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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 07/01/2026

Há duas décadas a marcar a cultura a partir da cidade transmontana.

Um Testemunho de militância e amor ao hip hop: 20 anos de Brigada Real com o primeiro álbum em colectivo

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 07/01/2026

Embora com um foco preponderante nos grandes centros urbanos, há muito tempo que o hip hop em Portugal é um fenómeno transversal e verdadeiramente nacional, com células espalhadas por todos os distritos e regiões. Em Vila Real, a grande bandeira local em torno do movimento tem sido, desde 2005, o colectivo Brigada Real que aglomera diferentes artistas e grupos.

Lançaram em 2005 e 2007 os dois volumes da mixtape Refúgio, com o nome do estúdio e ponto de encontro a que chamavam casa. Desde então, vários dos membros foram lançando trabalhos a solo ou em projectos paralelos, mas ainda não tinham editado um novo disco enquanto Brigada Real.

O regresso aos lançamentos como colectivo, que também marca o primeiro trabalho de originais assinado em conjunto, aconteceu no passado mês de Dezembro com um sentido Testemunho. Sami-R, Keller, Ghandim, Anta.Wav, Oráculo, Shap3, 596David, Knut, LZD, Apenas Delirium, Milka, Phurmega, Brain Prototipu, Cenárius, Buli 2B, IMA, Louco, Fifty Mount, Ned, mind, Stiff, DUDE, OCL, Punhos Cerrados e Adam são os artistas que participam neste álbum, que ainda inclui uma colaboração com a conterrânea Emmy Curl.

Para assinalar o lançamento e os 20 anos de história, o Rimas e Batidas dirigiu uma série de questões aos Brigada Real.



Como e quando é que tiveram a ideia de fazer este álbum, em jeito de celebração dos 20 anos da primeira mixtape do colectivo? É o vosso primeiro álbum oficial como colectivo, depois das duas mixtapes e dos discos a solo? 

Sim, curiosamente só passados mais de 20 anos de existência é que lançamos o primeiro álbum de originais como Brigada Real. Tendo a Brigada surgido como um nome aglutinador de uma série de grupos e projectos, as mixtapes foram o principal veículo de reunião dos membros num só trabalho e às vezes acabaram por servir até como ponto de partida para a integração de novos membros. Apesar de haver referências à crew em alguns dos trabalhos a solo ou de projectos dentro da BR, a verdade é que nunca tínhamos tido o tempo e o impulso para avançar para um álbum. Pelo menos em parte, estará relacionado com a progressiva saída de Vila Real por parte de um número crescente de membros, a partir de 2008. Primeiro para estudar e depois para trabalhar. Neste ponto há que referir o Ghandim, um dos maiores motores do hip hop vila-realense e o mais prolífico membro. Foi ele que montou o primeiro estúdio caseiro o Refúgio , que se tornou no ponto nevrálgico e de encontro dos membros da Brigada Real. E foi ele o grande organizador das duas mixtapes. A sua ida para Lisboa, conjugada com a ocorrência de problemas técnicos no Refúgio, que entretanto tinha mudado para uma zona mais periférica da cidade, acabou por nos privar de um dos principais espaços de encontro e criação conjunta. A falta de um espaço de gravação foi colmatada com a criação de outros estúdios caseiros, nomeadamente pelo Keller, o Delite e mais tarde o Anta, mas que nunca se tornaram num ponto de convívio como o Refúgio era. E, com o avançar do tempo, à distância física juntaram-se outras ocupações, como família, o trabalho, etc. Provavelmente, essa combinação de factores contribuiu para um maior foco em projectos a solo e até para a diminuição do número de trabalhos no geral. Por exemplo, estava-se a preparar uma terceira mixtape, já parcialmente gravada, que está parada há mais de 10 anos. E chegou a haver a ideia de uma compilação, que também nunca chegou a arrancar. A ideia deste álbum tem como catalisador um concerto dado pelo Sami-R em 2022, para celebrar o décimo aniversário do seu EP R&S. Para esse concerto, o Sami-R aproveitou o facto de ter músicas e participações com quase todos os membros da Brigada e decidiu criar um alinhamento que incluía não só faixas do seu EP, mas também de outros trabalhos em que colaborou. Foi uma forma de celebrar não só o seu EP, mas também o percurso conjunto que tinha sido traçado até ali. Ele percebeu que, com algum esforço, tinha em mãos o poder de juntar numa noite quase todos os membros do colectivo em concerto. E desse concerto nasceu a vontade de dar forma a novos trabalhos conjuntos – primeiro com a ideia de gravar um cypher [a primeira faixa do novo álbum] e, depois, num jantar que fizemos no ano passado, a de celebrar os 20 anos da mixtape Refúgio – que culminou no álbum Testemunho. Como somos muitos, o Anta, Keller, Sami-R e Oráculo acabaram por ficar mais responsáveis pela organização geral e coordenação. O facto de sermos um grupo alargado, com diferentes interesses e experiências profissionais também é fixe, porque conseguimos ser bastante auto-suficientes e dividir tarefas. Por exemplo, toda a mistura e masterização foi feita pelo Anta, uma parte considerável das captações de voz foi feita pelo Keller e Sami-R nos seus estúdios, parte do conteúdo multimédia foi feito em colaboração com uma nova plataforma, a dispar.art, ou pelo Mind, Ima e Buli 2B, e toda a gente foi contribuindo com ideias, criação de conteúdo promocional, etc. E assim, num esforço conjunto e depois de mais de 20 anos, duas mixtapes e vários EPs, álbuns ou mixtapes a solo e projectos de membros da BR, surge o nosso primeiro álbum como Brigada Real. 

