Uma biblioteca de library music

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Direitos Reservados

No texto que aqui dediquei à banda sonora de Roy Budd para o clássico Get Carter menciono os alvores da Internet, as mailing lists e fóruns de encontro e discussão que foram muito importantes para me encaminhar na direcção de muita música que hoje tanto estimo. Claro que o fascínio era muitas vezes directamente proporcional à inacessibilidade desta música: edições exclusivas do Japão, como era o caso da banda sonora de Get Carter, ou títulos de editoras com nomes exóticos como KPM, De Wolfe, Bruton, Themes, Conroy ou Boosey & Hawkes pareciam impossíveis de alcançar e por isso mesmo tanto mais desejáveis.

A minha desmedida paixão por library music foi inicialmente alimentada pela imaginação pois, na realidade, nem sabia ao que soava e só algumas das primeiras compilações dedicadas ao género, como a pioneira The Sound Gallery, de 1995, e a subsequente Bite Hard: The Music of De Wolfe Studio Sampler 1972-80, lançada em 1998, permitiram que começasse a perceber a vastidão do campo que a vaga designação “library music” cobria.

E o que é, afinal de contas, “library music”?

Com remotas raízes no campo do publishing que se podem investigar até ao século XIX, as companhias de Library Music, como a DeWolfe ou a Boosey & Hawkes, começaram a operar fornecendo música pré-gravada para licenciamento para cinema e para as empresas que produziam os chamados “newsreels”, mini-documentários sobre actualidades normalmente exibidos pelos grandes teatros antes do filme principal da noite. Com a imposição da televisão, estas companhias floresceram, criando catálogos organizados por “moods”, úteis para os produtores de filmes, de documentários, de telejornais ou de publicidade poderem rapidamente encontrar a música condizente com as suas criações: música que servisse, portanto, para ilustrar documentários sobre viagens ou sobre unidades industriais, música para cenas românticas ou de perseguição em filmes de orçamento demasiado curto para que se pudesse contratar um compositor e uma orquestra, peças para ilustrar delicadas paisagens campestres ou exóticos mundos submarinos em programas sobre a natureza, para filmes institucionais que instruíam populações sobre os procedimentos em caso de calamidades ou emergências, música para ilustrar programas educativos para crianças, entre tantas outras coisas. 

Ainda no já referido texto sobre a banda sonora de Get Carter, Mike Hodges, o realizador, referia até que nos seus primeiros filmes para televisão costumava recorrer a estas “libraries” pagando depois “needle time” consoante o número de minutos de música que decidia usar na banda sonora, ou seja pagando por cada segundo de música licenciada a uma dessas companhias. Havia, portanto, todo um mundo de novos conteúdos em busca da banda sonora ideal. Que se podia alargar, fui então percebendo, da electrónica mais experimental à mais lúdica, da folk ao rock psicadélico, do jazz executado por músicos de elite às suites orquestrais de pendor mais clássico, da música concreta à pop mais escorreita. Tudo isso (e tanto mais…) cabia dentro do vasto universo da library music.

Com o que ia lendo na Internet, rapidamente me convenci de que seria impossível alguma vez chegar até estes discos que nunca foram amplamente distribuídos em convencionais circuitos de retalho sendo antes fornecidos através de assinatura a estações de televisão, produtoras de cinema ou de publicidade, rádios, etc.. Nunca me passou pela cabeça que esses discos pudessem alguma vez ter chegado a Portugal. Até que, por volta de 2002 ou 2003, um telefonema mudou tudo.

Uma pessoa com quem costumava negociar discos (na verdade era ele que os negociava, eu limitava-me a comprá-los…) ligou-me a informar que me iria levar a um local em Lisboa onde estavam depositados uns quantos milhares de discos. A ideia era simples: ele pretendia ficar com todo o rock, mas eu teria livre acesso ao resto — “e ao que parece”, lembro-me dessa pessoa me ter dito, “há para lá muitos discos daqueles que procuras, de efeitos sonoros”. Os parcos exemplares deste universo que iam surgindo eram sobretudo desse campo: discos de efeitos sonoros — ruídos de comboios, sirenes, sons de animais, etc — normalmente editados pela BBC e igualmente usados para ilustrar pequenas produções caseiras. Mas eu sabia, pelo que tinha lido, que havia muito mais.



