Tremor’19 – Dia 3: surpresas todo-o-terreno e humor na estufa

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Carlos Brum Melo

Numa era em que projectos com conceito (e, neste caso, falamos de festivais, restaurantes e todo o tipo de eventos no geral) são mais chamarizes insuflados de nada do que propriamente ideias com sumo, não é um crime fazermos questão de nos repetirmos sobre a maneira como está pensado o Tremor, festival multidisciplinar que surpreende em todas as suas dimensões artísticas.

Ontem, a nossa estreia no Tremor Todo-o-Terreno, uma designação bem mais radical do que a actividade em si, aconteceu na freguesia piscatória Ribeira Quente, levando-nos pelo Trilho do Agrião até esta casa fabulosa, onde veríamos a performance final de Natalie Sharp, artista que tocou na companhia de Tina Bradshaw. Pelo caminho, a instalação sonora criada de propósito para aquele percurso era afectada pelas condições naturais e também pela qualidade dos fones cedidos pela organização, que dificultavam a compreensão do que se falava, mesmo que a música fosse compensando e complementando o tempo enublado.

O ambiente sinistro e místico de True Detective foi a primeira referência que nos surgiu — Nic Pizzolatto, fica a dica para a quarta temporada… –, mas a “verdadeira” inspiração foi The Garden of Earthly Delights, tríptico de Hieronymus Bosch. A chuva, que só chegou mesmo na etapa final, tornou o momento mais dramático e ajudou a cumprir as expectativas de quem esperava ser desafiado.



Mal terminou, a carrinha de serviço levou-nos directamente para o Parque Natural da Ribeira dos Caldeirões, mais um sítio a que as palavras dificilmente fazem justiça, e onde iria decorrer a sessão diária do Tremor na Estufa.

Desta feita, dB, “vestido” de David Bruno, foi o protagonista e actuou acompanhado do habitué Marco Duarte, apresentando algumas canções de O Último Tango em Mafamude, o já famoso (e ainda não-editado) tema “Lamborghini na Roulotte” e, entre outras coisas, uma nova faixa dedicada a Francisco Moita Flores, “o polícia romântico” que agrega as capacidades necessárias para prender Adriano Malheiro, o “caloteiro” que viu o seu nome escrito em várias paredes nortenhas.

O carácter declaradamente cómico (e romântico, obviamente) das músicas e das suas intervenções causaram risos que também foram motivados pela presença descontraída de um senhor que, carinhosamente, alcunhou com o título “Campeão”. De Gaia à Achada, o humor não se perdeu na viagem, confirma-se.

Jacco Gardner, Pop Dell’Arte, Cave e Black vs. DJ Fitz completaram o alinhamento do terceiro dia, quatro propostas completamente diferentes que preencheram as salas onde foram programados e obrigaram algumas pessoas a ficar na fila de espera para “provarem” um pouco do que lá se passava dentro.


Alexandre Ribeiro

Alexandre Ribeiro

"I just looked at the pictures"
Alexandre Ribeiro