Qual é o som da dor? O grito mudo dos ossos esmagados? O estrondo das bombas que deflagram ou o clamor dos que anseiam pela liberdade e pela paz? O som dos noticiários incessantes que vão dando conta da obliteração sistemática de direitos adquiridos? O ruído estridente do desmoronamento das democracias em câmara-não-tão-lenta-assim? Ou tudo isso ao mesmo tempo, numa cacofonia de terror? Uma resposta à pergunta inicial pode muito bem ter sido dada pelas performances que ontem presenciámos no Tremor, festival que à sua terceira jornada parece cada vez mais um eco crítico do mundo absurdo que nos rodeia, uma reacção de arte e paz à dor que actualmente se inflige ao mundo.
Se essa dor pode assumir múltiplas formas — colectiva, íntima, histórica — também as suas traduções sonoras se revelaram diversas ao longo do terceiro dia, começando dentro de uma piscina vazia nas Piscinas Municipais de Lagoa, onde o trio belga-iraquiano Use Knife, formado por Saif Al-Qaissy, Stef Heeren e Kwinten Mordijck, encontrou um cenário improvável, mas perfeitamente adequado à intensidade da sua proposta.
A banda ocupou o fundo da piscina, rodeada por um público compacto ao nível do “palco”, mas também por uma massa humana que se estendia em altura ao longo das margens, criando uma espécie de anfiteatro involuntário que contribuía para a sensação de imersão total. Mais do que um concerto, o que ali se desenhava era um ritual, uma experiência de partilha em que a disposição espacial reforçava a ideia de comunidade em torno de um núcleo de energia.
Esse núcleo foi construído a partir de um arsenal sónico que cruzava electrónica e matéria física: teclados a disparar padrões insistentes herdados do new beat e da body music, mas projectados com a urgência do techno contemporâneo; saxofone barítono a abrir fendas densas no tecido sonoro; percussões de matriz árabe a ancorar tudo numa tradição que aqui surgiu como força viva e urgente; e ainda instrumentos improvisados, como um trompete rudimentar feito de tubo de PVC com uma campânula de garrafa de plástico, que, para lá da sua função musical, pareciam inscrever no próprio acto performativo uma ideia de transformação, de reaproveitamento, de resistência material.
Sobre essa base, Al-Qaissy entoou cânticos em árabe que tanto podiam soar a lamento como a invocação, rapidamente atravessados por palavras de ordem claras, dirigidas à libertação da Palestina e até do Irão, juntamente com a denúncia das responsabilidades de Israel e dos Estados Unidos. O que poderia ser apenas um impulso discursivo tornou-se, naquele contexto, um momento de fusão total com o público, que respondeu de forma imediata e inequívoca, devolvendo as palavras, amplificando-as e integrando-as no próprio corpo da experiência.
A verdade é que se dançou intensamente, mas não de forma evasiva. Estabeleceu-se ali uma dimensão de urgência que ligava directamente o movimento à dor do mundo. A pista de dança transformou-se num espaço de afirmação e resistência, onde a energia colectiva não anulou a violência evocada, mas antes a enfrentou expressivamente através dos corpos.
Essa lógica de partilha atingiu o seu ponto máximo no final do concerto, quando a banda convidou elementos do público, incluindo crianças, a integrarem-se na performance, pegando em instrumentos e participando activamente no som que até então lhes era apresentado. Esse gesto dissolveu por completo a fronteira entre palco e plateia, transformando a experiência numa verdadeira construção colectiva, dando forma concreta à ideia de que, mesmo no meio da dor, é possível ensaiar outras formas de comunidade.


Se Use Knife trabalharam essa dimensão colectiva e política, aya, produtora e performer britânica associada à Hyperdub e a uma linhagem mais experimental da electrónica contemporânea (e que vimos há uns meses em Braga, no Semibreve), deslocou o foco para um território mais interior, mais fragmentado, onde a dor se manifesta como instabilidade, excesso e sobrecarga. Nas Portas do Mar, a sua actuação assumiu desde o início um tom deliberadamente confrontacional, marcado por um sarcasmo constante na relação com o público — “quem me viu em Braga no Semibreve?… ok, três pessoas, o normal” — que funcionou menos como afastamento e um pouco mais como estratégia de tensão, criando uma dinâmica em que a adesão não era pedida, mas conquistada pela própria intensidade da sua entrega.