Quando finalmente cheguei ao local onde estavam armazenados os tais milhares de discos — uns 3 ou 4 mil, seguramente — percebi imediatamente do que se tratava: era um antigo estúdio de gravação de publicidade com uma vasta colecção de library music, com (quase) todas as editoras possíveis representadas: praticamente toda a série 1000 da KPM, a mais cobiçada, praticamente toda a Bruton, toda a De Wolfe, Themes, a francesa MP 2000, Conroy, Southern, Impress… Todas as editoras cujos nomes tinha aprendido a conhecer dos tais fóruns da Internet estavam ali representadas e eu lembro-me bem de ter, literalmente, perdido o fôlego.

Dessa colecção veio o grosso do acervo de library music que mantenho até hoje, com um outro lote significativo a ter-me aterrado nas mãos um par de anos mais tarde, desta vez vindo de um ferro velho (história verdadeira!!) que adquiriu à estação pública de televisão uma série de antigos armários ainda carregados de discos… As restantes compras que fui fazendo ao longo desta última década e meia foram mais esporádicas, um ou dois discos aqui e ali, normalmente em lojas com secções de segunda-mão.

Nem o lote do antigo estúdio de gravação de publicidade nem o dos armários da RTP continham quaisquer exemplares daquelas que são ainda hoje talvez as mais raras e valiosas libraries, as italianas, mas, felizmente, nos últimos cinco anos tem-se assistido a um intenso programa de reedição desse material, programa esse a que eu aderi fervorosamente, pois claro. E hoje, várias editoras, da Finders Keepers à Spettro, da Four Flies à Be With, Schema ou Trunk, entre tantas outras, vão trabalhando muito para finalmente fazerem chegar aos convencionais circuitos de distribuição muita música que durante décadas fez parte de inacessíveis arquivos e da memória de todos os que viram um determinado tipo de cinema ou de televisão, sobretudo na década de 70.

Nestes anos mais recentes, além de todas essas ultra bem-vindas reedições, há que saudar igualmente a edição de pelo menos quatro importantes livros, títulos essenciais para quem, como é o meu caso, se interessa por este arcano e hermético universo: é que os artistas que assinaram a grande música editada desta forma, de Alan Hawkshaw a Stelvio Cipriani, de Alessandro Alessandroni a Syd Dale, de Keith Mansfield a Janko Nilovic, nunca deram entrevistas à Rolling Stone ou ao NME, nunca viram a sua música ser celebrada nas páginas da imprensa musical nem os seus discos consagrados nas listas dos melhores de sempre em que nos habituámos a encontrar os Beatles, os Velvets ou os Bowies desta vida. A informação que lhes é devotada é por isso mesmo esparsa e preciosa, embora, mercê das abundantes reedições que mencionava, tenham nos últimos anos surgido vários artigos a darem atenção a este universo em publicações como a Pitchfork ou a Vinyl Factory.

É também importante mencionar o documentário The Library Music Film que espero ainda ver editado ou até projectado num dos festivais que por cá se fazem sobre cinema documental e que, acredito, deve ser obrigatório para qualquer pessoa com algum grau de interesse sobre este universo.

Os quatro livros que agora destaco representam o culminar do reconhecimento desta até há pouco obscura página da história da música do século XX, quatro preciosas janelas que nos permitem hoje olhar para dentro de um universo peculiar que evoluiu de forma autónoma, alheio às movimentações de fundo da indústria musical, embora sempre atento aos desenvolvimentos estéticos e tecnológicos no universo da música.


