Travassos (Clean Feed/Shhpuma): “A música é uma vibração. Tens de levar com ela no corpo e sentir os músicos a tocar, a pingar, sentir o suor, o cuspo do trompete a cair para o chão…”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

“Já é tanta coisa”… termina assim a conversa com Travassos, uma das cabeças do eixo Clean Feed/Shhpuma que muito justamente se afirmou como um dos mais vibrantes no panorama editorial nacional que tem logrado igualmente registar alcance internacional. Mais de 700 edições no caso da Clean Feed e já mais de meia centena no catálogo da Shhpuma fazem desta dupla mas indivisível aventura um dos mais férteis casos nacionais no campo da edição discográfica, um acervo construído ao longo de quase duas décadas que merece aqui séria discussão com um homem que conhece muito bem essa dupla operação, que tem orientado o catálogo da Shhpuma por algumas das mais turbulentas e entusiasmantes águas musicais internacionais e que se afirmou como designer de mão cheia, assinando as capas que ajudaram a firmar a identidade editorial de cada um desses selos.

Nesta franca conversa, tida ao lado do rio, na zona de Santa Apolónia, em Lisboa, abordam-se muitos assuntos, da construção de um catálogo com vistas largas ao novo sangue nacional, dos sistemas de ensino e de financiamento da música à relação com nomes estabelecidos do panorama internacional. São 20 anos e já é, de facto, tanta coisa, entre o jazz, a música improvisada, a experimental e exploratória, mais electrónica ou mais acústica, mais ruidosa e abrasiva ou contemplativa e ambiental, a que tem relação íntima com a tradição e a que não dispensa o futuro. Cabe tudo na Clean Feed e na Shhpuma, defende o nosso interlocutor. E perante as evidências de dois catálogos tão amplos, tão vastos e fundos, não há como não concordar.



Vamos começar com uma pergunta geral: são quase duas décadas de actividade da Clean Feed, certo?

Sim.

Que balanço fazes dessa história?

Acho que o balanço é extraordinário. Não fui eu quem fundou a Clean Feed. Eu entrei cinco anos depois, mas foi, na verdade, nessa altura que a Clean Feed começou a dar o salto. Mas o balanço é incrível, porque nenhum de nós esperava que a Clean Feed atingisse o que conseguiu atingir. Tornou-se numa editora de referência mundial, sem qualquer discussão acerca disso. E continua a ser uma editora de referência. Isto tem tido os seus altos e baixos — com todas as mudanças na indústria musical, temos sofrido com isso. Tivemos momentos muitos bons quando a loja estava a funcionar, em que havia um conjunto de factores importantes a remarem para o mesmo lado. Depois tivemos de fechar a loja, por motivos financeiros. Agora continuamos numa luta para conseguir sobreviver, independentemente de sermos considerados uma das melhores editoras do mundo neste campo.

A loja fechou há uns cinco anos?

Seis anos.

Tendo em conta o que aconteceu em Lisboa nestes últimos anos ao nível do turismo e que eu vou vendo que tem um impacto positivo noutras lojas, não vos passa pela cabeça reabrir um espaço?

Não. Porque a vida de todas as pessoas envolvidas mudou, também ela, bastante. Nós, para além de uma loja, precisamos de espaço de armazenamento. Precisamos de escritórios e de uma outra logística. E as rendas, como sabes, são incomportáveis.

Neste momento há esse reverso da medalha. Existem os potenciais clientes mas os overheads cresceram desmesuradamente, não é?

E os potenciais clientes às vezes são só uma ilusão. Porque a história do “pinga pinga” não dá para pagar ordenados ao final do mês nem dá para pagar não sei quantas produções. Mas a loja era apenas um extra. O grosso do nosso negócio sempre foi a edição. Isso é que sustentou a loja durante muitos anos. A loja não se sustentava a ela própria. Era um cartão de visita, um ponto de encontro. Era magnifico as pessoas reunirem-se todas ali. Havia uma crença comum, havia um movimento.

