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Fotografia: Sara Falcão

Para os criadores que procuram uma forma de começar a descodificar os códigos das burocracias relacionadas com a sua arte.

Tomás Martins: “Se não dás valor ao que fazes, não podes esperar que o mundo te dê o valor que procuras”

Fotografia: Sara Falcão

“Este é o meu salto de fé”, proclamou Tomás Martins ao anunciar a plataforma criador.pt. Conhecemo-lo de saltos mais angulosos e coreografados, no videoclipe de “Lágrimas”, mas o seu apoio a Slow J parte dos bastidores. Ajudou a erguer a Sente Isto (onde é, actualmente, o label manager) com João Batista Coelho e Diogo Fernandes e assumiu, entretanto, as pastas das carreiras de Papillon e Charlie Beats.

O trabalho de Tomás expõe o subsolo dos palcos: a gestão que assegura o sustento do artista. Foi com este propósito em mente que lançou criador.pt, para que artistas independentes aprendam a navegar pela burocracia, tratem os recursos pelo nome e adquiram à-vontade com o outro lado da performance. O espaço desdobra-se numa série – as entidades de gestão de direitos de autor tomam o holofote no primeiro episódio), numa newsletter e ainda na possibilidade de contacto pessoal.

O Rimas e Batidas falou com Tomás por e-mail, onde nos explicou a génese do projecto, a necessidade de valorizar a arte para além dos aplausos, e o que convém mudar no sistema nacional de remuneração dos artistas. 



Parece estar subjacente ao criador.pt uma preocupação principal: que as burocracias não suguem a energia do artista. Há um fundo autobiográfico nisto?

Há um fundo autobiográfico no sentido em que, como manager, um dos focos do meu trabalho sempre foi libertar o artista das burocracias para que o foco dele esteja na criação. A arte deverá sempre ser a prioridade de um criador e não sugiro a nenhum artista que coloque a expectativa de crescimento da sua carreira num manager, no marketing ou qualquer outra variável que não a sua obra. Mas um artista, sobretudo hoje, tem que ser um empreendedor — o CEO da sua própria empresa. E para isso tem que desenvolver uma visão estratégica coerente em áreas que suportam a sua carreira, como o marketing, direitos de autor, concertos, videoclipes, design e o próprio management, por maior que seja a sua estrutura. 

Tentar converter uma paixão em sustento é a tensão própria destas vidas. Não são só aplausos e elogios, tem que ser rentável – mas isto não parece ser conhecimento comum. Como é que se acorda o mundo para isto? 

Eu acredito que a arte tem um valor enorme e que knowledge is power [conhecimento é poder]. Por isso criei esta plataforma. Acho que tudo começa no love que dás à tua arte: o quão acreditas em ti próprio e quanto valor dás às tuas criações. Se as decisões que tomas forem conscientes e consequentes, desde a energia que dedicas a chegar ao melhor produto possível, até à atenção que dás à maneira como o comunicas, o mundo vai reflectir isso. 

Claro que não há fórmulas e tens que ter talento, mas acima de tudo acho que tens que acreditar em ti, valorizar o que fazes e trabalhar por isso, independentemente do outcome [resultado]. Se não dás valor ao que fazes, não podes esperar que o mundo te dê o valor que procuras.

O criador.pt é também uma forma de evitar que os novos artistas sejam explorados por desconhecerem o meio? 

A minha motivação essencial é a ideia de que se a informação estiver acessível, os criadores vão tomar melhores decisões. E se souberes que é possível ser artista em Portugal, vais acreditar mais em ti mesmo. Mas é também o que disseste. Já vi alguns artistas, não só os novos, a serem prejudicados por não lerem um contrato com atenção, por não saberem os seus direitos ou por não saberem que se ganha dinheiro no streaming. Isso é meio caminho andado para seres explorado, mesmo que o outro lado não tenha más intenções. As pessoas usam o espaço que nós lhes damos e a responsabilidade de proteger a tua arte é tua.

Já testemunhaste artistas obrigados a abandonar a sua paixão por se perderem na teia monetária e burocrática? 

