Um dia com os Tribruto em Vila Nova de Milfontes: o antes e o depois do espectáculo na discoteca Sudwest

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTOS] Joana Gomes (Camille Leon)

 

“3 Brutos” é um dos últimos temas a marcar presença no concerto dos Tribruto, na discoteca Sudwest, em Vila Nova de Milfontes. Por esta altura, RealPunch, Kristo e Gijoe queimam os últimos trunfos apelando à participação do público e recuperando ao corpo e alma as últimas energias para uma despedida em grande. Os fãs mais aguerridos cantam as letras do início ao fim, exibem as suas indumentárias alusivas à banda (adquiridas horas antes do concerto começar) e quase que lutam entre si por um lugar digno no pódio da entrega e devoção – cenário esse que comprova que, aos poucos, o trio está a colecionar seguidores de sul a norte do país. O concerto acaba de forma apoteótica, como mandam as leis, e os aplausos fazem-se sentir de forma instantânea. Missão cumprida.

 


 


Antes de regressar a casa, uma última passagem pelos camarins, uma zona improvisada numa das áreas da discoteca, para recarregar as baterias gastas no decorrer da actuação, faz as delícias dos fãs, que, por esta hora, procuram uma recordação da passagem do trio pela vila alentejana, seja em forma de autógrafo, registo fotográfico ou através de palavras, abraços e apertos de mão. O convívio instiga a partilha de histórias e opiniões, banda e fãs completam a sua associação simbiótica, as promessas de um regresso rápido não se fazem demorar. O ambiente está bom e aconselha-se, mas a necessidade de regressar ao asfalto obriga a uma interrupção no momento para arrumar as coisas todas e iniciar o processo de despedida.

Por muito que haja gente a pensar o contrário, a nossa realidade a nível de indústria musical não dá acesso às mordomias que lá fora são comuns, ou seja, não há nenhum condutor privado com uma limusine recheada de extras à espera do colectivo na extremidade de uma passadeira vermelha rodeada de paparazzis famintos. Há, isso sim, uma viatura pessoal, pertencente a um dos elementos, que, carregada até não mais, com todo o equipamento necessário para garantir a realização do concerto, regressa ao ponto de partida para então conceder à equipa o merecido descanso, que só viria a acontecer por volta das 9 da manhã, cerca de 18 horas depois do levantar de âncoras. Quem disse que a vida de artista era fácil? Recuemos no tempo para relatar esta história desde o início.

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O relógio marca 15:21, faltam poucos minutos para a hora marcada. RealPunch é o primeiro a chegar a um dos cafés mais emblemáticos de Loulé e recorre de imediato à cafeína como catalisador energético. Kristóman não demora a juntar-se ao seu parceiro de rimas. Mal se encontram, tratam de fazer a revisão da actualidade relativamente a músicas e álbuns novos e atuações no YouTube – há um concerto ao vivo de Busta Rhymes que é tema de conversa durante os primeiros minutos da viagem. Dá-se o arranque, deixando para trás uma cidade em preparativos para mais uma noite branca. A primeira paragem é feita na Kimahera, para recolher algum equipamento, a segunda em Portimão, para apanhar Gijoe e um quarto elemento que tratará de registar os concertos em fotografia e vídeo – a preocupação do colectivo em fazer chegar à internet o conteúdo nas melhores condições está vigente nestes pequenos pormenores.

A banda sonora para a primeira metade do caminho é garantida pelo falecido Sean Price, através do álbum Songs in the Key of Price, uma alusão ao clássico de Stevie Wonder. Os acompanhamentos não se fazem demorar. Kristóman e RealPunch têm a matéria na ponta da língua e entre elogios aos instrumentais e ao flow do rapper americano vão replicando algumas das rimas das músicas – não obstante a partida prematura e sem aviso, Price deixou-nos um álbum brilhante e intocável como forma de garantir a sua imortalidade. A segunda parte da banda sonora é garantida por Gijoe, que trata de partilhar a sua mais recente fornada de instrumentais com os companheiros. À medida que os beats vão rodando nas colunas do carro, Kristo e Punch vão ensaiando flows e procurando temáticas para temas novos. Os brainstorms são imediatos e desenrolam-se de forma espontânea, embebidos no humor habitual. Foi uma verdadeira viagem ao futuro do colectivo. Temos informações confidenciais que não podemos partilhar, mas uma coisa prometemos: vem aí material da pesada.

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O exercício de rimas e batidas continua quase até chegar à discoteca, salvo uma pequena pausa, na passagem pela Herdade da Casa Branca, habitat natural do MEO Sudoeste, para relembrar alguns momentos do concerto que deram, há algumas semanas atrás, na tenda Moche. Contam que, apesar da forte concorrência (a atuação dos Tribruto sobrepôs-se, durante alguns minutos, às de Anselmo Ralph e Hardwell), foi um bom concerto e, sobretudo, uma honra ter tocado num festival que tanto apoia o hip hop. As viagens mentais a edições anteriores não se fazem tardar, discutem-se as melhores performances (as opiniões relativamente às passagens por Portugal de Kanye West e Snoop Dogg dividem-se), o que acaba por alargar a discussão às melhores apresentações ao vivo de sempre e os melhores artistas em estilo A, B ou C. Aqui transpira-se hip hop, o que faz com que cada gotícula venha carregada de histórias, opiniões e outras considerações sobre a cultura.