Mas voltando a estes quase 20 anos de história, diz-me dois ou três marcos que tu aches que são bandeiras nesse percurso da Clean Feed.

Os primeiros grandes marcos foram os primeiros prémios que ganhámos — sermos reconhecidos mundialmente, termos sido considerados a melhor editora do mundo pela associação mundial dos jornalistas. Isso deu-nos um alento tremendo e foi um marco muito importante para nós. Isso depois foi-se repetindo durante seis ou sete anos — estávamos sempre nomeados e íamos sempre ganhando. E depois todo o carinho…

Os festivais em Nova Iorque são também um marco?

São também um marco. Foram momentos incríveis, de relacionamento com os músicos, de entrosamento, das pessoas nos conhecerem, de nós nos envolvermos mais directamente com os músicos. Também sempre tivemos questão de ter esse envolvimento e essa proximidade. O facto é que conhecemos muitos músicos pessoalmente. Fizemos questão de agendar concertos com eles e de os ter por aí. Nós tínhamos uma sala de ensaio, lá na loja, que era a Kitchen, uma antiga cozinha, onde eles começaram todos a ensaiar e a cruzarem-se — o Ferrandini, o Pedro Sousa, o Norberto… Depois começaram a cruzar-se com os mais velhos — o Maranha, o Rodrigo Amado, o Henrique Pinheiro, o Hernâni Faustino… Os próprios Alförjs começaram por ali. O Filipe Felizardo. O pessoal chegava e trocava ideias. Estavam ali dias e dias a ensaiar. Acho que isso foi fundamental para que começasse a crescer ali alguma coisa.

Ou seja, a Clean Feed não tem servido apenas para documentar o que está acontecer, tem provocado muito daquilo que acontece também.

Sem dúvida. Sendo que, agora sem a loja, isso talvez aconteça menos. Mas eles absorveram tudo e digamos que deram continuidade à aprendizagem, ou àquilo que absorveram. Eles continuam a encarar aquela história da mistura e da comunidade como uma coisa perfeitamente normal, sem escrúpulos, sem merdas. O Gabriel, por exemplo, dá-se perfeitamente bem com a malta da Cafetra, porque são da mesma idade e, não fazendo o mesmo tipo de música, respeitam-se imenso uns aos outros, partilham e tentam fazer coisas juntos. Isso é muito bonito. Acho isso fascinante. Por outro lado, no meio disto tudo, havia o Rescaldo, que era outra plataforma importante e que sempre privilegiou essa mistura também, essa novidade dos músicos que andam a fazer coisas fora da caixa, mais originais ou mais ousadas, mais aventureiras. O Rescaldo era o culminar e a recompensa para alguns desses projectos. Agora vão tocar ao palco da Culturgest, que é uma coisa bastante séria. A partir daí começaram a encarar as coisas com bastante seriedade. Foi uma plataforma de lançamento para a Shhpuma, por exemplo — os primeiros discos da Shhpuma eram todos acompanhados por um concerto na Culturgest, no Rescaldo. Havia um conjunto de factores que alimentavam esse movimento.

Às vezes nem temos grande noção de como estas notícias — que vamos vendo na televisão ou lendo nos jornais — das Caixas Gerais de Depositos e dos Berardos depois afectam os programas que vão desaparecendo e que eram grandes incentivos para a cultura. Mas há uma ligação entre estes ciclos de entusiasmo e de oportunidades na cultura, a este nível, e aquilo que se passa na macroeconomia, não há? Vocês sentem isso?

