Tremor’19 – Dia 5: uma supernova a iluminar os Açores

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Vera Marmelo

Cinco dias a ouvir gente que sabe estar, artistas que sabem para onde estão a apontar e uma ilha que se molda, mas que nunca muda totalmente, deixando a tradição misturar-se com o que vem de fora, algo que nem sempre é tido em conta. No Tremor, a importância de incluir a matéria-prima local está no topo da lista, e a última etapa provou, mais uma vez, que todos ganham com isso.

E comecemos pelo rap de São Miguel, que foi representado por LBC, rapper que uniu esforços com Diogo Lima, o realizador de AZ-RAP: Filhos do Vento, documentário obrigatório para entender o presente, passado e futuro do hip hip açoriano. A eles juntaram-se ainda o baterista Tiago Galvão e Black, que ficou responsável pelos back vocals, um quarteto que funcionou como uma máquina bem oleada, destacando-se a precisão na adaptação aos instrumentais do dono das baquetas e a energia contagiante do hype man e DJ de serviço.

A crueza e honestidade de Luís Branco foi recebida de braços abertos pelo público do festival, que respondeu à chamada para comparecer no Solar da Graça, espaço acolhedor em Ponta Delgada. Drogas (heroína foi das palavras mais repetidas), amor e a realidade de quem se virou para as rimas como uma forma de escapar ao lado mais negro da vida.

Visivelmente emocionado com a melhor actuação da sua carreira, palavras do próprio, LBC agradeceu a Galvão pelos conselhos preciosos (bebam água, não se esqueçam) e a Lima pela dedicação numa residência artística que cumpriu aquilo a que se comprometia: resgatar o melhor da terra e dar-lhe um pouco mais de brilho. Deus no céu, NGA na terra e LBC em São Miguel.



Como no Tremor os concertos só são parte de um quadro mais amplo, o que aconteceu pouco tempo depois de Diogo Lima + LBC serviria para testar a nossa capacidade de reacção ao inesperado. O Instytut B61, “colectivo artístico e científico”, preparou um espectáculo multidimensional em que aproveitou o que parecia ser uma fábrica — não sabemos ao certo o que era (ou onde era) porque fomos levados num autocarro com os vidros forrados com sacos pretos de plástico — para se intrometer na lista de melhores momentos do evento.

Numa série de pequenos exercícios teatrais e musicais em que se incluíram actuações de uma banda de covers de música popular e de Laxmi Bomb, grupo de Bombaim, ou a de um “gigante vermelho”, que também cantou uma versão polaca de “Psycho Killer” dos Talking Heads, a narrativa de toda a apresentação girou à volta do ciclo da vida das estrelas, utilizando isso para pequenas divagações sobre a rapidez com que nascemos, vivemos e morremos, utilizando até o festival como analogia, o que ganhou outro significado tendo em conta que era o último dia.

O final, a única coisa que temos garantida, seria realmente desconcertante (e engraçado): depois de sermos conduzidos para fora das instalações para vermos o que supostamente seria “a segunda imagem de um buraco negro”, os “cientistas” deixaram-nos sem qualquer tipo de justificação no meio de uma rua. E sim, ainda estamos à procura do verdadeiro significado de tudo aquilo…

Com as horas trocadas (mandaram-nos mudá-las antes de entrarmos no autocarro) e sem saber onde estávamos, a confusão durou pouco tempo, não estivéssemos nós em 2019 — viva a Internet! Curiosamente, o Coliseu Micaelense, palco das próximas actuações na nossa lista, encontrava-se a poucos metros dali. O universo a trabalhar da melhor forma para podermos ver a actuação dos Bulimundo na íntegra.



O lendário grupo cabo-verdiano deu um espectáculo em que acelerou e desacelerou sempre ao som do funaná. Composta por uma dezena de músicos, a banda de veteranos carregou a energia de outro arquipélago com destaque para a voz inconfundível de Zeca di Nha Reinalda. Não havia uma alma que não batesse o pé e que não agitasse a anca naquele local, prova da eficácia (e do balanço irresistível) de um som que sempre esteve connosco, mas que agora também tem direito a fazer parte doutros circuitos mais alternativos.

Os ZA!, dupla que já tinha deixado marca no Tremor na Estufa, fez jus à fama que criou nas passadas edições do festival, mantendo a potência no máximo enquanto se exercitavam nos mais diferentes géneros musicais, fossem eles o jazz mais livre, o rock mais matemático ou o rap mais punk. O sósia espanhol de Kevin Parker e o baterista Spazzfrika ehd criaram, à sua maneira, um resumo daquilo que se passou de 9 a 13 de Abril: junção de culturas e de tradições com um tratamento autoral.

Ao contrário do que se passa nos grandes festivais, por exemplo, este foi mais um momento em que sentimos que aquilo a que acabáramos de assistir era irrepetível. E é aí que também reside mais uma das qualidades do Tremor: dificilmente vão encontrar algo genérico por aquelas bandas…