A chegada a Vila Nova de Milfontes leva-nos diretamente à discoteca e ao soundcheck. Por esta altura, a localidade encontra-de recheada de actividades festivas, desde os concertos ao ar livre, passando pelo habitual frenesim na zona dos bares e acabando no próprio circuito de carrinhos de choque, cobiçado na primeira instância pelo trio. Os ensaios de som não tardam e marcam o último momento de trabalho antes do merecido repasto e restabelecimento de energias. No menu, são várias as ofertas capazes de fazer crescer água na boca a qualquer um; na televisão, o clube da luz leva ao desespero os adeptos mais aguerridos que, com o avançar da hora, começam a desacreditar que o jogo atraque em bom porto. Por coincidência, os golos chegam na mesma altura que a comida, proporcionando uma degustação mais eficaz e contribuindo para que o adeus ao restaurante se faça de sorriso na boca.

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São 23:20 e ainda faltam cerca de quatro horas para a subida ao palco dos Tribruto. Umas voltas nos carrinhos de choque ajudam toda a equipa, incluindo elementos da organização e equipa técnica, a desmoer o jantar e a queimar tempo. Há um fã que veste o fato de guia turístico e leva o trio a visitar a vila, conhecer algumas histórias rocambolescas e tomar um café e digestivo. À mesa, vêm à baila alguns assuntos da actualidade, entre outros, o recente tiroteio na Quinta do Conde que tirou a vida a três pessoas. A conversa foge em direção aos acontecimentos do presente e passado dos Estados Unidos (onde a loucura atinge patamares que por norma julgamos inalcansáveis) e aterra na tragédia do World Trade Center. Os ponteiros do relógio marcam a hora perfeita para o grupo ir trocar de roupa e preparar o concerto. É tempo de regressar ao Sudwest.

Nos camarins, os Tribruto vão tratando de se aperaltar para o espetáculo. Mais t-shirt, menos t-shirt, camisa, bonés – há todo um lado visual, aliado à própria componente vídeo e áudio, que pesa no dia a dia do colectivo. Não basta conjugar rimas e instrumentais, há que trabalhar a imagem que se passa para fora. E, parecendo que não, o facto de serem do Algarve obriga-os a terem maior preocupação com estes pormenores. Se ser português implica um trabalho redobrado, ser habitante da zona mais a sul do país, localizada a mais de duas centenas de quilómetros da capital, eleva ao quadrado esse grau de dificuldade. Mas sem queixume: os Tribruto preferem o trabalho ao lamento, sendo este o principal combustível da sua máquina.

Os minutos que antecedem o concerto podiam ser gastos a abrir garrafas ou a desfrutar dos pequenos privilégios que a vida de artista ainda consegue oferecer. Mas não. Como bons amantes e praticantes da cultura, Gijoe, RealPunch e Kristóman embarcam numa espécie de jogo do stop com nomes de projectos, bandas e músicos a solo de hip hop (produtores musicais e DJs também contam) que tenham pelo menos editado um álbum, dizendo ser uma espécie de tradição no backstage. O que torna este exercício realmente interessante é apercebermos-nos da quantidade de artistas relacionados com hip hop que há no mundo e o facto de, em situação de aperto, quando passa à nossa vez, não nos lembrarmos nem da décima parte deles. A competitividade é intensa, o momento é regado com humor. Aqui está uma boa forma de descomprimir e obrigar os ponteiros do relógio a rodarem mais depressa.

O momento lúdico estende-se até à hora do concerto, cerca das 03:40, hora em que a discoteca atinge a lotação razoável para o tiro de arranque. Subitamente, alguém rompe camarins dentro e alerta para o início das hostilidades. O habitual nervosismo que antecede a entrada de palco invade o trio, mas dissipa-se de imediato. Gijoe assume os comandos da maquinaria e atira-se à introdução de “De Volta à Carga”, rastilho eficaz para explosão certa, provavelmente, uma das músicas mais intensas de Chavascal. RealPunch e Kristóman entram em palco, pegam nos microfones e garantem a vocalização de forma irrepreensível. O público responde na mesma moeda, acompanhando o colectivo nas rimas. A casa vai a baixo.

 


 


Por mais que os Tribruto assumam uma postura brincalhona, alinhando, à semelhança do comum mortal, em momentos de distração e diversão, e parecendo encarar tudo com extrema leviandade, a verdade é que abordam a sua música de forma séria, sem sequer dar azo a que se possa pensar o contrário. Mesmo que brinquem com tudo o que os rodeia, incluindo-se a si próprios no objeto de estudo, os Tribruto vestem-se a rigor na hora de se apresentar ao vivo e dar o tudo por tudo, puxando pelo público e deixando as entranhas em palco, de forma a não decepcionar aqueles que os seguem sem qualquer tipo de restrição e que, em locais como o Sudwest, passam dias a distribuir cartazes e a promover o espectáculo de forma a garantir casa cheia. É esta a principal diferença entre o ser e o parecer.

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