[The Music Library] de Jonny Trunk (edição original de 2005 da Fuel Publishing, revista e aumentada em 2016)

Jonny Trunk, patrão da Trunk Records, é uma das maiores autoridades mundiais em library music e o seu livro The Music Library, originalmente lançado em 2005, constitui um dos primeiros olhares consistentes sobre este campo. A primeira edição foi reformulada e expandida em 2016, oportuno gesto já que a dada altura os exemplares originais já atingiam preços proibitivos. Trunk aborda este universo pelo seu riquíssimo lado gráfico, compilando neste novo volume 625 capas diferentes de 230 etiquetas, facto que só por si já diz muito da vastidão deste terreno. E mesmo que o foco não seja especificamente musical, antes visual, este livro constitui um valiosíssimo guia que nos pode orientar pelo labiríntico ecossistema das editoras de library, oferecendo-nos pistas preciosas para as nossas próprias descobertas. E ajuda a enquadrar o lado gráfico das discografias de gente como Stereolab ou de toda a Ghost Box, por exemplo, que aqui buscaram abundante inspiração.

Jerry Dammers, o fundador dos Specials, sugere no prefácio deste livro, que talvez parte do fascínio exercido por esta música se prendesse com o facto dos seus artistas se deixarem ouvir, mas não ver: “não há fotos deles nas capas dos discos, nada que alimente um culto de personalidade, nenhuma moda, nenhum visual ou idade, nada que nos confunda”. Ainda assim, como este livro tão bem demonstra, estes discos não deixavam, através dos seus elementos gráficos, de transmitir preciosas informações sobre a música que continham: música moderna, prática, funcional e produzida em série, música, ela mesma, desenhada para cumprir um objectivo específico.

Como um catálogo de uma qualquer exposição num museu, este livro serve sobretudo como referência e pode ser entendido como uma ferramenta para quem se dedique ao trabalho de explorar este fascinante mundo musical. Altamente recomendável.


[Tele Music – Une Anthologie 50 Ans] (edição privada da própria Tele Music, 2017)

Por ocasião dos 50 anos da fundação da etiqueta de library music criada por Roger Tokarz, foi editado este excelente livro. O aniversário foi ainda assinalado com a edição através do Bandcamp de uma compilação que está disponível de forma gratuita e que é, como é óbvio, altamente recomendável, com música de grandes compositores como Bernard Estardy, Pierre Bachelet ou de Sauveur Mallia, criador dos Voyage e dos Arpadys, projectos aliás também representados nesta antologia.

A qualidade elevada da música que a Tele Music disponibilizou no Bandcamp tem perfeito eco no livro que editou em 2017: são quase 500 páginas profusamente ilustradas, com textos em francês e inglês e preciosa informação sobre os métodos de gravação, sobre os compositores e os músicos, sobre os diferentes títulos que compõem o seu fabuloso catálogo onde se encontram títulos fundamentais como, por exemplo, o álbum de Sauveur Mallia Spatial & Co., um portento de disco sound e funk electrónico, ultra cobiçado por produtores e DJs. É sobre esse catálogo, representativo sobretudo nos anos 70 e 80, com inúmeras pérolas coleccionáveis, que este tomo oferece uma generosa e informativa perspectiva.


[Unusual Sounds – The Hidden History of Library Music] de David Hollander (Anthology Editions, 2018)

Um dos primeiros discos que adquiri da Trunk foi a antologia de 2004 Dawn of The Dead, recolha de Jonny Trunk de música usada por George A. Romero no seu filme clássico de 1978. Essa “banda sonora”, nunca anteriormente lançada, consistia, na verdade, em música recolhida em vários títulos do catálogo da De Wolfe, com o cineasta a encontrar em composições de gente como Jack Trombey ou Pierre Arvay as ilustrações musicais perfeitas para o seu clássico de terror.

Faz por isso mesmo perfeito sentido que tenha recaído sobre George A. Romero a responsabilidade de assinar o prefácio deste excelente livro de David Hollander. Escrevia o mestre do terror, pouco tempo antes de desaparecer há precisamente dois anos, que este filme, feito em estreita cooperação com outro aclamado realizador do género, o italiano Dario Argento, teve em Itália banda sonora (excelente, diga-se…) assinada pelos grandes Goblin, mas Romero achou que esse score, pelo menos em parte, “missed the mark”: “Abandonei os Goblin em várias cenas e optei por library music. Uma dessas faixas que escolhi, ‘The Gonk’, acabou por se tornar no tema do filme”. Esse tema carregava a marca de Herbert Chappell, compositor britânico que assinou trabalhos não apenas para a De Wolfe, mas também, por exemplo, para a Conroy.

