E ao segundo dia, o Tremor criou o firmamento, separou as águas superiores das águas inferiores e chamou a isto o céu. Faz sentido que haja um céu num paraíso como São Miguel, onde a música, como se provou na primeira edição do Tremor na Estufa deste ano, pode ressoar lá no alto do Pico dos Bodes. Aí mesmo, uma anja como Jup do Bairro espalhou justeza com graves vulcânicos e força indómita na voz, distribuiu flores e alguns espinhos, apontou o dedo aos perigos que por cá se enfrentam com a possibilidade de direitos doridamente conquistados pela comunidade LGBTQIA+ serem obliterados por um parlamento inclinado perigosamente para a direita e terminou a sua intempestiva actuação com um simples pedido: “Protejam as crianças trans”. Porque os anjos não têm sexo e vozes assim, que gritam lá bem no alto, têm mais possibilidade de chegar ao céu.
A viagem que levou até à localização secreta do primeiro Tremor na Estufa foi longa, mas fez cumprir uma das ideias que sustenta o Tremor — a da descoberta de um território que corta sempre o fôlego, não importando se é a primeira vez ou a décima que o vislumbramos. Chegadas as pessoas ao Pico dos Bodes, ainda havia que superar uma ladeira bastante inclinada até alcançar o panorâmico planalto onde um poderoso sistema de som libertava trovões de graves pelas mãos sabedoras de Fuzo, DJ que assiste Jup do Bairro na sua liturgia de rimas sobre opressão e liberdade, dinheiro e pobreza, sexo e identidade, orgulho e preconceito, dor e prazer. A voz nem sempre esteve afinada, o que só lhe reforça a humana emotividade, mas as ideias e as palavras sim. E a força foi sempre evidente na sua presença magnética, desabrida e francamente honesta. Sobre breaks tectónicos, baixos profundos e balanço sambista do fim do mundo, Jup professou a sua fé inabalável perante uma congregação devota, que se entregou sem reservas, numa rave frenética ali mesmo às portas do céu.
Mas este céu que o Tremor apresentou ao segundo dia foi, sobretudo, o de Vaiapraia, cujo concerto nas Portas do Mar se atrasou um pouco para permitir cumprir a longa viagem de volta ao centro de Ponta Delgada. E quando Rodrigo e companheiras finalmente assomaram ao palco, mesmo em cima do hit viral “O Que Tu Quiseres” do rapper açoreano Espama Trincana (mais sobre isto um dia destes…), o futuro cumpriu-se ali mesmo, com aquela figura singular a canalizar décadas de raiva nos dentes e amor na boca inteira, e mostrando-se cheio de electricidade nas veias como se fosse um novo profeta de eyeliner e meias de rede rotas que nos vem trazer a verdade: amar é a única coisa que verdadeiramente importa. Amar as outras pessoas, o mundo e a natureza, amar tudo, até o que se tem diante do espelho. Custe o que custar, doa o que doer. E às vezes dói, mas a verdade é que só sangra quem está vivo.
Confissão, já que estamos aqui no céu: esta foi a primeira vez que vi Vaiapraia ao vivo e, portanto, perdoem algum eventual exagero. Mas nunca é tarde para ver a luz e chegar ao céu, certo?
Excelentemente ladeado por Beatriz Diniz no baixo, Francisca “Chica” Ribeiro na guitarra e Ana “Candy Diaz” Farinha na bateria — e todas nas vozes bem harmonizadas, claro —, Rodrigo mostrou que é possível ir de Ramones e Suicide aos Mão Morta e Pop Dell’Arte, de Ronettes e Cramps a António Variações, como se o Festival da Canção alguma vez tivesse passado pelo CBGB ou Rock Rendez Vous e as garage bands fossem todas oriundas do Japão ou de Sacavém. Isto não faz sentido nenhum, claro, mas desde quando é que a grande arte precisa de fazer sentido?
A poderosa e super oleada máquina rítmica que acompanha Rodrigo merece mil elogios. O baixo pulsa como batimento cardíaco em corpo que acabou de subir um gigante lanço de escadas e não precisa de mais notas do que as suficientes para nos fazerem abanar a cabeça; a bateria é de uma precisão absoluta e é tocada por quem conhece de cor e salteado o rock continuum, desde lá de trás, quando os hillbillies se ligaram à corrente, até à era em que o punk despontou no lado mais sujo de Nova Iorque e daí até aos tempos presentes em que colectividades, salões de bombeiros e clubes demasiado pequenos para crentes no poder do “1, 2, 3, 4, let’s go…” mantêm viva esta chama teen primordial; e a guitarra, mais económica do que o orçamento de um estudante deslocado, acerta em todos os pontos que tem que acertar, simples e imaginativa, com a força e a delicadeza certas, soltando faíscas quando é preciso incendiar o som colectivo.
Por cima desta gloriosa chinfrineira, Rodrigo é a rainha que toda a gente precisa escutar, um corpo cheio de nervo e eletricidade, de uma franqueza que desarma e de uma energia que contagia. A viagem começou em “Fogo Fera” e só terminou, dúzia e meia de temas depois, em “É Que à Noite”, passando pelos hits todos de um cancioneiro denso de ideias e de verdades: “Casa do Recado”, “Way Way”, “Sing Along”, “Disca-me Afectos”, “Ar com Ar2, “Kolmi”, “Perfeito”, “Ulucrudador”, “Corta-Unhas”, “Juro”, “Tupperware Furado”, “Sinos”, “Rabo”, “Snifa Cola”, “Eu Quero eu Vou”, “Tenho Fome”. Espantoso. Rodrigo Vaiapraia é animal de palco, o lugar que é o seu verdadeiro púlpito, pessoa de carisma gigante, de humor subtil, de auto-ironia precisa, de voz certeira, capaz de falsetes arrepiantes e graves cavernosos, de ser tão punk como Joan Jett e tão pop como Boy George, mas capaz, sobretudo, de ser absolutamente singular, por muitos ecos que a sua voz carregue. Vaiapraia é mesmo the real deal, porque no meio de toda aquela postura de desafio, há uma pessoa que quer apenas partilhar a sua verdade. Levar-nos a todos e todas ao céu, aquele lugar que não é nas nuvens dos anjos, nem nas chamas dos infernos, mas aqui mesmo, onde se luta para se ser livre. Ontem foi nas Portas do Mar, neste cantinho do Paraíso chamado Tremor.