Tem início hoje, em Ponta Delgada, São Miguel, mais uma edição do festival Tremor, evento que há muito coloca os Açores no mapa global das mais entusiasmantes e desafiantes músicas do presente. O uso do plural da palavra “música” é aqui muito relevante, já que o programa do Tremor é, de facto, uma criativa mostra da diversidade estética que os terrenos mais afastados do mainstream hoje cultivam. Do flamenco às mais abrasivas electrónicas, do rock de régua e esquadro às ambiências mais etéreas, do hip hop à música acústica, não há campo fértil de ideias que o Tremor se escuse a visitar.
Ao longo dos próximos dias, o Tremor reafirma um posicionamento raro no contexto europeu, mostrando, uma vez mais, que a programação se constrói a partir de uma ideia de escuta informada e de risco continuado. Há uma recusa evidente da formatação, visível na forma como artistas de geografias e práticas distintas são colocados em diálogo, desenhando uma narrativa que privilegia a tensão e a descoberta. E tudo isto sem nunca esquecer o território em que esse mesmo programa se desenrola, já que o talento local das mais distintas origens estéticas marca ampla presença no cartaz. Essa identidade tem sido apontada como um dos traços distintivos do festival, frequentemente destacado pela sua capacidade de cruzar música, território e comunidade num mesmo plano. Uma ética programática que permite convocar alunos de uma escola de Rabo de Peixe, uma banda de metal do concelho do Nordeste de São Miguel ou exploradores das particulares tonalidades da viola da terra para uma alargada conversa em que artistas internacionais vindos dos terrenos do hip hop experimental, da electrónica disruptiva e do rock angular também se fazem ouvir. Não há outro festival que opere desta forma.
O ponto alto do programa do dia inaugural do festival, 24 de Março, será certamente a apresentação de Yerai Cortés (Coliseu Micaelense, 21h30). Cortés tem vindo a afirmar-se como uma das figuras mais relevantes do flamenco contemporâneo, movendo-se com naturalidade entre a tradição herdada e uma pulsão claramente contemporânea. A crítica tem sublinhado essa capacidade de conciliar rigor e abertura, descrevendo a sua música como “musical até nos seus silêncios e pausas”, uma formulação feliz do jornal El País que ajuda a perceber o modo como o guitarrista trabalha a intensidade a partir do detalhe e da contenção. Há nos seus concertos uma dimensão quase táctil do som, onde cada frase parece construída para habitar o espaço com precisão. Uma qualidade que apontará caminho para o programa a desenvolver ao longo dos próximos dias.
Amanhã, dia 25, o programa propõe articular diferentes modos de pensar a canção e o ritmo. NTK (Portas do Mar, 22h00), rapper do Topo, São Jorge, afirma-se como uma voz particularmente lúcida do hip hop açoreano, com uma escrita que observa o mundo com precisão e uma entrega que privilegia a clareza do discurso. Daí avança-se para Vaiapraia (Portas do Mar, 23h00), artista que opera num território onde a canção se apresenta vulnerável, construída a partir de uma economia de meios que acentua o carácter confessional e a proximidade com o ouvinte sem nunca descartar uma interventiva veia punk. George Silver (Portas do Mar, 24h00) fechará depois o dia introduzindo uma energia distinta, ligada à cultura de pista, com uma electrónica que equilibra sofisticação e impacto físico, revelando um entendimento fino das dinâmicas do clubbing contemporâneo, como qualquer pessoa que já mergulhou num dos seus sets temperados por música de todo o globo pode assegurar.
