Tristany: “Eu parto do princípio de que a minha música é um pouco apátrida”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Agora é a valer: Tristany regressa à promoção do seu álbum de estreia com a versão ao vivo para o tema “Mô Kassula”.

O artista multidisciplinar de Mem Martins deu a conhecer a veia que o liga à música com os Monte Real, tendo lançado o seu primeiro EP em 2015 — no grupo assinava enquanto Tristany Time Old. A orientação para o hip hop de cariz mais tradicional manteve-se até “Noites de Mem Martins”, o maior êxito da crew, que serviu como hino para uma nova geração de adolescentes que crescia naquela vila de Sintra, à margem do que as tendências ditavam.

Depois de ter largado Time Old e ter passado pelo projecto Oficina Portátil de Artes, orientada por Francisco Rebelo, João Tristany despiu-se de rótulos e focou-se em criar um novo género de música urbana, que classifica como “apátrida” e que é definida dentro do seu circulo de amigos como “sintranagem”. Por lá, os ensinamentos do hip hop não foram esquecidos mas a sua força nota-se especialmente nas palavras, veiculadas com a dor do fado na voz e embaladas em ritmos mornos vindos de África, que se destacam entre a mescla de esquemas que aplica às suas composições, que podem ir de um jazz-rock mais stoner ao trap num piscar de olhos.

Meia Riba Kalxa, o seu álbum de estreia, começou a ser antecipado em 2018 com o videoclipe/documentário “Rapepaz”, um retrato poético sobre a realidade da Linha de Sintra. “Mô Kassula” e “O Meninu Ke Brinkava Com Bunekas” surgiram logo depois e confirmaram Tristany enquanto um dos mais promissores artistas para o ano que então se avizinhava. Os três repentinos lançamentos criaram um certo culto à sua volta e nem Sam The Kid deixou de dar o shout-out ao rapaz que estava a moldar a sonoridade de Mem Martins num dos episódios de Três Pancadas. 2019 ainda arrancou com um descontraído “PeSkaDoR di fUbA 2 … (partimento de Leve)”, mas o silêncio reinou nos meses que se seguiram.

Desta vez já não se trata de um ensaio. Meia Riba Kalxa está mesmo a caminho, vai contar com Chullage entre a lista de créditos e engloba os três temas já servidos em vídeo anteriormente. “Mô Kassula”, uma homenagem ao saudoso amigo Marco Boto, foi agora alvo de uma recriação ao vivo, num cenário imaginado por Tristany e Diogo Carvalho, recuperando várias peças e manifestações de arte com assinatura do próprio músico. Suzana e Ari acompanham-no nesta aventura, que serve também como um ensaio para aquilo que poderá ser uma live performance de Tristany quando for a altura certa para apresentar em palco o tão aguardado disco.

O Rimas e Batidas assistiu à gravação do vídeo e trocou algumas impressões com o multifacetado artista acerca da canção, da sonoridade que desenvolveu e do LP que se avizinha.



Este tema tem sabor a dedicatória.

Ya. É uma dedicatória a um amigo nosso que já partiu. Mas ele partiu a fazer uma coisa que gostava. Basicamente este som foi construído para ser uma dedicatória a ele, não um tema a pensar na morte ou assim. Simplesmente uma dedicatória ou uma homenagem.

Acho que o que mais se nota nessa construção, musicalmente, são as heranças que recolheste dos ritmos e melodias de África. Mas vejo também aqui um certo fado.

Eu parto do princípio de que a minha música é um pouco apátrida [risos]. Sem tirar partidos. Tenho bué raízes na música portuguesa, na música lusófona, toda ela, e principalmente esta, na versão de estúdio, eu sinto que tem um caminho diferente. Mas ambas as versões se cruzam no sentimento e na energia. Em relação ao fado e à música africana, também tem muito esse travo. Eu sinto que nesta performance foi muito fácil recorrer às inspirações que eu tenho em termos de espaço, daquilo que é um concerto, do que é que é uma disposição de arte sonora e em movimento. Tem muito esse travo. Coisas que fui aprendendo com o meu cota.

“World music” é logo aquele rótulo que nos vem instantaneamente à cabeça. Mas esse é um rótulo é super abrangente. Como é que tu defines a música que esculpiste nesta tua fase criativa? Até porque tu vens do hip hop, na sua vertente mais tradicional, mas ultimamente voaste para outras paragens.