Todas as músicas foram feitas intencionalmente para este projecto ou também houve um processo de recolha de arquivo, daquilo que estava no baú? 

A maior parte das músicas foi feita intencionalmente para este álbum, no entanto houve algumas excepções. A primeira é a “Cypher 14 VR”, que surgiu no seguimento mais imediato do concerto de 10 anos do R&S, como já referimos, e só depois foi decidido que seria integrada no álbum, quando a ideia deste surgiu. A segunda excepção é a “Real”, que foi repescada de uma música inacabada do projecto Dharma, constituído por Ghandim e Seth. A meio do ano, quando estávamos a preparar o álbum, o Ghandim partilhou algumas faixas inacabadas e esta era uma delas. Faltava um refrão, a ser feito pelo Sami-R, e acabámos por decidir integrá-la no álbum. Como já não tínhamos acesso às pistas do instrumental original, o Sami-R criou um novo, inspirado no instrumental original do Ghandim. Mas as vozes do Ghandim e Seth que se podem ouvir foram gravadas há mais de 10 anos no Refúgio. E, finalmente, a “20 anos”, que resulta de uma selecção de diferentes trechos de músicas que constituíam a primeira mixtape

Como é que foi o processo de reunir todos os nomes que participam? E quem produziu os instrumentais? 

Isso foi relativamente natural e fácil. Juntámos num grupo todos os membros da Brigada Real e MC’s e produtores de ou a viver em Vila Real que nos eram de alguma maneira próximos. A maior parte dos participantes era já membro da BR ou da 2.0 Cru, que tinha entre os membros fundadores o Brain e Anta. Os instrumentais foram feitos por vários produtores — Fifty Mount, Sami-R, Keller, Anta, Buli 2B e Ghandim. Criámos uma pasta onde os instrumentais foram partilhados e a partir daí os MCs foram escolhendo. Quem sentiu vontade e se sentiu à vontade para participar, pôde fazê-lo. Na maior parte dos casos, alguém surgiu com uma ideia, uma letra ou gravação inicial para um certo instrumental, partilhou-a no grupo e quem quis pôde colaborar, acrescentando uma parte e tomando decisões conjuntas sobre como construir aquela música. Claro, houve excepções, como a “Limbo” ou “Testemunho”. De certa maneira o processo geral foi similar ao que acontecia nas mixtapes — e queríamos exactamente emular esse espírito, dando preponderância e foco a um processo de criação colaborativa espontânea. Não foi tão fácil como antigamente, porque muitos de nós estão separados fisicamente por largos quilómetros, mas a tecnologia actual ajudou. 

Era importante, com os skits, dar voz e lembrar membros que já não se encontram no ativo? Homenagear e celebrar a história como um todo? 

Sim, homenagear e celebrar a nossa história e daqueles que a fizeram connosco era o nosso objectivo principal para este trabalho. Queríamos que fosse um testemunho destes mais de 20 anos dedicados à cultura hip hop, ao nosso colectivo e à cidade. Relembrar o passado, o caminho, aqueles que o fizeram connosco e os que contribuíram para a criação e crescimento deste nosso espaço de comunidade que é a Brigada Real. Testemunho, tal como nós, é o resultado de muitos passados partilhados e só tem sentido olharmos para trás se virmos esta história como um todo, do qual nós e outros fizeram parte. Por isso quisemos ter referências a esse passado que nos trouxe ao presente — dar voz a membros que já não se encontram no activo, trechos retirados da mixtape de 2005, uma imagem do bairro da Araucária (berço da Brigada) como capa, e na capa interior fotografias tiradas ao longo dos anos e um verso do Cenárius. Porque este álbum encerra também a última gravação feita pelo Cenárius antes de nos deixar. 