Na quinta feira, dia 26, o festival entra numa zona de maior densidade conceptual e espiritual. O artista egípcio Abdullah Miniawy (Auditório Luís de Camões, 21h00) desenvolve uma prática singular onde poesia, canto com densidade política e composição com verve experimental se fundem numa linguagem que escapa a leituras simplistas de “ponte” entre tradições. O trabalho recente em trio, com trombones, tem ampliado de forma decisiva o seu universo sonoro, colocando a voz em tensão permanente com estruturas de sopro que oscilam entre o jazz, o drone e a música contemporânea. A sua música convoca a intensidade da recitação árabe clássica e da espiritualidade sufi, mas projecta-se como matéria absolutamente presente, capaz de equilibrar sobriedade devocional e atitude contemporânea num som que tem tanto de ritual como de experimentação. Há aqui uma recusa clara de exotização ou enquadramento geográfico redutor, afirmando-se antes como uma força autónoma que reconfigura as próprias categorias de escuta.
Aya (Portas do Mar, 21h45), que vimos o ano passado numa espantosa performance no Semibreve, em Braga, também entende o poder da entrega ritualística, mas opera num território musical distinto, trabalhando a instabilidade como princípio, fragmentando estruturas electrónicas reconhecíveis do continuum hardcore e explorando zonas de tensão sonora que desafiam a previsibilidade da pista. Logo depois, o cartaz convoca Arsenal Mikebe com HHY (Portas do Mar, 22h30), que trazem consigo a vitalidade da cena de Kampala tão bem documentada pela Nyege Nyege Tapes, expandida por uma abordagem que privilegia repetição, textura e intensidade física e que beneficia da participação do seu produtor, o músico português Jonathan Uliel Saldanha, aka HHY, ele mesmo um incansável criador sempre disposto a romper fronteiras e a mergulhar no maravilhoso desconhecido. Outra apresentação que promete alvoroço.
Ainda neste dia, o contexto de clube ganha um relevo particular com CLUB C.C.C. (Portas do Mar – Clube, 23h30), proposta de Chima Isaaro, DJ Caring e CC:DISCO! que convoca a pista enquanto espaço de encontro e de construção colectiva. A selecção musical que tem agitado a noite lisboeta (e não só…) orienta-se para uma ideia de continuidade e comunhão, privilegiando o groove e a circulação de energia entre corpos, numa leitura que valoriza tanto o impulso hedonista como a dimensão relacional da dança.
O dia 27, sexta-feira, concentra um dos momentos mais densos do festival. O dia arrancará de forma curiosa: a OMA, Orquestra Modular Açoriana resultante de uma open call a artistas locais que tenham e usem sintetizadores, encontra-se com os músicos de Austin, EUA, Water Damage (Arquipélago Centro de Artes Contemporâneas, 12h00) para juntos trabalharem a duração e a repetição como formas de construção, propondo-se criar paisagens sonoras que evoluam lentamente e convidem a uma escuta prolongada.
Depois disso, a Escola de Música de Rabo de Peixe (Aula Magna da Universidade dos Açores, 21h15), em colaboração com o músico brasileiro Itiberê Zwarg, que foi colaborador próximo de Hermeto Pascoal, evidenciará a sua prática enraizada no território, mostrando de forma viva que pedagogia e criação se podem manifestar num acto colectivo que reforça a dimensão comunitária do festival. O cartaz deste dia denso ainda oferece a possibilidade de escutar La Família Gitana (Portas do Mar, 22h00), grupo que convoca a tradição cigana num registo vibrante, mostrando que o flamenco também se abre a outras linguagens rítmicas.
Num percurso generoso por diferentes sons, poderemos ainda ouvir a lenda de Cabo Verde Pedrinho (Portas do Mar, 23h00), teclista e autor de álbuns míticos como Aleluia ou Nhõs Dêxa de Conta Mintira que no Tremor acrescentará uma dimensão de funaná cósmico a um programa já de si extremamente variado. Por outro lado, The Bug, máscara dub de Kevin Martin, o lendário produtor de Techno Animal, e a toaster Warrior Queen (Portas do Mar, 24h00) elevarão a intensidade com uma abordagem à bass music marcada pelo peso físico dos graves mais cavernosos. O fecho do dia caberá a Maki (Portas do Mar, 01h00), DJ que gosta de explorar os terrenos do hip hop, do broken beat ou do funk das suas raízes brasileiras e que por isso mesmo convidará, certamente, a pista para uma festa desenfreada.