Há. E tem sido sempre assim. Há momentos em que temos uma certa estabilidade e depois as coisas desmoronam-se todas… A Culturgest foi uma perda enorme. Perdeu-se muito ali. A Culturgest e o próprio Maria Matos. Eram instituições que tinham uma dimensão simpática, apropriada, para fazer coisas com um certo alcance. Agora, sem o Maria Matos e com a Culturgest completamente focada no Grande Auditório, todos estes pequenos ou médios mas bons artistas que estão a começar ou a tentar lançar-se, independentemente do seu valor, perderam um bocado o espaço para se mostrarem. Provavelmente sempre vão existir espaços para tocar em Lisboa mas…



Parece que não há um degrau acima da ZDB.

Parece que não há um degrau acima da ZDB e depois é tudo concertos sem cachet, em que os músicos dependem do dinheiro que se faz à porta, o que é uma injustiça tremenda para quem quer fazer carreira. Depois andas a tinir o tempo todo.

Que tipo de relação é que uma operação como a Clean Feed tem com uma instituição chamada Jazz em Agosto?

Nós fizemos muitas coisas com o Jazz em Agosto. Fizemos muitas edições conjuntas.

Ajudaram a programar?

Nunca ajudámos realmente a programar porque o programador, o Rui Neves, é totalmente autónomo e, com todo o direito, os programadores não gostam muito de interferências. Têm as suas ideias fixas. Nós, naturalmente, que sugerimos algumas coisas e tentámos ajudar naquilo que conseguíamos. Sempre tivemos presentes com o nosso catálogo durante muitos anos desde o ano de 2002, salvo erro.

E essa presença prossegue?

Não. Essa presença deixou de existir. Deixou de existir por vários factores, que não quero estar a explanar.

Tranquilo. Mas era importante ouvir esse lado.
Mas tivemos uma boa relação. Fizemos 6 ou 7 edições, não tenho a conta certa, em parceria com a Gulbenkian de concertos gravados no Jazz em Agosto. Um dos mais recentes é o do Rob Mazurek com o Pharoah Sanders. Fizemos mesmo uma série, que era o Jazz em Agosto Series.

Fala-me um bocadinho sobre a vossa relação com artistas internacionais. Para quem, como é o meu caso, se habitua a relacionar-se com nomes internacionais a partir do que vai lendo na imprensa internacional especializada, constrói-se, quer se queira quer não se queira, uma imagem de que todos estes nomes são inacessíveis. Que os Evan Parkers da vida vivem noutra galáxia ou noutra dimensão. Que é muito difícil de chegar a essa gente. Mas não é assim tão difícil, pois não?

Uma das coisas que eu sempre apreciei nesta área do jazz é a existência de uma certa honestidade… Os músicos são muito terra a terra, muito simples, diferentes das outras áreas que caminham mais para o pop. Só as grandes estrelas é que são mesmo insuportáveis. Nós, durante este percurso todo que fizemos, conhecemos milhares de músicos, não é? E sempre me agradou isso, de serem pessoas acessíveis. Sem manias nem grandezas.

Gostam de comer sardinhas quando vêm cá?

Gostam de comer sardinhas e gostam de partilhar sem terem nenhum sentido de superioridade. Isso sempre me agradou muito.

Dá-me um exemplo de um par de grandes seres humanos que…

Olha, o Evan Parker é um ser humano extraordinário. Um ser humano lindo.

Boa.

Nós só temos problemas com uma ou duas estrelas daquelas, que agora não vou mencionar os nomes, divas, que te tratam como se tu fosses um empregado deles. “Vai-me buscar um café”, ou algo do género. Gente com postura de superioridade.

Mas pronto, um ou dois, nas centenas que vocês foram conhecendo, é uma média fantástica. Olha, e achas que chegaremos a um ponto em que um Ferrandini ou um Toscano, de repente, terão lugar em cartazes de festivais mainstream, como é o caso do NOS Primavera Sound, onde nós vimos este ano a Nubya Garcia ou os Sons Of Kemet a tocar, com 4 baterias, uma tuba e um saxofone, que é um ensemble invulgar para um festival daquele género. Achas que algum dia haverá abertura por parte dos programadores deste tipo de festivais em Portugal para o talento português, ou é preciso as coisas virem sancionadas de fora com algum tipo de coolness?

