Flamenco. Da soalheira Andaluzia para uma ilha nascida no meio do Atlântico e quase sempre envolta numa misteriosa (e poética…) bruma. Porque não? A performance de Yerai Cortés no primeiro grande momento da edição de 2026 do Tremor, que decorre até ao próximo sábado em Ponta Delgada, São Miguel, foi absolutamente espantosa; uma apresentação que prova que tradição funda e inovação radical são ideias que podem conviver na mesma frase sem qualquer problema. “Guitarra Coral”, o concerto que o prodigioso guitarrista de Alicante trouxe até aos Açores, é, muito simplesmente, um consumado triunfo artístico e um dos melhores espectáculos que qualquer pessoa poderá ver este ano.
“Espectáculo” é a palavra adequada aqui. Não porque esta “Guitarra Coral” seja uma performance desenhada para arrancar “ahhhs” da audiência, um momento para “encher o olho” do público ou para satisfazer expectativas artificiais, mas porque cada gesto — e são tão poupados nesse departamento, as e o artista que sobem ao palco — é ponderado com o cuidado de quem conhece a fundo o valor real de uma tradição e, ainda assim, ousa pensar que amanhã poderá ser diferente, que o futuro exige novas respostas, novas mise em scénes, radicalmente distintas dramaturgias repensadas à luz de uma realidade necessariamente afastada daquela que viu este tesouro cultural nascer nas cuevas de Sacromonte, em Granada.
Convém, ainda assim, perceber quem é Yerai Cortés para se compreender plenamente a dimensão do que ontem nos fez tremer por dentro. Nascido em Alicante em 1995, Cortés é uma das figuras mais marcantes da nova geração do flamenco contemporâneo, herdeiro directo de uma tradição familiar — foi o pai quem lhe ensinou a guitarra — mas também protagonista de um percurso que rapidamente o levou dos tablaos madrilenos mais prestigiados a palcos internacionais e colaborações improváveis. C. Tangana reconheceu nele um potencial singular e integrou-o na sua órbita criativa, abrindo-lhe portas a uma visibilidade mais ampla, sem nunca diluir a raiz gitana e o rigor do compasso que sustentam o seu toque. Entre o respeito dos círculos mais ortodoxos e a curiosidade dos territórios mais experimentais, Yerai afirma-se como um músico que tanto dialoga com a tradição quanto a reconfigura, alguém que, como tão bem se constata com “Guitarra Coral”, faz a guitarra soar não como instrumento solitário, mas como espaço colectivo, quase orquestral.
Claro que o público que praticamente esgotou a lotação do Coliseu Micaelense em noite inaugural da viagem ao maravilhoso desconhecido que é o Tremor se rendeu desde o primeiro momento. E, na verdade, essa será talvez a única nota menos positiva desta noite, mas que poderá ser atribuída ao simples desconhecimento da cultura. A frase “silêncio que se vai cantar o fado” faria sentido se transposta e aplicada aqui: “silêncio que se vai escutar flamenco” poderia, então, ter sido uma das serigrafias expostas à entrada da nobre sala micaelense, se a máquina das ditas cujas não estivesse tão ocupada a deixar marcas em t-shirts frescas na banca de merchandising. O público demorou a perceber que há uma reverência ritual que é devida nestes momentos. Os próprios artistas, sublinhe-se, pontuam a performance com longos silêncios que não são pausas performáticas para atraírem o aplauso fácil, antes oportunidades para reflexão, para resgatar o fôlego perante tremendo êxtase. Mas tirando esse “pormenor”, a noite foi perfeita. E Cortés e companhia consagraram-se como nova fonte de absoluto maravilhamento.
