Tremor’19 – Dia 1: abertura triunfante e um prodígio à solta

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Carlos Brum Melo e Vera Marmelo

Aterrar no meio do Oceano Atlântico no início da semana é encontrar alguma paz na beleza natural de um arquipélago que tem ganho uma nova dimensão com o Tremor, evento anual que soube amplificar os pontos fortes de Ponta Delgada, da Ribeira Grande e, mais recentemente, da ilha de Santa Maria, e a principal razão para nos termos mudado para cá durante cinco dias.

Do aeroporto ao hotel, a viagem fez-se rapidamente com uma revisão das últimas cinco edições e a projecção do que será daqui para a frente. Um início improvisado mas “patrocinado” por alguém que sabe daquilo que fala, não fosse ela uma das motoristas dos transfers que ajudou, nos últimos anos, alguns dos jornalistas e artistas a deslocarem-se pela ilha. Neste momento, a sua balança pessoal descai para o lado das preocupações, tudo por culpa da maior adesão do público internacional e de Portugal continental, que acaba por retirar espaço/bilhetes aos locais. No entanto, não se cansa de elogiar a iniciativa e enaltecer o bem que fez a um centro histórico “abandonado” que precisava de urgente reanimação.

Pela primeira vez desde a sua criação, o Tremor esgotou a cinquenta dias de acontecer, um feito que só pode ser considerado positivo, mas que traz uma responsabilidade acrescida que certamente obrigará à exploração de todo o território açoriano.

A sessão de abertura, que esteve lotadíssima, ficou a cargo do colectivo ondamarela, Escola de Música Rabo de Peixe e ASISM (Associação de Surdos da Ilha de São Miguel). Depois de uma longa introdução conduzida por António Pedro Lopes em que se destacou, acima de tudo, a faceta inclusiva do festival — um dos lemas é “Future is Female” –, os elementos do supergrupo, chamemos-lhe assim, distribuíram uma dose (repartida em secções) do seu rock’n’roll (mais relacionado com a atitude do que propriamente com o som) que teve um regente hiperactivo, Ricardo Baptista, a recorrer a métodos pouco ortodoxos, como a utilização de um papel dado à entrada do Teatro Micaelense, para criar interacções entre a banda e o público. A linguagem gestual e a poesia também tiveram o seu destaque durante o espectáculo.

Prestação bem-conseguida de um projecto que deveria servir de exemplo para todos: afinal de contas, só é preciso darmos ferramentas às pessoas em vez de desistirmos completamente delas. A primeira lição prática sobre “inclusão” estava dada.



Depois de um curto interregno, Colin Stetson, prodigioso saxofonista, encheu o Auditório Luís de Camões, um belíssimo espaço que ajudou a amplificar as inegáveis qualidades do norte-americano. Partindo da sua escultura frankensteiniana feita de instrumentos de sopro — de onde estávamos, era isso que parecia, pelo menos… –, o músico desconstruiu as pré-concepções que poderíamos ter e atirou-se, em grande parte do tempo, a movimentos circulares que levaram pequenos apontamentos percussivos e vocais, deambulando entre material que soava a pequenos pedaços de bandas sonoras (não admira que já tenho feito esse trabalho para o filme Hereditário, por exemplo) e a faixas do seu disco de 2017, All This I Do For Glory.

Durante cerca de uma hora, Stetson fez um exercício físico e mental que pareceu tão desgastante como catártico. De difícil categorização, pode-se dizer que tudo aquilo são “restos” de ambient, heavy metal e jazz conspurcados por uma mente fascinante que nas interacções com a audiência se mostrou simpático e agradecido pelo convite para tocar ali.

DJ Milhafre e DJ Fellini fecharam as contas no Arco 8 e embalaram-nos para o segundo dia, que terá actuações de Grails, Fumaça Preta e Odete.