Sim, eu acho que é um bocado por aí. E esses casos que mencionaste são de bandas com algum groove. E isso é fundamental. Ou tu crias um palco específico ou… Há muitos projectos que teriam enquadramento nesses festivais mas o move do jazz sempre foi muito renegado. Há uma ideia muito negativa…



Mas era aí que eu queria chegar. Tu achas que o jazz precisa de um determinado contexto, de cadeirinhas sentadas num anfiteatro num jardim para ser apreciado, ou funciona noutro tipo de contextos?

De maneira nenhuma. O jazz pode funcionar em todos os contextos e registos. Acho que o sentadinho numa cadeirinha é o mais aborrecido dos acontecimentos para o jazz. O jazz, como eu gosto de ver, é mesmo num clube. A música é para tu levares com ela no corpo. A música é uma vibração. Tens de levar com ela no corpo e sentir os músicos a tocar, a pingar, sentir o suor, o cuspo do trompete a cair para o chão [risos]. Pronto. É por aí. Mas também há coisas que fazem sentido em contextos maiores, não em contexto de auditório. Depende bastante da música. Num solo de piano hiper-contemplativo não vamos estar ali todos de pé, não é? Ou seja, eu acho que há contextos para tudo. Mas o jazz é uma pena não saltar para o meio dos festivais.

Achas que isso iria pervertê-lo ou o jazz é imune a isso?

Acho que o jazz é imune a isso. Acho que não iria perverter nada. As coisas já estão tão perversas [risos]…

Então é mesmo uma falta de coragem de quem programa neste momento?

Acho que é uma falta de coragem e também uma falta de conhecimento. Mas acho que o jazz também tem alguma culpa no cartório.

Fala-me sobre isso.

Porque ele próprio não se expõe ou não se tenta envolver nesse tipo de coisas.

Isso é um movimento que o fado soube fazer.

Mas o fado é uma música hiper-abrangente e, de uma forma muito honesta, é muito acessível. É muito mais fácil.

Achas que o jazz exige mais do público?

Exige mais do público mas nem toda a música exige mais do público. Há essa concepção de que o jazz, à partida, é uma coisa que te vai exigir um maior envolvimento, uma maior atenção, uma maior predisposição para absorver aquela música. E em muito jazz sim, precisas de estar predisposto e de estar ali concentrado a levar “porrada”, se quiseres que aquilo te “bata”. Há outro jazz que não, que pode perfeitamente estar em qualquer festival.

Dá-me um exemplo de um artista português que tu visses a funcionar num Super Bock Super Rock ou num Nos Primavera Sound.

O gajo mais inteligente do jazz que nós temos em Portugal é o Bruno Pernadas, estás a ver? Ele é um tipo do jazz que conseguiu absorver estas influências daqui e dali, do lounge, do cool e até da pop, misturou aquilo tudo, continua a ter ali as raizes do jazz, e o facto é que ele está a tocar em todo o lado, nos festivais. Agora, tens muitas bandas que poderiam tocar em festivais. O Toscano, por exemplo. Mas o Toscano é mesmo jazz jazz, percebes?

O Toscano é a lampreia de cabidela, não é? Não é cá para curiosos. Tens de gostar mesmo para apreciar.

Eu acho que é fácil gostar do Toscano. Ele tem as referências certas. E sabe muito bem o que é que está a fazer. É um caso bastante curioso, porque ele é um tipo que vem da redoma do jazz clássico e, por vontade própria, talvez até pela idade dele, por ser um tipo jovem, tentou misturar-se com a outra malta mais jovem que está a fazer coisas diferentes, coisas um bocadinho mais arriscadas. Ele, sem qualquer tipo de medo e sem perder a sua estética, a sua direcção, mistura-se sem problemas, sem que haja qualquer atrito.



