O Último Tango em Mafamude também se dança nos Estados Unidos da América

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

A exportação bem-sucedida do património musical português tem um segredo? Afinal de contas, como é que chegamos lá fora? Existe um trajecto mais simples para alcançar o público internacional? Grande parte das vezes, e repescando um famoso cliché, o segredo é tão simples quanto seres tu próprio. “Acho que é mais fácil impressionar um americano a fazer musica à portuguesa do que à americana. O que nos torna únicos é a nossa cultura, o sítio onde nascemos e afins, por isso acho que talentos à parte, quanto mais regional for um artista mais genuíno parecerá aos olhos do público”, conta-nos David Besteiro, o produtor português que viu o seu mais recente álbum, O Último Tango em Mafamude, ser partilhado no Twitter de Anthony Fantano, o crítico musical com mais êxito na era digital e, olhando exclusivamente para os números, o mais lido visto em todo o mundo — quantos jornalistas musicais se poderão gabar de ter um milhão de subscritores e um milhão de leitores visualizações nos seus textos vídeos sobre álbuns de Kendrick Lamar, Kanye West, Frank Ocean, Tyler, The Creator, Drake, Gorillaz ou Eminem?

 



Numa era em que Tozé Brito e José Cid são samplados por Jay-Z e No I.D., DJ Nigga Fox lança projectos pela Warp Records ou PEDRO assina uma mix exclusiva para a Hypebeast, muitos se perguntarão se ainda faz sentido ficar surpreendido. Contudo, a história de dB é inédita e só reforça o poder da Internet no que toca à exportação. “Foi um apreciador do meu trabalho que lhe mandou uma lista de álbuns portugueses em que estavam nomes como Sérgio Godinho, Capitão Fausto, José Cid, Ermo, Sensible Soccers e afins. O Fantano respondeu-lhe a dizer que havia ali muita coisa boa, mas que ‘David Bruno is pretty fun‘”, revela o membro dos Conjunto Corona. João Narciso, fã do beatmaker e do criador do canal The Needle Drop, foi a ponte que permitiu este encontro musical inusitado.

Se os comentários de Fantano se resumiram a “Pretty dope artist from Portugal” (sobre David Bruno) e “this is pretty cool as well” (sobre Conan Osiris), uma breve troca de e-mails com o “nerd musical mais ocupado da Internet” deixou-nos mais algumas palavras sobre O Último Tango em Mafamude: “Eu achei que a música do Bruno era bastante doce e relaxante. Existe definitivamente um elemento de nostalgia, e gostei do flow contínuo do vídeo que ele postou online”. Sobre Portugal, o crítico acrescentou que apenas conhecia Moonspell (“vi alguns metalheads a falar deles online”) e José Cid (“o gajo do e-mail falou-me dele”).

Passado apenas um dia depois do tweet publicado numa conta com 336 mil seguidores, David Besteiro não se transformou num super sucesso — o vídeo no YouTube angariou cerca de 1000 views desde a publicação. O que é que aconteceu nestas 24 horas? “Pessoal a mandar mensagens, algumas vendas, mas nada de significativo! Foi mais uma vitória moral que outra coisa”. É caso para dizer, “Obrigado, Internet”.