Tribruto: um marafado Chavascal algarvio

[Foto]: Mike Ghost

 

Chavascalo audaz e magnético segundo disco em formato físico lançado pelo colectivo algarvio TribrutoRealPunch, Kristóman e Sickonce aka Gijoe – foi uma das boas e inesperadas surpresas no panorama hip hop português em finais do ano passado. Uma autêntica lufada de ar fresco comprimida num disco de 16 tracks que vagueia pelos meandros do boom bap, do trap, do bass e de experimentalismos afins. A juntar a estes beats electrónicos de Sickonce, costurados de forma solta e sem prisões de género, há as afiadas punchlines de RealPunch e Kristóman, que se desdobram entre o cómico e o levemente na boa, mas sempre muito a sério.

Contando com uma sólida participação de reconhecidos nomes da cena hip hop portuguesa – Sam The Kid, Mundo Segundo, Valete, Fuse, MGDRV, Capicua, Reflect -, Chavascal é uma clara evolução do antecessor, Algazarra (2010). Continua a ser barulhento, música produzida com os palcos em mente, com letras pungentes e assertivas, embora com novas disposições técnicas, rimas de renovado calibre e uma produção sonora próxima da versatilidade dos tempos que correm. “Chavascal surge na onda do conceito que criámos para os nossos álbuns, saindo para as ruas muito mais maduro”, como conta mais à frente RealPunch.

É o espírito algarvio – “que é mais do que um paraíso de férias”, garante Kristóman – sem contenção que tanto transparece nas produções dos Tribruto como nesta entrevista – que inicialmente ocorreu na Padaria Portuguesa, na Praça Luís de Camões, em Lisboa, mas entretanto se tornou numa troca de emails devido ao deficiente funcionamento do meu iPhone 4 (a entrevista ficou algures entre um reboot não programado e um break de largos minutos no sistema do smartphone da maçã). Uma embaraçosa situação que só podia acontecer com este trio. Tal como Gijoe muito resume: com Tribruto, “tudo pode e vai acontecer”.

 

De Algazarra a Chavascal passaram quatro anos. O que é que mudou no vosso barulho? O que há de novo em Chavascal?

[RealPunch]: Chavascal é um álbum que foi construído com uma mistura das experiências que vivemos neste período de tempo. Crescemos bastante com o Algazarra, tocámos muito, e Chavascal surge na onda do conceito que criámos para os nossos álbuns, saindo para as ruas muito mais maduro.
[Gijoe]: O Algazarra já o era, mas este é completamente o que nos apetecia fazer, depois de ter andado na estrada a tocar o Algazarra e a mixtape Moços Marafados.
[Kristóman]: O Chavascal são as arestas limadas do Algazarra, não repetimos o que resultou concretamente, até porque muitas bandas se espalham em segundos álbuns. Por isso mesmo quisemos vir fresh.

Como é que tem sido a recepção do público a Chavascal?

[RP]: Tem sido brutal. A minha percepção é que o público está a curtir este disco tanto como nós. Mesmo em versão live, onde nos sentimos bastante à vontade, a recepção tem sido igualmente positiva.
[G]: A melhor sensação é quando nos dizem algo que mostra que entenderam o que queríamos transmitir, mesmo nas cenas mais complexas ou técnicas, mais subliminares.
[K]: Penso que agora sim, o público percebe o que é Tribruto.

Bem ao vosso estilo, Chavascal tem uma carga festiva, uma produção que parece enquadrada para espectáculos ao vivo. Foi uma escolha consciente ou a produção apenas resultou dessa forma?

[RP]: Totalmente consciente. Nós somos uma banda que surgiu do palco para o palco, logo a nossa escolha a nível de temas e instrumentais foi influenciada por aquilo que fomos captando nas actuações ao longo deste anos. E o Sickonce, melhor que ninguém, sabe qual a sonoridade que nos caracteriza.
[G]: Além de nos termos de sentir bem com a nossa sonoridade temos de sentir que vamos bater! Não é bem o bater de estar na moda é o bater de abanar os cérebros de quem está ali a curtir o concerto. Tem de nos dar pica, desafiar tecnicamente e ao mesmo tempo deixar as pessoas a transpirar.
[K]: Não gosto de nenhum instrumental, eles obrigaram-me a gostar (risos).


A melhor sensação é quando nos dizem algo que mostra que entenderam o que queríamos transmitir [em Chavascal]. (Gijoe)


É também um reflexo da vossa personalidade. Como é que vocês se definem enquanto Tribruto?