Já falámos aqui um bocadinho do Ferrandini e do Toscano. Como é que tu achas que alguém chega a músico de jazz em Portugal? Ou seja, isto passa muito pelas instituições de ensino? E se falarmos de instituições de ensino temos de falar de Hot Clube. Ou há outros caminhos para te afirmares? Como é que as novas gerações estão a aceder ou não a esta linguagem musical?

O caminho mais óbvio é que tens de ir para uma escola de jazz aprender a tocar. É o que te impingem imediatamente. Tens que saber tocar. Nunca se alimentou muito o auto-didatismo nos músicos. Existem casos, mas há essa obrigatoriedade [de passar por alguma instituição]. Se não, és ostracizado. Isso é uma coisa negativa.

Portanto o primeiro selo de qualidade tem de ser atribuído pela academia, não é? Tens que entrar num circuito académico e ser validado nesse circuito?

Sim. E a nossa academia, digamos, está a anos-luz no que toca a dar incentivos de maior liberdade aos músicos.

É muito canónica.

É muito canónica. Continua muito canónica. As coisas estão a abrir. Estão a aparecer umas luzes aqui e ali, principalmente no Porto, porque a malta do Porto é um bocadinho mais aberta. Nós, aqui, estamos muito presos ainda ao domínio do Hot Clube. Sendo que o próprio Hot Clube, e as pessoas que lá estão, também estão a par, cada vez mais abertas, percebem o que se passa, e cada um já segue o caminho que lhe apetece. Eu não sou músico de jazz mas conheço o circuito. O circuito é mesmo muito pequenino. Tu, se queres ser músico de jazz profissional, ou entras no circuito ou vais ser sempre um renegado, que vai tocar à porta neste ou naquele “buraco”. Uma pessoa, quando tenta encarar isto profissionalmente, se calhar pensa nessas coisas. Os músicos grandes — sei lá, o Carlos Barreto, ou uma coisa do género — são músicos que tocam em quatro ou cinco sítios e esgotam. O país é pequeníssimo. Não há um circuito instituído. Ou vai e vem. Há poucos festivais. É difícil. Eu não gostava de ser um músico de jazz.

Imagino que em cima da tua secretária esteja uma pilha de possíveis futuras edições. E em possíveis futuras edições deve haver novo talento nacional, de certeza absoluta. Como é que tu estás a encarar o futuro próximo do jazz e, sobretudo, do jazz a que vocês vão dar atenção editorial por cá?

Por acaso… Digamos que [risos]…

Prepara lá a tua resposta [risos].

Vamos lá ver como é que eu te vou responder a esta pergunta [risos].

Pronto: há novos Ferrandinis ou novos Toscanos a aparecer por aí?
Não há. Nem por isso. Ou seja, isto demora, não é? Demora um tempo a formar-se. Temos agora uma malta do Porto, que está a fazer coisas cada vez mais interessantes. Vamos editar… Mas deixa-me só fazer aqui uma separação das águas: eu não sou o editor da Clean Feed, ok? O editor da Clean Feed é o Pedro Costa. Ele é que é o responsável-mor por escolher o que vão ser os lançamentos. Ele é que sempre foi o motor, a nível profissional e a nível pessoal, de todo este empreendimento.

Mas estás a par do que vem aí?

Estou a par. Mas as coisas, neste momento, estão a girar à volta das mesmas pessoas. O Ferrandini tem o primeiro disco dele em nome próprio e só agora é que está a tentar conquistar terreno e firmar-se e afirmar-se.

Depois de ter colaborado com o Rodrigo Amado, etc.

Sim, depois de ter feito imensas tours por todo o lado, como sideman. Mas está a lançar-se como líder agora, tem feito muitos projectos interessantes e tem estado a ser abraçado por algumas pessoas, como as da ZDB ou da BoCA, com quem fez um projecto super interessante. Isto às vezes também tem que ver com a personalidade das pessoas. O Ferrandini é um puto muito fixe e isso ajuda bastante.