Num país tão centralizado algo que também se nota na cultura e na arte, inclusive no movimento hip hop é importante que colectivos artísticos como os Brigada Real ponham o nome da sua cidade no mapa, afirmando e celebrando um movimento local? 

Sempre considerámos que sim! Claro que nós não criámos a nossa música do nada; antes, bebemos de várias influências, nacionais e internacionais. Mas desenvolvemos também a nossa especificidade e essa especificidade provém do local onde crescemos, das experiências que vivemos e do ambiente que nos moldou. Tudo aquilo que fizemos, todos os esforços que envidámos em prol disto, tudo o que construímos, partiu essencialmente da vontade de fazermos aquilo de que gostávamos e que nos dava um sentido. Sempre foram expressões pessoais e a assunção de uma identidade, em parte construída através da pertença a uma determinada área, é parte dessas expressões. O facto de “o representar” de um determinado local ser bastante comum no hip hop provavelmente contribui para que afirmássemos com mais frequência a nossa proveniência. Foi com naturalidade e como expressão de pertença e orgulho que celebramos o sítio de onde provimos e onde nos movimentamos Vila Real, a Araucária e o movimento hip hop local. Não com um intuito consciente, pelo menos não ao início, de contrariar a centralização. E acima de tudo, terá sido importante se contribuiu para que outros tenham também acreditado que era possível criarem, servindo como base e alicerce de quem quer que tenha começado a seguir a nós. 

Sentem que as coisas mudaram, nesse campo, entre 2005 e 2025? É mais fácil fazer música ou ter visibilidade artística a partir de Vila Real hoje em dia, com o desenvolvimento da Internet e das plataformas digitais? Ou as coisas estão iguais? 

Provavelmente, fazer música é mais fácil, porque através da internet o acesso a material, conhecimento técnico e até a uma maior panóplia de influências é muito superior do que era nos inícios de 2000. As plataformas digitais e a Internet também acabaram por aumentar o alcance potencial que a música pode ter e sem dúvida facilitar e agilizar contactos e colaborações. No entanto, de um ponto de vista do panorama nacional, continua a haver uma desigualdade de acesso a oportunidades. Menor acesso às redes de contactos, a financiamento, a exposição institucional, a espaços, ao público, etc. Em muitos casos nem é só a questão da centralização, mas também do tamanho das manchas urbanas. Como disse o Keller recentemente numa entrevista: “Se calhar o Marão antigamente tinha mais cinco mil metros do que tem hoje em dia”. Ainda assim, continua a haver um Marão. 

A participação da Emmy Curl, embora também ela seja de Vila Real, talvez seja a mais surpreendente. Como aconteceu essa colaboração? 

Havia já alguma ligação à Emmy Curl é de Vila Real, estudou na mesma escola que o Knut, Dude e Unique e o Anta integrou a banda dos pais dela. Curiosamente, a Emmy já tinha participado, há largos anos, numa música de um antigo grupo do Knut – os Coligação [Knut, Dude, Unique]. Para esta música, a “Notas do Viver”, o Knut tinha idealizado um refrão cantado. Enquanto estavam no processo de criação, o Knut e o Oráculo andaram um bocado às voltas, a estudar diferentes opções de refrão e no final ambos acharam que a Emmy encaixaria bem e contactaram-na através do Anta. Ela mostrou-se muito receptiva e aceitou colaborar connosco. Os dois raps já estavam gravados, a Emmy ouviu-os e passado algum tempo sugeriu-nos aquele refrão, que encaixou perfeitamente na música. Contribuiu para lhe dar uma sonoridade diferente, lembrando alguns cantares tradicionais portugueses. Considerámos que a conjugação dos dois estilos resultou muito bem e a Emmy deu um toque àquela música muito próprio, que a tornou especial. 

O que se segue para os Brigada Real? Como vai ser o vosso 2026?

Algo que gostaríamos de conseguir concretizar ideia que ganhou força no seguimento da festa de apresentação do álbum [no Café Concerto 259, em Vila Real], que contou com o DJ Cruzfader e os EnigmaCru é organizar uma festa deste estilo anualmente. Em termos de projectos mais imediatos, o Keller, Anta e Sami-R estão a preparar álbuns a solo. Esperamos que estes últimos anos e este álbum em particular tenham contribuído para motivar os membros da BR e que nos próximos anos isso resulte numa panóplia de novos trabalhos vindos do círculo da nossa crew, seja a solo, em bandas, colaborações entre membros ou um até novo trabalho da Brigada Real.


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