“Guitarra Coral” é o resultado final de um pensamento aturado sobre a forma que uma performance musical pode adquirir em palco: não há uma única palavra de saudação ao público e, no entanto, a comunhão é absoluta; a luz é pensada com máximo rigor e é, ela mesma, parte do jogo cénico pensado para máximo efeito emocional, com danças de luz branca e sombra perfeitamente gizadas; os figurinos das cantaoras são especiais e particulares, com cada uma das seis mulheres que ocupam o palco a surgirem em cena como se fossem noivas num filme de Tim Burton; o som é imaculado, não apenas na definição máxima impressa à guitarra e às harmonias vocais, às palmas e ao som grave resultante do bater dos tacões no soalho de madeira, mas nos subtis efeitos — quase dub, por vezes —, aplicados sobretudo às vozes, criando densas nuvens texturais que nos evolvem como um pesado e negro manto aural. O posicionamento dos sete corpos em palco é desenhado com precisão matemática, com Yerai Cortés a assumir diferentes lugares relativamente às cantaoras, num jogo que tem tanto de coreográfico quanto de estático. E mais do que o movimento, é a imobilidade que se privilegia. Quase parece pintura. Em suma, um espectáculo total e perfeito.
E a coroar tudo isto há a música. A técnica de Cortés é exuberante, prodigiosa, mas nunca gratuita. Os seus gestos servem a intensidade emocional da música, nunca o contrário. E é precisamente aí que “Guitarra Coral” atinge uma dimensão rara: na forma como cada palo é tratado como território vivo, com tempo próprio, densidade própria, respiração própria.
Da malagueña inicial às siguiriyas de gravidade quase abissal, passando pelos tangos ou pelo desenho em duas partes das alegrías (“Ni en los cafés italianos” e “Ni en los puertos italianos”), Yerai Cortés demonstra um domínio absoluto do compasso e da arquitectura interna do flamenco. Não há aqui qualquer ideia de suite ilustrativa ou de catálogo de formas: há, isso sim, uma continuidade orgânica onde cada peça parece nascer inevitavelmente da anterior, como se todo o concerto fosse uma única respiração prolongada. Uma suite panorâmica da história e da riqueza de uma cultura com identidade funda, com espaço até para a memória do seu pai, cuja voz ser escuta a dada altura a relatar um encontro indesejado com a Guardia Civil. A política também marca presença aqui, mesmo sem que qualquer bandeira se agite.
Em “Lo malo que he sido contigo”, as vozes das cantaoras, que são simultaneamente solistas e corpo coral de impressionante rigor harmónico, assumem o centro dramático, sustentadas por palmas de precisão milimétrica e por essas subtis reverberações que, longe de adulterarem a tradição, a expandem discretamente, quase como um eco da própria memória do género. O impulso rítmico dado pelo batimento sincopado dos tacões oferece ainda uma profundidade grave à música que não é estranha a este tipo de público, tão habituado a múltiplas linguagens electrónicas em que o botão do bass está sempre no 10. A guitarra recua, observa e comenta cada deriva vocal. Yerai sabe quando “falar” e, sobretudo, quando não “falar”.
Esse saber do silêncio, esse domínio do vazio como matéria expressiva, atinge talvez o seu ponto mais alto em “Por tu silencio lloro”, taranto depurado até ao osso. A escuridão total que encerra a peça suspende o tempo na sala. O público perde-se, sem saber se há-de aplaudir ou engolir em seco, o que é uma reacção perfeitamente natural perante tamanha descarga emocional. Já em “Sonar por bulerías”, essa energia ganha uma nova forma: surge o jogo, a leveza, a cumplicidade nos “olés” trocados em cena que demonstram também que acabámos de aplaudir uma real família..
E é nesse essencial que Yerai Cortés se afirma como figura singular: moderno entre os flamencos, flamenco entre os modernos, como C. Tangana, que assinou o filme que o retrata, La Guitarra de Yerai Cortés, já notou com notável acerto. Em Ponta Delgada, no meio do Atlântico, essa síntese ganhou uma ressonância particular, prova de que o flamenco, como as mais fundas emoções, não conhece fronteiras.