Conheço muitas pessoas com um talento enorme que não seguiram a sua paixão por não acharem que é possível. E portanto fazem coisas que não gostam para se sentirem financeiramente seguros. Além disso, existe também uma ideia muito enraizada na nossa cultura de que arte é um hobby, que é o que fazes quando não tens um trabalho sério ou quando estás perdido na vida. Ou que, por fazeres o que gostas, podes fazê-lo grátis. Mas quando bates e dás concertos e apareces nos jornais, só podes ser um génio (!).

Portanto, o artista muitas vezes ou está no lugar de renegado ou na posição de divinizado. Não é visto como um profissional, como todos os outros. Acredito que parte do meu propósito é ajudar a transformar essa visão. Mas, como disse, isso começa no valor que damos a nós próprios como criadores.

Algo mais específico ao funcionamento dos sistemas que mencionas no primeiro vídeo: quão bem funciona a GDA, por exemplo, no sentido de detectar quando uma obra é difundida publicamente? 

Este primeiro episódio explica quais os teus direitos como autor, intérprete ou dono de um master e quais as entidades que o recolhem. Antes de discutirmos se elas fazem bem o seu trabalho, é importante perceber que em Portugal elas são as únicas que o fazem, por isso se queres receber os teus direitos não tens grande alternativa, neste momento, a não ser que cries tu uma alternativa.

Mas exactamente por não teres essa possibilidade de escolher entre diferentes entidades, como tens noutros países, tens que estar atento ao que elas estão a fazer por ti. Se eu souber quais são os meus direitos e o que deveria estar a SPA, a GDA e a Audiogest a fazer em meu nome, então vai ser mais fácil exigir destas entidades cobranças e distribuições mais fidedignas à realidade. Os meus últimos meses têm sido passados a ler regulamentos e cruzar dados dos relatórios de distribuição e a reunir com eles para esclarecer dúvidas que tenho e apontar os erros que encontro.

Respondendo mais directamente, a era digital veio mudar imenso a indústria e estas entidades têm que acompanhar esta evolução. Quanto mais tempo demorarem a adaptar os seus processos à realidade tecnológica, menos eficiência terão. Acho que ainda se estão a adaptar e eu gostaria que se adaptassem mais rápido, mas sei que estão a fazer o esforço e tem havido melhorias, sobretudo na área digital. 

A série destina-se a quem está a aprender a navegar pelos sistemas existentes – mas que mudanças crês terem que sofrer? 

Acho que o maior desafio é a parte tecnológica. A SPA, por exemplo, existe desde 1925 e é uma estrutura muito pesada, com muitas pessoas. Quão mais pesada a estrutura, menos capacidade ela terá de se adaptar rapidamente às mudanças, que nos últimos anos têm sido imensas. Sinto que há muitos procedimentos que têm uma carga burocrática excessiva e muitas vezes a informação está apresentada de uma forma que não é nada friendly para uma geração como a nossa, o que desenvolve uma ideia de falta de transparência. 

Acho que isso tem que mudar porque promove o afastamento entre os criadores e quem os representa. Mas, em última análise, as entidades são compostas por pessoas, com quem nos temos que sentar com as pessoas e assumir uma posição construtiva. Claro que há muita coisa a melhorar e tenho uma lista delas, mas se as pessoas destas entidades tiverem todas mais de 50 anos e o pessoal de 20 anos não falar com elas, é normal que a entidade pense mais 1990 e menos 2020.

O conhecimento que promoves no criador.pt deriva essencialmente do teu trabalho com o Slow J ou foi mais gradual que isso? 

Desde 2013, quando criei uma associação cultural, que comecei a trabalhar com artistas e a fazer produção de eventos. Mas foi a partir de 2015, quando comecei a construir Slow J com o João que descobri sequer o que era ser manager e como funcionava a indústria. Logo nessa altura, tinha a ideia de partilhar informação que estava codificada, porque fiz o curso de Direito e o que mais sentia era que nos ensinavam a descodificar códigos – literalmente.  Se a lei valia para todos, então, por que razão nem todos conseguiam ler a lei? 

Nos últimos dois anos, criámos a Sente Isto e como manager comecei a trabalhar com o Papillon e depois com o Charlie Beats, e senti cada vez mais que tinha informação concreta para passar e por isso este projecto foi-se consolidando na minha cabeça e tornando-se realidade. O trabalho com o João e o apoio dele e dos rapazes foi fundamental para dar este meu salto de fé e partilhar o que já aprendi.


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