Musicalmente, o set desenrolou-se como um fluxo ininterrupto de estímulos, cruzando drum n’ bass de alta velocidade, batidas techno de textura industrial, explosões de distorção próximas da linguagem do metal e momentos fugazes de leveza pop que surgiam quase como interrupções irónicas num sistema em permanente aceleração. Essa instabilidade formal reflectiu-se também na dimensão narrativa, com aya a deixar escapar referências a transformações pessoais, dificuldades relacionais (“thank you mom”) e à vertigem hedonista de uma vida vivida no limite, sem que daí resultasse qualquer forma de resolução ou catarse.
A performance física reforçou essa sensação de desequilíbrio controlado: alternando entre a manipulação obsessiva dos controlos na mesa de som e nos pedais de efeitos e o uso desse mesmo espaço como plataforma performativa, aya manteve o corpo em movimento constante, amplificado por um desenho de luz crepuscular que fragmentava a percepção e acentuava a sensação de descontinuidade. O público, por sua vez, respondeu com imersão total, absorvendo essa energia numa rave contínua onde a dor não era nomeada, mas sentida como excesso.


O terceiro momento da noite foi protagonizado pelos ugandeses Arsenal Mikebe em colaboração com o verdadeiro tesouro que é Jonathan Uliel Saldanha, figura central da cena experimental portuguesa sob o alias HHY, que ali operou uma síntese inesperada, deslocando a experiência para um plano simultaneamente físico e ritual.
Em palco, três percussionistas construíram uma arquitectura rítmica densa e exigente, combinando instrumentos acústicos com pads electrónicos e utilizando também a voz como elemento estrutural. O que emergia dessa combinação era uma teia de polirritmos complexos, organizados segundo uma lógica de chamada e resposta profundamente enraizada em tradições musicais africanas, não apenas entre os próprios músicos, mas também na relação com HHY e com o público, que era constantemente implicado nesse circuito de troca.
Os cânticos, muitas vezes reduzidos a sons vocais sem palavras, funcionaram como elemento agregador, criando uma dimensão quase espiritual que moldou a intensidade física da performance. Essa dimensão foi, a dada altura, abruptamente reconfigurada pela repetição insistente de uma frase — “daddy won’t make it to 31” — que, no meio daquele turbilhão rítmico, surgiu como uma espécie de eixo semântico, remetendo de forma directa para a realidade de um mundo onde a esperança média de vida continua a ser condicionada pela cor da pele e pelo contexto social.
À volta desse núcleo, HHY operou a sua ciência mágica em tempo real, processando e expandindo o material sonoro através de camadas de electrónica, drones e ruído que envolviam os ritmos num nevoeiro digital, retirando-lhes qualquer conforto e projectando-os para uma dimensão quase espectral. O resultado era simultaneamente hipnótico e inquietante, uma experiência que não oferecia resolução, insistindo ao invés na repetição e no confronto.
Se ao longo da noite a dor foi assumindo diferentes formas, da afirmação colectiva à implosão interior, aqui surgiu como ritual, como repetição que não permite esquecer, mas que, ao mesmo tempo, abriu espaço para a imaginação de outras possibilidades. Porque naquele sistema de chamadas e respostas, naquele circuito partilhado entre músicos e público, insinuava-se uma outra forma de organização, mais horizontal, mais comunitária, mais aberta. A dor, tal como a alegria, também pode ser partilhada, como Jup do Bairro também fez questão de frisar na sua prestação igualmente intensa.
O som assemelhou-se ao de uma civilização em colapso, mas talvez também ao de um futuro possível em formação, revelando um espaço onde se ensaia a possibilidade de um mundo em que ninguém tenha de ficar pelos 31, independentemente da sua cor, condição ou geografia.

