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Fotografia: Vera Marmelo & Saudade
Publicado a: 30/03/2026

Pistas de dança vindas de todo o lado para desaguar em São Miguel.

Tremor’26 — dia 4: dia de baile

Fotografia: Vera Marmelo & Saudade
Publicado a: 30/03/2026

A expressão “há baile na aldeia” é, no mínimo, condescendente: por um lado, insinua um certo exotismo assente na falta de sofisticação de tal acontecimento, como se nas aldeias não houvesse Internet e carrinhas a entregarem encomendas da Amazon e da Temu todos os dias; e, por outro, aponta para um estado evolutivo que só se consumará em espaços urbanos mais “avançados”. Na verdade, qualquer baile — quer aconteça no Lux, no Barghain ou em diferentes locais das mui urbanas Ribeira Grande e Ponta Delgada — transforma o espaço numa aldeia, numa comunidade que compreende que pode dispensar certas regras e aceitar outras. Ou seja, todos os bailes são na aldeia e, na passada sexta-feira, dia 27, penúltima jornada do Tremor, o primeiro deles aconteceu no apropriado local que é o mercado da Ribeira Grande, localização do último Tremor na Estufa de 2026 — a série de concertos secretos em espaços apenas divulgados em cima da hora — e também o espaço onde há uns anos assistimos a uma fabulosa performance dos britânicos Ill Considered.

Na sexta-feira, o line-up escolhido para o Tremor na Estufa consistiu nas aMijas, MONCHMONCH e na DJ ASCA, bebendo portanto na fresca fonte criativa que existe em Braga e arredores, sítio que, como bem se sabe, percebe muito de bailes. As aMijas são um colectivo diferenciado, desde logo na instrumentação variada, que inclui trompete em grande destaque, mas também porque possuem duas vocalistas. O que faz sentido já que a música também não é convencional, juntando energia punk a um som que aponta em várias direcções ao mesmo tempo: as duas versões que o grupo interpretou, para lá de material próprio, vieram de duas origens muito distintas — dos colegas bracarenses Vai-te Foder e também do fértil cancioneiro de Ágata… A dada altura, o espírito de baile impôs-se com Tricla, de máscara de hóquei a anonimizar-lhe o rosto, a liderar um comboio muito participado pela entusiasmada e ela mesma bem diversa multidão presente. Baile, sem dúvida.

A dança desenfreada prosseguiu durante a prestação de ASCA, que puxou e abusou dos graves e BPMs para criar uma daqueles flash sets em que nenhum tema parece rodar mais do que um minuto e todos os edits soam mais acelerados do que os originais. Efeito TikTok? Seja como for, parece que resulta, já que o abandono ao baile por essa altura já era total.

Depois veio a igualmente intempestiva e algo teatral apresentação do artista brasileiro MONCHMONCH, devidamente secundado por banda com teclados, baixo, guitarra e bateria. Uma descarga de energia crua, humor ácido e riffs angulares que cumpriu o desígnio de manter o povo agitado na pista. Na Ribeira Grande o baile foi real.



A secção noturna do cartaz de dia 27 do Tremor, foi, no entanto, ainda mais intensa, com três diferenciadas propostas de baile que lograram alcançar entrega total por parte do público.

Em primeiro lugar chegou La Família Gitana, colectivo do Estoril que provou que a exuberância da música cigana tem perfeito cabimento no cartaz de um festival plural e inclusivo como o Tremor, que, e já agora, este ano se estendeu geograficamente entre o Irão e o Canadá, entre Cabo Verde e os Açores, entre a Jamaica, Londres e Braga e bem mais além, como se o mundo fosse já ali ao lado. Aquilo que esta entrosada família não possui em termos de mais desenvolvidas capacidades musicais (facto tornado tanto mais evidente quando ainda fresca na memória de todos estava a incrível prestação de Yerai Cortés) tem de sobra na entrega e na generosidade com que sempre sobem ao palco. E, pois claro, deixaram claro que o hit “Vou Com os Meus Amigos” resulta na perfeição em qualquer baile que se preze.

Na sala 2 do espaço das Portas do Mar apresentou-se, em solo absoluto, Pedrinho Xalé, verdadeira lenda da música diaspórica de Cabo Verde que tocou com Afrika Star e que lançou, enquanto Pedrinho, uma importante trilogia clássica com Aleluia, Nhôs No Dêxa de Estupidez e Nhôs Dêxa De Conta Mintira. Apesar da economia extrema de meios — apenas um verdadeiro “teclado de baile” da Yamaha e delay na voz —, Pedrinho foi das mornas aos funanás com a autoridade de quem passou muito tempo a fazer públicos dançar nas mais reputadas casas nocturnas, de Lisboa a Roterdão, enquanto ainda não ganhava a vida a trabalhar nos correios. O baile não só foi absoluto como ainda inspirou alguns corpos a juntarem-se de forma mais próxima, o que só acentuou o espírito aldeão que ali se pressentia.



A noite de sexta terminou depois com uma das melhores performances de todo o festival, a cargo de Kevin “The Bug” Martin e de Warrior Queen. Em palco, além do PA massivo a debitar com os amplificadores no vermelho, ainda se impuseram mesmo de frente da parafernália do DJ duas enormes torres de graves que seriam adequadas para qualquer baixista com seis metros de altura. Algo necessário já que os sub-graves cavernosos e gigantes que The Bug conjura na sua música, que navega os lados mais pesados do dub, do dancehall e do grime, precisam de todo esse poder decibélico. 

Warrior Queen é, pois cláro, um poço sem fundo de carisma, uma mestre no microfone e uma toaster endiabrada que sabe muito bem orientar um salão de baile — que, nem de propósito, é a tradição literal de “dancehall” — e Martin um perfeito escultor de graníticas montanhas de frequências baixas que ainda assim nunca abdicam de balanço, groove e momentum. Quando essas duas forças se conjugam, o caos — no bom sentido — impõe-se na pista e o baile atinge o seu grau máximo de imersão total e abandono geral. E foi exactamente isso que aconteceu ali nas Portas do Mar, numa noite em que se foi do Bairro do Fim do Mundo no Estoril ao B.Leza em Lisboa e daí até aos mais recônditos clubes de Brixton ou Kingsdon enquanto o diabo esfregou um olho. E com zero jetlag!


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