Eu vim do hip hop. Estive no hip hop, ou experimentei o hip hop. World music, talvez mais para os menos intendentes. Eu prefiro dizer “sintranagem” [risos]. Mas isso é uma dica do meu tropa Mani. Ya, acho que é isso, “sintranagem”. Ou música feita naquele espaço. Não só na Linha de Sintra mas por toda a sua periferia. Eu agora estou assim. Isso não significa que daqui a uns tempos eu não esteja a experimentar outras sonoridades. For real. Outras estéticas. Mas sinto que agora isto é uma sonoridade que tem de ter a sua própria identidade. É uma sonoridade que está inexistente do espaço… Ela existe nos grandes centros urbanos. Apenas não se faz ouvir. Basicamente esta é uma maneira de a representar. A maneira que eu e os meus amigos a sentimos.

O “Mô Kassula” já tinha tido um videoclipe para a versão de estúdio. Como é que foi passares para esta nova composição, ao lado do Ari e da Susana? Até porque a faixa ganhou vários elementos novos e ficou bem mais longa do que a original.

Foi um processo bué natural. Nós começámos a ensaiar. Eu e o Ari já temos uma ligação… Olha, a história deste beat começou com o LVIN, o nosso tropa Ventura. Ele, eu e o Ari estávamos no meu home studio. Fazíamos 20 minutos a cada um. Eu começava, depois ia o Ari, etc. Depois fomos buscar peças a um beat antigo que eu tinha. Foi tipo uma mescla de cenas. O processo de gravar já foi outro. Eu estava a escrever isto inspirado nas conversa que eu às vezes tinha com o Marco, o Bruno, o Sepher, o Nuno Trigueiros… Com amigos meus. Foi aquela fase em que eu sentia que estava a fazer diferente, meio que a reivindicar. É uma cena também hormonal. Ainda estou a passar por isso. A escrita vem, então, das coisas que nós falávamos. Depois acontece a morte e eu senti que havia a necessidade de fazer as coisas seguirem este caminho. Curiosamente, eu estava a escrever esta música quando soube que ele tinha morrido.

A transição para o live vem com o Diogo Carvalho, que me andava a chatear há bué para fazermos isto acontecer ao vivo, registado em vídeo. Ambos sentimos que esta era a música certa para isso. Eu, a Susana e o Ari começámos a juntar-nos para ensaiar e saiu esta sonoridade. Não tem uma fórmula. Nós nunca tocamos igual. Mas é a que foi.

Mas este trio é a formação que pensaste apenas para este momento específico ou isto pode também ter sido um teste para para a forma como te vais apresentar futuramente em palco para apresentar o disco depois de sair?

Sinto muito que é assim que eu me vejo a apresentar ao vivo. Também é uma maneira de fazer as pessoas sentirem como é que pode vir a ser uma performance minha. E há toda esta mistura entre o acústico e o electrónico, que eu acho bué importante. Mas mais virá. Quanto mais experiência existir e energia para criar, sinto que vão surgir ideias ainda mais interessantes. Agora é ver o que acontece daqui para a frente.

Não sei se lanças o álbum logo de seguida ou se ainda o vais antecipar com mais algum material. Que detalhes nos podes começar a desvendar acerca desse projecto?

O álbum vai surgir. Não é a próxima coisa que vou lançar. Entretanto vai sair outro single. Ainda vai faltar um pouco para lançar o álbum mas não assim tanto como as pessoas pensam [risos].

Tem um título já definido?

Tem, tem.

E queres revelá-lo?

O álbum chama-se Meia Riba Kalxa. Ya.

É uma expressão que tu usas bastantes vezes, inclusive neste “Mô Kassula”, em que ainda agora, durante a gravação do vídeo, há uma parte em que o Diogo focou especialmente o momento em que tu mostras a tua própria meia sobre a calça. Não sei se tem algum tipo de significado especial para ti, mas isto soa-me a uma espécie de statement.

Sim. Exactamente. Mas o significado total só vai chegar quando as pessoas tiverem a oportunidade de ter a obra final. Eu vou explicar mesmo o que é para mim isto de Meia Riba Kalxa. Porque isso para mim significa uma coisa e para outra pessoa pode não significar. Quem estiver nesta minha frequência entende. É um statement, como tu disseste.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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