[RP]: Costumo gozar e dizer que isto é do mais real que pode existir. Nunca me comprometo quando escrevo, porque se estou a escrever foi algo que senti, vivi ou assisti numa determinada altura da minha vida. As pessoas que me conhecem sabem que eu estou sempre na brincadeira e Tribruto é sem dúvida um reflexo acentuado dessa minha característica enquanto pessoa. É claro que isso vai afectar o meu trabalho enquanto músico.
[G]: Em Tribruto podemos tudo. Foi a premissa quando criámos o grupo e quando seguimos para este álbum: “SPNL (sem papas na língua) MANNNN”, já está aqui um novo nome para um som. É single, não é Kristo?
[K]: Isto é single sem dúvida, Tribruto é single. Aliás, eu costumo dizer que quando soa bem é faixa dois do álbum, porque a faixa dois é sempre aquela música após a intro, o som de afirmação. No nosso caso a primeira música não é uma intro, mas sim um dos sons mais pesados em Portugal, mas na faixa dois calhou a música com o nome do álbum: “Chavascal”. Vá-se lá saber porquê. É single!

Punchlines é convosco. O que é que apreciam neste estilo de rap?

[RP]: A técnica e o tom humorístico. É fantástico quando vês que o público se ri quando tu dizes algo forte.
[K]: A possibilidade de teres liberdade para falares do que quiseres e como quiseres, o obrigar-te a estudar a melhor forma de soar bem, punchline não é para todos.

O que é que vocês procuram transmitir nos vossos espectáculos ao vivo? O que é que o público pode esperar de um concerto de Tribruto?

[RP]: Podem esperar de tudo. O público deve estar preparado apenas para o caos, ahaha. Acima de tudo, queremos que as pessoas se divirtam connosco, que possam descontrair e levar uma carga de bom humor para casa.
[G]: A cena mais importante é as pessoas irem conscientes que vão encontrar gajas boas a fazer strip (se depois do concerto forem a uma casa de strip). Lá no concerto é como o Punch diz, tudo pode e vai acontecer!
[K]: Damos sempre o nosso máximo e não somos repetitivos.

Há elementos do clássico boom-bap, há trap, toques bass… Como é que foi o processo de mistura de todas estas influências para que o álbum não soasse a uma produção dispersa de rumo?

[RP]: Temos a sorte do nosso DJ/produtor ter tirado um workshop com fascículos do Planeta D’Agostini que alertavam para esse facto. A sério, o Gijoe aka Sickonce foi o grande responsável pela parte instrumental, tendo em conta toda a estrutura instrumental do álbum, de forma a que não se fugisse do objetivo principal.
[G]: Assim muito resumidamente, este disco é, do que eu ando a produzir, com todas as suas variantes, o que achamos que faz sentido em Tribruto. Eles evoluíram nas técnicas de rima, eu evolui nas maquinetas. É a minha forma de os desafiar e a mim mesmo. E assim utilizo esse workshop, que mandei vir do Círculo de Leitores.


O facto de cada um ouvir estilos diversificados fez com que o Chavascal tivesse este sabor tão bom. (Kristóman)


E o que teve a ascendência: beats sobre as letras ou as letras sobres os beats?

[RP]: Tentámos manter tudo com a mesma fórmula: beats e rimas. Sem “sobres”. Se por um lado somos conhecidos pelas nossas letras, também somos pelos instrumentais. Temos sempre que manter o equilíbrio para que o nosso trabalho seja completo.
[G]: Acho que este álbum foi mesmo o ponto de equilíbrio. ‘Tá tudo horrível.
[K]: Até acho que foi um pouco dos dois, daí ter resultado melhor.

Ao mesmo tempo, as influências e referências de cada um, individualmente, foram transformando-se ao longo dos últimos 4 anos. Foi difícil chegar ao resultado que é o Chavascal? Ou chegaram facilmente a consensos?

[RP]: Acho que foi fácil chegar a consensos. Até pode ter existido alguns desacordos criativos, mas sempre com um ponto-de-vista em comum: fazer boa música. E acho que Chavascal é a prova disso.
[G]: Esses pontos-de-vista e influências é que dão Tribruto. Senão era Kristo, Gijoe e Punch.
[K]: O facto de cada um ouvir estilos diversificados fez com que o Chavascal tivesse este sabor tão bom.

Neste álbum participam nomes consagrados na cena hip hop nacional. O que é que diz dos Tribruto estarem numa mesma track que MCs como Valete, Fuse ou Sam the Kid?

[RP]: Foi o concretizar de um sonho. Cresci a ouvir a maior parte deles e sentir que eles sentem a credibilidade do nosso projeto enche-me de orgulho. Melhor ainda é que todos pagaram para entrar, ahahaha.
[G]: A Capicua não pagou, disse que estava à rasca, mas agora disse que ia pedir à Beatriz Gosta que ‘tá a bater e a fazer grana a sério!
[K]: As coisas foram surgindo naturalmente. Como o Punch diz, é o realizar de um sonho, mas ao mesmo tempo é sentir que eles sentem que nós fazemos as coisas bem e daí merecermos a confiança deles para trabalharmos juntos. Confiança e respeito.

Nos casos de Capicua ou Mundo Segundo, tratam-se de rappers mais instrospectos ou de reflexão sobre o mundo que os rodeia. Foi um desafio para vocês adaptarem-se ao estilo deles?

