabei um álbum inteiro e um EP mais pequeno, mas destes dois projectos só a “London” sobreviveu – engraçado porque é a favorita de muita malta! Desde o último disco que UNITEDSTATESOF ficou em construção, quem esteve nos meus concertos percebe muito bem isso. Na diferença de uma semana mudava um set completo de 40 minutos drasticamente. Num momento estava a tocar numa ocupa em Setúbal com o Henrique Varanda a fazer projecções 8mm, e no outro estava a tocar nas DAMAS com baterista e saxofonista de jazz a improvisarem por cima da minha música. Não quis lançar um disco que tivesse tanta disparidade. Por isso demorou um pouco a conseguir chegar ao que queria. Pelo nome deste álbum – tal como no Selections 0 – dá a sensação de que isto é apenas uma compilação de faixas soltas, mas há uma coesão admirável entre estes nove momentos. O que é este Selections 1? Podem ser ambos resumidos como uma compilação de faixas soltas. As faixas podem até ter vários propósitos entre quando as começo e o momento em que as acabo, mas nunca faço grande relação entre elas. Para o primeiro disco, quando decidi que ele ia acontecer, o processo foi pegar quase apenas em material feito com 14/15 anos (ou antes) e editar, editar, editar. Acabei o disco mais ou menos quando fiz 18. Para este novo, as faixas foram todas feitas no último ano e usei poucas coisas de material passado. Para além disso, dedico mais tempo em mix e master agora, por isso é normal que soe tudo mais coeso. O Selections 1 é mais uma vez a demonstração ou aproximação dos mundos que eu procuro na música. Mais faixas, mais mundos. Para mim, na verdade, está menos coeso nesse sentido [risos]. É uma viagem por mais sítios.  No meio destes registos enevoados, conseguimos ouvir algum sampling e aquilo que me parecem ser gravações tuas a tocar guitarra, não? Que material usaste para gravar o Selections 1? Mudou de alguma maneira relativamente a outros trabalhos teus? Neste disco não há guitarra. O meu uso da guitarra com a electrónica ultimamente ficou mais para quando toco em ensembles e em improvisos. Foi tudo DAW + acesso Internet. Estive mais interessado em produzir, construir… e menos interessado em “tocar” ou sequer gravar samples. Em seguimento da resposta anterior, para comparar os dois discos, onde num estive preocupado com as emoções e a humanização dos sons que utilizava, agora estou mais preocupado com a não-emoção e o não-humano. Isso obriga-me a ser mais inventivo com o som e a sua atmosfera, a ouvir mais e tocar menos. Diferencias muito o tipo de trabalho que realizas sozinho com a música que fazes em PURGA, ADW ou Monkey Flag? Talvez só com PURGA te aproximes desta sonoridade, mas mesmo assim é um tipo de trabalho muito diferente, não? Diferencio só no gosto que tenho, se pensar muito nisso. É sempre mais rewarding ouvir o que criaste com amigos do que aquilo que criaste sozinho. Até porque quando trabalho sozinho em coisas que são só para mim, fico mais obcecado com todo o processo e é mais difícil estar 100% satisfeito. Mas a nível “técnico”, yeah, não há praticamente nada em comum na minha abordagem a cada projecto diferente. Em PURGA é tudo improviso a partir das ferramentas e sons que uso em UNITEDSTATESOF; ADW é um projecto mais colaborativo, é quase “ok, eu faço os synths desta e tu fazes a batida”; Monkey Flag só toco guitarra e é a banda que tenho com os tropas, é ligar o fuzz e “jammar”. Fica aqui a notícia que estão todos a preparar coisas <3. Neste álbum só tiveste uma participação, além dos remixes. Porque escolheste Asio Otus para estar presente e qual foi a sua influência? É a pessoa que eu mais vezes descrevo como talentoso! “Spring Spreads One Green Lap Of Flowers” [é] malhão. Mais a tape na Urubu! Tivemos algumas jams longas e boas no ano passado e a terceira faixa foi algo que eu construí a partir de uma das gravações. Como temos gostos parecidos conseguimos ter alguma sinergia e era difícil não pegar num desses momentos. Ainda bem que fui ouvir esses jams enquanto estava a fazer o disco… O teu lado B, com todos os remixes que lá tens, podia quase ser uma lista de “Melhor Música Electrónica Portuguesa Actual”. Fala-nos destas escolhas e porque quiseste ter tantos remixes. Bem, no dia que eu tivesse um álbum com remixes, ia ter de estar cheio! Mesmo assim ficou a faltar o remix do Kenny Berg e do DRVGジラ [risos]. Basicamente, pedi a malta à minha volta que eu respeito e da qual a música me move. É muito especial ter remixes de amigos junto de remixes de pessoal que já ouço há algum tempo e que admiro muito tipo Odete e Ondness. Shout out à malta de lá fora também: o TERRORRIBA é um grande produtor e o remix dele deixou-me boquiaberto, Florian T M Zeisig — é de escuta obrigatória o seu EP ZZZZZzzzzzz — e o Arad Acid então… Foi um momento super gratificante ouvir o remix dele pela primeira vez. Quando ouvi a collab dele com Exael, “glass in plastic”, tive um momento “onde é que esta música esteve a minha vida toda?”, sabes? Por isso é muito especial ter alien drones bonitos do Joel no meu disco. Concrete Fantasies e Hydrarchy já tocaram na Noite Fresca, por isso já dispensam apresentações [risos]. Vão ouvir. Apesar de ser uma altura estranha para falar sobre o futuro: o que tens planeado? A quarentena está a inspirar novas ideias? Não, tem sido difícil fazer música desde que isto tudo começou. Mas tenho feito coisas. Tenho tentado desafiar o que música imersiva pode ser e desafiar as minhas noções daquilo que posso ser também. Sobre o futuro, estou em processo de deixar de me preocupar tanto. Tentar fazer as coisas acontecerem agora. É só voltarem a deixar haver gigs.

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