Romero explica detalhadamente no seu prefácio como escolhia a música e aborda com profundidade a ideia de utilidade da library music, que permitia em diferentes fases da produção perceber como se ia estruturando o filme, mesmo que a dada altura se tomassem outras opções para a banda sonora final. São informações como esta que fazem do tomo de David Hollander um título tão precioso para se entender este fascinante mundo. 

O livro reparte a sua atenção por etiquetas britânicas (contando com secções sobre a KPM, a Music De Wolfe, a Amphonic ou a Conroy e respectivos compositores), as alemãs (como a Sonoton ou a Coloursound), francesas (Montparnasse 2000, Tele Music, etc), italianas (CAM e Fonit estão obviamente representadas, bem como compositores incontornáveis como Fabio Frizzi ou Stelvio Cipriani e Stefano Torossi, autor aliás do clássico Feelings lançado sob pseudónimo e merecedor de reedição na portuguesa Golden Pavilion) e até norte-americanas (como a Parry Music Library ou a Emil Ascher Library), proporcionando, portanto, uma vista panorâmica do género.

Ou seja, leitura definitivamente enriquecedora e esclarecedora para quem procure saber mais sobre library music e alguns dos seus mais relevantes selos. Como no caso da Tele Music, também este livro inspirou a sua própria banda sonora, disponível em vinil, CD e para download através do Bandcamp.


[The Mood Modern] de Oliver Lomax (Vocalion Books, 2018)

Centrado sobretudo nos catálogos da KPM e da Bruton, The Mood Modern é um livro de Oliver Lomax que começou, precisamente, a tomar forma na internet num site já desaparecido, The Vinyl Vultures, em que recolhi muita informação , nomeadamente em entrevistas com grandes compositores deste universo que o próprio autor então generosamente disponibilizava, antes de perceber que esse “labour of love” poderia ser a base para um necessário livro que foi finalmente dado à estampa o ano passado.

Trata-se do primeiro lançamento em livro da Vocalion, selo especializado em reedições nas áreas do easy listening ou jazz que, entre várias outras pérolas, recolocou no presente Hum Dono, mega-clássico de Joe Harriott e do Amancio D’Silva Quartet.

Este é um livro muito diferente dos restantes aqui apresentados, um tomo indispensável para quem queira perceber o delicado funcionamento da indústria, sobretudo o lado do publishing, ramo de onde se desenvolveu todo o universo da library music e para o qual a contribuição de Robin Phillips, executivo falecido em 2006, foi absolutamente decisiva.

É a Phillips que se deve agradecer a criação do catálogo 1000 da KPM, o pilar de um pensamento moderno que permitiu às libraries evoluírem de células de produção de anódina música ligeira para verdadeiros laboratórios de inovação. E Lomax mergulha de forma séria e profunda nessa história, entrevistando os mais relevantes protagonistas e tornando nítida a até aqui difusa imagem destes relevantes catálogos que entre meados dos anos 60 e inícios dos anos 80 ofereceram ao mundo do cinema e da televisão icónicas bandas sonoras, muitas vezes anónimas, mas nem por isso descartáveis, como o passar dos anos veio a provar. 

Phillips foi também o responsável por em 1977, já noutra companhia, ter lançado o igualmente importante catálogo da Bruton, repleto de pérolas electrónicas e funky assinadas por mestres como Alan Hawkshaw, James Asher ou Brian Bennett. 

Duas das mais importantes histórias da library music são por isso mesmo finalmente documentadas num livro sério, resultante de uma aturada pesquisa e sustentado em preciosas entrevistas com músicos, compositores e produtores a quem até aqui não tinha sido dada grande atenção.

Desta leitura resulta, portanto, um sustentado e profundo conhecimento das dinâmicas criativas e comerciais que sustentaram a evolução destes catálogos, ainda hoje cobiçados por coleccionadores, DJs e produtores que entendem encontrarem-se aí irrepetíveis ideias de futuro.



Boas leituras!


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu

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