O que tu me estás a querer dizer é que ao invés de ele ser um representante de uma vaga de fundo é uma excepção, e que não há muitos Ferrandinis e Toscanos a aparecer por aí?

Não há. Não há, infelizmente. E também não há espaço. Acho que não há muito espaço.

Para uma editora que tem sempre os olhos postos no futuro isso é preocupante.

Não. Se olhares para o nosso catálogo, 99% do catálogo é composto por músicos estrangeiros. Tal como as nossas vendas, são 99% lá para fora. Se houver mais Ferrandinis nós ficamos mesmo muito contentes. Mas se não houver, nós também já estamos habituados. Sentimos que já fizemos o que podíamos para conseguir alimentar mais músicos, para alimentar a cena. Mas isto é muito difícil. É difícil para nós, enquanto profissionais, enquanto seres humanos, enquanto pais. É difícil. É difícil dar mais. Cada vez temos menos tempo, estamos a ficar mais velhos.

A tua criança é novinha ainda, não é?

A bebé tem nove meses.

E é a única?

Tenho uma com quatro anos.

E ela ainda não te disse “pai, quero ser músico de jazz?”

Não [risos]. Mas já me disse que quer ir tocar comigo no próximo concerto. E vai [risos].

Tens de tomar atenção a isso.

Mas deixa-me dizer-te que Lisboa está muito fértil a nível musical. Aliás, o país sempre foi muito fértil, tendo em conta a nossa dimensão, independentemente de ser jazz ou ser isto ou aquilo. Está fértil. Há muitos putos cheios de novas ideias, cheios de força, a desbravar caminhos. Eles estão-se a borrifar, se estão a fazer o jazz ou a música electrónica ou experimental. Estão-se a borrifar. Já não têm esses preconceitos na cabeça.



Isso é bom.

É excelente. É óptimo. Por isso, a coisa está a rolar. A coisa está viva.

Isso é importante saber.

Não sentes isso?

Sinto, sinto. Eu quero é saber… A mim não me aterram coisas na secretária que eu gostava de editar. A minha perspectiva será diferente da vossa, obviamente. Mas olha, fala-me então sobre esse futuro: dizes que a intenção, a partir de agora, será espaçar e cuidar mais as edições. O que é que isso significa exactamente?

Um espaçamento maior entre as edições.

Terá implicações ao nível dos campos estéticos que vão andar a explorar?

Não. Significa só mesmo uma redução na quantidade. O que também vai implicar menos despesas. O mercado está mesmo totalmente afunilado no streaming e o income do streaming é niente. É muito pobre. E tem sido difícil para nós.

E nesse panorama, em que o streaming não representa quase nada, tenho reparado que vocês têm também apostado, de alguma maneira, nas edições em vinil. Isto é uma bolha?

Sinto que é só uma bolha. Existe um mercadozinho em crescente mas é muito diminuto. Não se reflecte nas vendas como nós gostaríamos que se reflectisse. Os músicos fazem questão de editar em vinil. Digamos que, neste momento, é um objecto mais valioso, que vai perdurar mais.

Um capricho dos próprios artistas?

É também um capricho dos próprios artistas. E também um capricho nosso. Esta edição do Sei Miguel só em vinil, para mim, é qualquer coisa de muito especial. Vai ficar certamente para a história. Se as pessoas quiserem comprar, compram em vinil. Mas se fores a pensar, nem toda a gente tem um gira-discos.

Mas hoje em dia há muita gente que compra em vinil e ouve depois em streaming.

É. Isto é mais uma questão do fetiche pelo objecto. Ou seja, é um mercado crescente mas é muito residual. Vai avançando muito devagarinho.

A Clean Feed nunca pensou em emigrar?

Então não pensámos [risos]?…

O vosso mercado está lá fora. É mais fácil deslocar produto físico se estiverem no centro do mercado do que na ponta do mercado.

