O Tremor é muito, mas mesmo muito mais do que se reportou por aqui no Rimas e Batidas ao longo da última semana. Viajámos até Ponta Delgada sobretudo para ver concertos — alguns concertos —, mas no programa de 2026 deste evento havia ainda exposições, sessões de escuta, conversas, instalações, workshops. É, pois, praticamente impossível assistir a tudo, até porque muitas coisas acontecem em simultâneo ou pelo menos têm momentos de sobreposição e as escolhas são sempre necessárias.
Na derradeira etapa do Tremor, no último sábado, dia 28 de Março, optámos por um late check in e elegemos como momento de entrada no cartaz a apresentação dos canadianos Angine de Poitrine. Era, aliás, o concerto que maior expectativa gerava a quem teve por missão representar esta casa. Há já alguns meses que vínhamos a seguir atentamente a trajectória daquele que é, certamente, um dos mais estranhos projectos do nosso presente, um duo do Quebec que parece apostado em desmontar os clichés da performance rock: Klec de Poitrine e Khn de Poitrine — são estes os seus “nomes” — vestem-se como personagens de um carnaval de Veneza pintado por Salvador Dali; usam máscaras de papier mâché algo ridículas; entre eles e com o público falam a mesma língua dos Daleks de Dr. Who — ou similar…; e movimentam-se como autómatos de um filme de série B dos anos 50.
Na verdade, o lado visual de Angine de Poitrine obriga-nos a levar ainda mais a sério a sua dimensão musical e artística, já que nesse ponto nada existe de absurdo, ridículo ou risível. O uso de uma guitarra e baixo com afinações microtonais e de uma bateria alinhada com a ética motorik do krautrock sobeja-lhes para criarem uma música altamente dinâmica, fortemente propulsiva e francamente original. Como se tivessem estudado a fundo o rock and roll, tivessem descartado todos os adornos supérfluos e retido apenas a ideia do riff repetitivo, do ímpeto rítmico e pouco mais, erguendo a partir daí um discurso deveras singular.
Naturalmente, a sala 1 do espaço que o Tremor ocupou nas Portas do Mar, em Ponta Delgada, estava a abarrotar para testemunhar em directo a estreia no nosso país dos Angine de Poitrine, o nome que, aliás, mais se escutou ao longo da semana entre os festivaleiros. Klec e Khn têm uma forma curiosa de interagir com o público: não só trocam ideias entre si na tal “língua” ininteligível, como se dirigem ao público da mesma forma, agradecendo os aplausos sempre intensos colocando as mãos em forma de triângulo enquadrado com os triângulos dourados que adornam as suas roupas — no chapéu, no caso de Klec; no peito, no de Khn. Um momento algo anedótico, mas simultaneamente sintomático da complexidade rítmica das suas peças, acontece quando pedem palmas ao público, obviamente numa cadência complexa impossível de seguir para quem não se aventura em marcações que se espraiem para lá do intuitivo 4/4.
Khn, o guitarrista, usa os pedais de loop para, alternadamente, criar bases com a guitarra ou com o baixo, sobre as quais depois vai solando, sempre com frases angulares, mas altamente expressivas e de técnica irrepreensível. O baterista, Klec, que se senta atrás de um kit com as diferentes peças escondidas por um tecido com o mesmo padrão de bolinhas que a sua roupa, segue a mesma norma, debitando figuras musculadas, mas de alta fluidez e de propulsão que entusiasma quem os escuta. É impossível os corpos não responderem a tal estímulo rítmico — é como se estivessem a enviar pequenos choques eléctricos para a plateia, uma espécie de acupuntura sonora a que os nossos membros parecem responder independentemente das nossas vontades. Resumindo: um triunfo absoluto que prova que, às vezes, pelo menos, o hype tem razão de ser. Claro que no final foi necessário correr para a banca de merch para garantir uma das cobiçadas cópias de Angine de Poitrine Vol. 1, que, como seria de prever, voaram num ápice.


Depois de um retemperador jantar, o resto da noite nas Portas do Mar ainda ofereceu prestações assinaláveis (por diferentes razões…) de Cate Le Bon e Angry Blackmen. A artista galesa que no ano passado editou Michelangelo Dying na Mexican Summer apresentou-se sem secção rítmica, sentada com guitarra acústica nas mãos e ladeada por um saxofonista e um teclista. O seu cantautorismo foi, por isso mesmo, pela sua via mais intimista, mais recatada e, sinceramente, totalmente desalinhada com a energia que aquele espaço viu ser debitada em todos os outros momentos do programa. Não que isso tenha minorado a sua música ou a sua prestação, mas tamanha contenção pedia um outro cenário, uma outra luz, uma outra localização. Na recta final de um festival feito sobretudo de música com muitas octanas, quase sempre a carburar de forma intensa, tamanha desaceleração pareceu deslocada e o público respondeu, aliás, com aplausos educados, mas mornos.
No final da noite, antes da rave de Matias Aguayo que fechou o programa, os Angry Blackmen juntaram os seus nomes aos de Yeari Cortés, Vaiapraia, Use Knife, The Bug e Warrior Queen ou Angine de Poitrine e assinaram uma das melhores performances da edição 2026 do Tremor. Brian Warren e Quentin Branch são dois monstros de palco, dois MCs que entendem que o seu discurso altamente politizado, anti-racista e anti-capitalista precisa de uma entrega física total para fazer sentido. Sobre beats de recorte industrial, com graves fundos e brilho digital cortante, com cadências pesadas e de BPMs pronunciados, os Angry Blackmen desfilaram rimas de The Legend of ABM e até de HEADSHOTS! em ritmo non-stop, acabando a interagir com o público no meio de uma suada plateia, já em tronco nu, exibindo também os corpos como identitárias bandeiras políticas. Com o que está actualmente a suceder ao mundo, com Donald Trump a tornar possível a ideia de um qualquer fim de ciclo civilizacional, vozes como estas são absolutamente necessárias e urgentes. E o Tremor recebeu-as com o entusiasmo que só se oferece a quem chega com uma mensagem que realmente importa escutar.
Cumpriu-se assim mais um Tremor. O hashtag usado pela comunicação do festival nas redes sociais — #tremoréamor — faz pleno sentido. A energia positiva que se sente nos rostos das pessoas, a ideia de espaço seguro, de comunidade plural e inclusiva que marca este evento aponta de facto para a única coisa que neste fim dos tempos nos pode salvar. Bem precisamos de todo esse amor.




