Toro y Moi // Outer Peace

[TEXTO] Miguel Santos

Lux, primeiro piso. Estamos bem — ainda não é muito tarde –, a curtir a atmosfera na sala e a música nos altifalantes. Casa, cozinha. Estamos com fome, a cozinhar um daqueles pratos que já andamos a treinar há algum tempo e, inspirados, damos um pé de dança e um picar de alho. Outer Peace, o novo álbum de Chaz Bear, mais conhecido como Toro y Moi, é um álbum que dá para ouvir em ambos os momentos descritos: o seu objectivo final é a dança, mas não se esquece da estética caseira, lo-fi e chillwave que se espalha aliás por toda a discografia do artista norte-americano.

Depois de em 2017 ter mostrado ao mundo Boo Boo, Bear decidiu que não ia fazer uma tour para apoiar esse álbum, optando por DJ sets, algo que acabou por inspirar Outer Peace. Apesar de Boo Boo já demonstrar algo semelhante, esse trabalho era sobre dançar e reflectir longe de tudo e de todos, solidão e algum funk alimentados a sintetizadores que se conjugavam numa atmosfera nebulosa e decididamente introspectiva. Mas em Outer Peace, o artista alarga o espectro sónico que já conhecemos ser seu, mostrando uma sonoridade mais dançável e mais expansiva, e convidando-nos de bom grado a entrar no seu mundo electrónico.

“Fading” abre o projecto com essa premissa bem exposta: a percussão comprimida e uma linha imperial de baixo adequam-se à melancolia na voz e Bear conclui que às vezes é preciso um bocadinho de fé nas coisas. “Freelance” é o auge desta festa dançável e a maneira como a voz de Bear se derrete ao longo desta música é um deleite, um momento original e cativante do artista. Em “Laws of the Universe” apresenta sons mais retro e traz algum do funk que mostrou no álbum anterior, com um riff de guitarra que fica na cabeça. Ouvimos Bear dizer “James Murphy is spinning at my house”, numa clara alusão a uma música de LCD Soundsystem e com uma entoação que lembra James Murphy, o seu mítico frontman. É claro em Outer Peace que Toro y Moi não se leva demasiado a sério, apresentando alguns temas cativantes, descontraídos, para serem dançados sem coreografia.

No entanto, há alguns momentos do álbum em que se sente que as músicas não estão muito desenvolvidas. “Baby Drive It Down” mostra-se como uma canção em que Bear abraça as sonoridades do momento, com uma aura tropical a permear a batida abafada, mas vive muito do seu hook e nada mais e, quando parece que vai finalmente progredir, termina. Em “Miss Me”, um tema aquoso e luzidio, a piscina em que mergulhamos abafa a festa que se passa à superfície e é uma música demasiado primitiva, à semelhança de “New House”, uma confissão consumista algo repetitiva, demasiado pacata para deixar mossa. E ainda que em “Who Am I” seja interessante a maneira como Bear discute algumas questões interiores profundas acompanhado por um som leve e casual, a música nunca progride para além do loop instrumental que se instala nos seus primeiros momentos. Há uma clara vontade de Toro y Moi em inovar e diversificar a sua discografia, mas a maneira como o faz soa incompleta.

“Monte Carlo” e “50-50” fecham o disco com dois dos momentos mais introvertidos de todo o projecto e que, curiosamente, remontam a uma sonoridade trap. Há qualquer coisa de Travis Scott nestes temas — a entrega meio recatada meio expressiva lembra este artista — que fecham o alinhamento, afastando-se da estética em que Bear realmente brilha. São esses percalços ao longo do caminho que mostram que em Outer Peace a bola de espelhos nem sempre reflecte a luz mais adequada para o momento em questão. Não é a noite de banda sonora perfeita no Lux ou a melhor tentativa da nossa veia gourmet: falta uma pitada de sal a ambos.


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