[RP]: Até não. Com todas as participações trabalhámos da seguinte maneira: primeiro fechávamos a nossa parte da música e só depois é que avaliávamos se faria sentido convidar o rapper X ou Y. O tema do Mundo, Capicua e Reflect [“Janelas”] surgiu ao juntarmos as peças. Estas eram as pessoas que faziam sentido naquela faixa.
[G]: Sim já havia beat, tema e muitas vezes até já estava a ser gravada a parte do Punch e Kristóman quando percebemos que fazia sentido ali a participação e aí foi feito o contacto.
[K]: Como grupo somos bem versáteis no rap, daí a facilidade de nos adaptarmos a qualquer estilo sem fugir do que somos. Essa faixa era necessária no álbum e não existem melhores convidados do que eles para o tema.


Quanto mais conhecido for o rap algarvio melhor para toda a gente. Quer dizer que as pessoas começam a tomar atenção ao que se faz cá em baixo e não só ao que sai dos grandes centros do país. (RealPunch)


Mas continuam também a colaborar com rappers do Algarve. Sentem que têm responsabilidade de dar a conhecer os artistas a sul de Portugal?

[RP]: Não sentimos responsabilidade, mas sim vontade de puxar pela região em si. Falo por mim, quanto mais conhecido for o rap algarvio lá fora, melhor para toda a gente. Quer dizer que as pessoas começam a tomar atenção ao que se faz cá em baixo e não só ao que sai dos grandes centros do país.
[G]: Já fiz muitos trabalhos que dei a conhecer muito do que há e havia no Algarve, mixtapes com mais de 50 rappers e cantores do Algarve, faço parte de uma editora que também tem feito muito pelos de cá e pelo Algarve, uns fazem parte dela outros foram tendo ajudas para arrancar e portas abertas para que agora possam fazer o seu trabalho. Neste momento não há responsabilidade de ajudar. Quando o fazemos é porque sentimos que estão connosco. O Algarve já tem idade para que nos vejam como qualquer outro centro urbano. Nós vamos, fazemos e continuamos a fazer a nossa parte e os outros por cá também o estão a fazer.
[K]: Nós abrimos imensas portas ao Algarve, é verdade, mas houve outros que também o fizeram e fazem. Agora, os que estão a tentar e a começar também têm de ter esse pensamento de continuidade, de entre-ajuda, nunca o pensamento oposto. Sinto que estamos a um bom nível nacional, não queremos essa responsabilidade, mas seguirem-nos como exemplo pela forma como trabalhamos é uma mais-valia para quem está no mesmo barco.

De que forma é que a vivência no Algarve informa o vosso som? Como é que se manifesta e influencia as vossas músicas?

[RP]: Manifesta-se em tudo. Todos nós temos o maior orgulho de pertencer a esta região. É assim que vivemos. É assim que falamos. Só faz sentido colocar isso naquilo que produzimos. Muitas das músicas que fazem parte do Chavascal foram criadas com base em expressões algarvias. O próprio conceito dos títulos dos nossos trabalhos vem da confusão feita à moda algarvia. A maresia tem destas coisas!

Na vossa opinião, quem teve o melhor verso em Chavascal?
[RP]: Hmm, pergunta difícil. Gosto de todas as letras e de todos os convidados, praticamente. Mas se tivesse que destacar uma participação seria a do Skillaz. Rimas, flow, tudo completo.
[G]: Sim sim, essa ‘tá tão forte. Não consigo isolar um, são tantos tão bons, há coisas que ainda me batem como a primeira vez que as ouvi gravadas neste disco. O refrão da “Janelas” (do Reflect) é, para mim, daquelas cenas que cada dia que passa me soa melhor.
[K]: Os melhores versos são os skit, ahahah. Álbum do ano.

Quem são as vossas principais referências na música ou na vida?

[RP]: Tenho tantas que dificilmente iria sair daqui hoje. Vou apenas dizer três nomes: Manuel João Vieira, José Cid e António Sala.
[G]: Muita coisa que ando a ouvir e o que me foi ficando. São muitos produtores e muitos rappers e cantores. Fora isso as artes têm muita força nas minhas referências.
[K]: A família é a melhor influencia, ela é a base para podermos estar bem no rap. A par disso todas as participações deste álbum são referências.

Que impacto esperam ter com este disco?

[RP]: Há uns tempos dissemos que o nosso objetivo era ir ao Sudoeste. Agora sabemos que vamos tocar lá [a 8 de Agosto]. Os objetivos propostos no início do álbum estão a ser concretizados. Vamos continuar a trabalhar para tentar fazer com que o Chavascal chegue mais longe ainda. Abrir o Tony Carreira era grande cena!
[G]: Quero editar em vinil. E tocar em festas de piscina, no meio da piscina, num palco flutuante com a extensão eléctrica a boiar num chinelo.
[K]: Próximo objetivo é o Rock in Rio.


Ricardo Miguel Vieira

Escrevo umas linhas em revistas e sites. Cultura, música, activismo, DIY, surfing são o meu universo. Se não me encontrarem por aí de headphones entre orelhas é porque estou algures no oceano.