A última etapa do Tremor, sábado dia 28, condensará várias das linhas que atravessam o festival para as projectar numa jornada particularmente intensa. Water Damage (auditório Luís de Camões, 18h15) regressam depois do seu encontro com a OMA para demonstrarem uma prática assente na repetição e na microvariação, com drones em que o tempo se dilata e a escuta se aprofunda.
Imperdíveis serão, certamente, os canadianos Angine de Poitrine (Portas do Mar, Sala 1, 19h00), que assinarão um dos momentos mais antecipados desta edição, introduzindo no cartaz uma energia radicalmente distinta, oriunda da cena experimental do Quebeque. O duo constrói uma linguagem baseada em microtonalidade, repetição obsessiva e uma relação quase física com o ritmo, aproximando o math rock de uma dimensão ritual e hipnótica. A crítica internacional tem sublinhado o carácter singular do projecto, descrevendo-o como “compulsivamente escutável” e dotado de uma estética que parece vir “de outro mundo”, como salientou recentemente a circunspecta Jazz Times num entusiasmado perfil. Essa sensação de estranheza não decorre apenas do som, mas também de uma dimensão performativa onde anonimato, máscara e um esvaziamento dos clichés da entrega rock contribuem para uma experiência que oscila entre concerto e instalação. Para conferir ao vivo e a cores!
Neste dia será ainda possível dar atenção a Housepainters (Ateneu Comercial, 21h00), grupo sediado em Amesterdão que oferece um contraponto mais centrado no rigor krautrock e nas distensões do groove. Por seu lado, Cate Le Bon (Portas do Mar, 22h30) apresentará um dos universos autorais mais consistentes da pop de vanguarda europeia do presente, onde cada detalhe formal revela um pensamento rigoroso sobre estrutura e timbre.
Outro ponto alto será a performance dos Angry Blackmen (Portas do Mar, 00h30) que se propõem exibir uma abordagem abrasiva ao hip hop, marcada por tensão e urgência. Finalmente, o DJ é produtor chileno Matías Aguayo (Portas do Mar, Sala 2, 01h30) encerrará o festival com uma electrónica performativa, centrada na relação directa entre corpo, ritmo e espaço.
Como é claro, o programa total do Tremor é muito mais amplo e pode ser consultado aqui. Há, portanto, espaço para outras iniciativas que propõem expandir o festival para fora dos formatos convencionais. O Tremor Todo o Terreno, por exemplo, propõe percursos onde som e paisagem se tornam indissociáveis, convidando o público a habitar o território através da escuta. Com Vera Morais, o corpo assume um papel central na mediação da experiência, enquanto Curro Rodríguez explora a dimensão sensorial do caminhar como forma de composição, numa relação directa com a natureza envolvente. O Tremor na Estufa é outra iniciativa que introduz um regime distinto de atenção. Em espaços inesperados, a programação favorece propostas que trabalham a microescala do som, a textura e o silêncio, criando condições para uma escuta concentrada e exigente. Estes momentos funcionam como zonas de suspensão dentro do fluxo do festival, permitindo uma relação mais íntima com a música.
No seu conjunto, o Tremor propõe uma experiência que se faz de escuta, descoberta e circulação entre linguagens. A programação desenha com profundo saber uma cartografia onde convivem diferentes pulsações do presente, da electrónica mais física às formas mais contemplativas, do rap à experimentação, sempre com uma atenção clara ao detalhe e ao contexto. Essa viagem ganha uma dimensão particular em São Miguel, onde a relação com a paisagem, a escala da ilha e a proximidade entre público e artistas moldam de forma clara a experiência. Aqui, cada espaço activa uma escuta distinta e cada deslocação acrescenta uma camada de sentido. O Tremor é um palco de descobertas permanentes.