Mas nós estamos muito bem posicionados, se pensares bem, geograficamente. Estamos posicionados num sitio excelente.

Essa é uma questão interessante porque, durante anos, a narrativa era que Portugal vivia na cauda da Europa e que éramos um país periférico e que por isso as digressões nem chegavam cá… Depois parece que deixámos de o ser, nesse sentido geográfico, pelo menos…

Repara, nós temos a Europa toda ao nosso lado. O shipping para a Europa é bastante barato, tendo em conta as facilidades da Comunidade Europeia. Somos a porta de entrada para o continente americano, certo?



Certo.

Por isso estamos no melhor sítio. Para onde é que queres que a malta vá, se Portugal é tão bom? Só se ganha muito mal, mas isto é uma maravilha.

Não há sardinhas como aqui, não é?

Não há sardinhas nem outras coisas [risos]. Por isso, acho que essa situação geográfica sempre foi uma vantagem para nós.

Mas ainda assim disseste que “sim”, que ponderaram ou fantasiaram a mudança.

Sim. Era um bocado fantasiado. Eu sei que, se calhar, estaríamos todos a viver melhor, a nível financeiro, pelo menos, se estivéssemos mais no centro da Europa — Alemanha, Bélgica, Noruega, Suécia…

Disseste uma data de países mas não nomeaste os Estados Unidos da América.

Nos Estados Unidos não é fácil, nem para os músicos norte-americanos. Também é só uma ilusão. Os músicos norte-americanos às vezes também tocam por muito pouco. E os Estados Unidos são enormes. Terias de te fixar em Nova Iorque ou em Chicago e já lá há muitos cães para o mesmo osso.

Em casa tens uma estante já com 700 lançamentos. Como é que vocês lidam com o vosso próprio arquivo? Isso é uma preocupação? Têm os masters todos organizadinhos?

Temos um cofre fechado a sete chaves com tudo hiper-organizado, catalogado, com desumidificadores e sistemas de segurança altamente… Lasers, reconhecimento facial, retina [risos]…

Só ainda não falámos da Shhpuma, que é o teu “bebé”.

Também considero a Clean Feed como um bebé meu, porque dei todo o meu sangue e a minha alma a este projecto desde o início e sinto que tenho dado um contributo importante.

A Shhpuma vai com quantas edições?

53.

E o rácio de talento nacional no catálogo da Shhpuma já é maior.

É maior mas tem estado a abrandar. Mas há sempre coisas interessantes a aparecer, como os NAO. Vindos de nenhures, aparecem estes três rapazes a fazer aquela música sem qualquer escrúpulo.

Foram eles que te contactaram?

Claro.



No caso da Clean Feed houve, a dada altura, um muito fértil ecossistema de festivais de jazz que ajudaram a sustentar a ideia, se não a própria realidade, da editora. No caso da Shhpuma, o panorama torna-o um bocado mais difícil. Os festivais que se enquadram com aquilo que vocês fazem é mais raro?

Neste caso era o Rescaldo. Era o grande pilar. É mais difícil, mas cada vez mais têm aparecido mais festivais onde é possível tocar. O Rescaldo estava feito à imagem da Shhpuma. E o Rescaldo vai continuar. Ainda não sei em que formato, em que moldes ou onde [risos]. Mas tem de continuar, assim que eu tenha tempo para lhe dedicar.

Tendo em conta do ecletismo do catálogo da Shhpuma — do noise ao rock abrasivo e à electrónica — ainda há zonas musicais por explorar? Ainda há terrenos novos por desbravar?

Isso é uma pergunta bastante difícil [risos]. Essa resposta, se calhar, vai variar de pessoa para pessoa. Se eu ouvir uma coisa pela qual os miúdos andam doidos, eu sou capaz de já ter ouvido aquilo mil vezes e os putos acham aquilo a coisa mais inovadora que existe. Eu acho que ainda há terrenos por cartografar. Cada vez menos. E as noções variam, não é? O que é experimental para alguém, para mim é só uma repetição de fórmulas já experimentadas. Por exemplo este disco dos Monopiece, uns putos do Mills College. Eles convidaram o Jaap Blonk para tocar com eles, que é um senhor que já vem da beat generation. Eu sinto que estes tipos estão a cartografar novos territórios. Esta música é uma música nova, de alguma maneira. Ouve e dá-me a tua opinião.

Assim o farei.

Mas na maior parte das coisas é óbvio que tu sentes referências por todo o lado. Mas é como te digo: aquele tipo pode achar mega inovador e tu ouves e pensas “please… o Xenakis já fez isto há quase um século atrás”. Mas eles pensam que estão em caminhos novos, em territórios inexplorados. Mas é bom ter essa inocência.

Se não me engano, o vosso catálogo foi construído muito no presente. Não há propriamente edições de arquivo, uma gravação perdida dos anos 60 que vocês relançaram.

Temos um ou dois casos. Assim vagamente, se calhar temos mais. Temos uma gravação do Steve Lacy, que se não me engano foi um disco gravado em Portugal, o Estilhaços. Foi reeditado passados uns 40 anos.

Era uma gravação da Guilda da Música, selo ligado à Sassetti.

Exacto. Agora é o que eu me lembro, mas sei que há mais qualquer coisa.

E em relação às próximas edições, já podes levantar o véu a uma ou duas edições que já estejam bem encaminhadas?

Na Shhpuma vai sair um projecto que se chama Trigger, que tem um disco editado pela Tzadik, do John Zorn. São duas guitarras e uma bateria. É malta próxima do jazz, mas é rock and roll, noise, visceral, avassalador. É mesmo bom.

Nova Iorque?

Malta de Nova Iorque. E tenho recebido, curiosamente, muitas propostas de italianos. Tenho recebido constantemente propostas de italianos. Alguns sinto que ainda não estão “lá”. Mas há muita malta a fazer coisas interessantes. Lá para Setembro vai mesmo sair algo de uns italianos, um duo só de guitarra e bateria. A bateria mais jazz/rock mas a guitarra é mais rock/noise, com muitos pedais.

Como é que é o teu quotidiano? Tu acordas, ligas o computador e tens 30 propostas para editar?

Não tenho 30 mas tenho sempre uma ou duas por dia. Curiosamente, recebi no outro dia uma proposta de um tipo do qual eu tenho alguns discos. Se calhar até conheces, o Økapi. É uma coisa totalmente fora, mais próxima da música de dança, uma coisa assim… “Como é que este gajo me vem pedir para editar na Shhpuma?” Eu ainda estou a ouvir aquilo, mas aquilo é um bocadinho desenquadrado… Não quer dizer que eu não goste daquilo, até porque tenho discos. Mas tem que fazer sentido. Tenho de perceber em que é que eu posso ajudar este tipo. Os nossos circuitos, a nossa área de promoção, não o vão abranger. Se ele tivesse numa outra editora se calhar teria melhores resultados. É preciso ter essa sensibilidade. Eu digo-lhes “eu gosto disto mas eu não vou conseguir fazer por ti o que tu mereces.”

Qual é a nacionalidade mais estranha que já editaste?

Mais estranha [risos]?

Ou mais exótica, se preferires.

Não sei.

Nunca editaste nada do Burkina Faso?

Não, não. Mas já recebi uma proposta de um guitarrista a solo, a tocar ukelele, que acabou por meter um tema na nossa compilação das guitarras, curada pelo Elliott Sharp. Acabámos por não lhe editar o álbum todo. “Elliott, ouve isto, este tipo tem talento.”

Mas era do Burkina Faso?

Não, não [risos]. Não me lembro de onde era. Já é tanta coisa…


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu