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Fotografia: bardhakrasniqi___

A escolha certa para quem procura a banda sonora para uma viagem tranquila.

Tom Misch: “Eu adorava ouvir o Yussef a tocar e imaginei que poderíamos fazer coisas boas se colaborássemos”

Fotografia: bardhakrasniqi___

No final de Abril, com os contornos de uma pandemia a desenrolarem-se em pano de fundo, Tom Misch e Yussef Dayes chegaram-se à frente com o seu primeiro álbum colaborativo, What Kinda Music, que foi editado pela histórica Blue Note, facto que, aliás, configura uma assinalável vontade de encarar o futuro por parte de uma casa que já ultrapassou as oito décadas de vida.

O multi-instrumentista e o baterista foram à procura de um local sónico onde ambos conseguissem tirar o melhor (ou o mais inusitado) de cada um, mas não foram sozinhos, levando consigo o rapper Freddie Gibbs, o baixista Rocco Palladino e o saxofonista Kaidi Akinnibi.

No rescaldo desse lançamento, Misch atendeu a chamada do ReB e explicou-nos aquilo que podemos ouvir neste encontro de grandes mentes:



Vamos começar pelo título do álbum. E aposto que ainda ninguém te perguntou acerca disto (risos)… Que tipo de música é esta, afinal de contas?

[Risos] É uma coisa que não consegues mesmo catalogar. É uma mistura de diferentes pensamentos, de diferentes influências. Coisas que o Yussef curte, coisas que eu curto, coisas que ambos curtimos. É do tipo… Aconteceu. Este álbum foi uma experiência e culminou no que apresentámos. Não tínhamos a intenção de fazer um determinado estilo de música, acabou por ficar uma coisa muito variada.

Podemos argumentar que tu e o Yussef começaram em pontos diferentes: tu com uma bagagem mais hip hop, soul, pop, e ele mais enquadrado com esta cena jazz londrina. Discutiram sobre tentarem encontrar-se algures a meio do caminho ou tentaram imaginar qual seria esse local?

Sim, eu imaginei o local, sónica e musicalmente. Não o imaginei em palavras ou em caixas. Não pensei numa espécie de equação, em que tu adicionas este som e depois o outro som e obténs algo novo. Eu adorava ouvir o Yussef a tocar bateria e sempre imaginei que poderíamos fazer coisas boas se colaborássemos. Acabámos por criar coisas interessantes só por estarmos a “brincar” juntos. Fiquei surpreendido com a variedade dos resultados. Por vezes cedemos nalgumas coisas, nessa tentativa de encontrar o tal terreno comum, mas noutros momentos nem por isso. Mas isso é normal quando colaboras com alguém.

Fiquei muito curioso quanto a isto: quando é que a Blue Note entrou em cena para a edição? Vocês começaram a criar o projecto já sabendo que era lá que ia ser editado ou isso só aconteceu depois?

Provavelmente apareceu um ano após termos começado a fazer o disco. Estávamos a meio de o completar e a pensar por que selo o iríamos editar. Acho que até foi o meu manager a sugerir lançá-lo pela Blue Note. Fiquei tipo, “claro!” Pareceu-nos logo uma possibilidade muito entusiasmante. Estivemos ao telefone com o Don Was, da Blue Note, e foi fixe, porque eles têm todo aquele catálogo lendário do jazz e este álbum, não sendo estritamente jazz, partiu do jazz. Pareceu-nos a coisa acertada a fazer. Se alguma vez fizesse um álbum para a Blue Note, este seria o álbum certo.

Outra editora de jazz lendária, a Impulse!, editou projectos em que entra o Shabaka Hutchings. Agora a Blue Note leva-vos a bordo. Esta cena a que chamamos jazz está a mudar e as editoras estão a prestar atenção aos artistas que estão a tentar definir novos caminhos para a cultura.

Definitivamente. O jazz sempre evoluiu. Nunca se manteve o mesmo. Se tu fores olhar para a história do jazz, ele sempre se modificou consoante as eras. E acho que vai continuar a ser assim. Acho que o que aconteceu mais recentemente foi que o jazz, de certa forma, se infiltrou em géneros mais mainstream. Ouves influências do jazz até em músicas que passam na rádio mais frequentemente, que usam acordes mais “jazzísticos”. Não é jazz tradicional e alguns dos amantes do género podem até dizer que não é jazz de todo. Mas é inspirado pelo jazz e tudo depende da forma como tu defines o jazz.

Quando é que começaram a pensar nesta colaboração?

Nós conhecemo-nos em 2018. Conheci o Yussef na festa de lançamento do Geography. Disse-lhe: “vamos mas é para o estúdio”. E fomos. Começámos a brincar, a experimentar, e nasceu um álbum daí. Não era intencional, apenas aconteceu. Portanto, eu conheci o Yussef pessoalmente em 2018 mas já o conhecia há muito mais do que isso. Lembro-me de o ver tocar bateria num programa de talentos quando eu era bem mais novo, tipo há 20 anos ou coisa assim. Foi quando começámos a trabalhar juntos que eu me apercebi que ele era esse gajo do programa de talentos.



Só te apercebeste disso anos mais tarde? Isso é engraçado. Boa história [risos].

Sim [risos].

E quando é que o Freddie Gibbs entra na equação? Ele lançou aquele que é um dos meus álbuns favoritos de hip hop do ano passado.

O Yussef tinha o contacto do agente do Freddie e enviámos-lhe a faixa com o espaço necessário para ele rimar o verso dele. Foi tudo muito orgânico, embora não tenhamos estado em estúdio com ele.

Quisemos experimentar malta diferente nas participações. Pensámos cuidadosamente nisso.

Ficou uma óptima faixa. Há muitos artistas que neste momento estão a adiar as suas edições, dada a época estranha que vivemos. Quais são as tuas expectativas ao lançar um álbum no meio desta pandemia?

Isso é interessante. Acho que não tem o mesmo tipo de promoção que teria quando tudo estava normal. Acho que há uma falta de comunicação dentro do negócio da música neste momento. O que é compreensível. Mas eu não mudaria a data porque eu queria mesmo que isto saísse, e as pessoas precisam de música, agora mais que nunca. Precisam de coisas para se ocuparem e distraírem. Julgo que é algo bastante poderoso, poder lançar um álbum no meio desta situação.

Falando em coisas que as pessoas procuram de momento, presumo que tu e o Yussef já tenham pensado num concerto ao vivo em torno desta música. Já o planearam? É algo que podemos esperar ver a acontecer?

Foi planeado mas tem estado a ser reagendado. Vamos dar alguns espectáculos em Setembro. Tínhamos alguns festivais em agenda — íamos ao Glastonbury — mas foram cancelados. Vamos dar alguns espectáculos. Temos alguns em Setembro e depois esperamos pelos festivais do próximo ano.



Que tipo de ensemble é que tencionam levar para a estrada?

Acho que será bateria e guitarra, obviamente, e também baixo, teclas e mais alguém numa guitarra e violino. É uma formação interessante.

Falas-me um pouco acerca do lado técnico da composição deste álbum? Que tipo de máquinas e ferramentas é que usaram?

Andámos entre dois estúdios. Num deles só tivemos três dias, em 2018, bem no início do projecto, e gravámos tudo em fita, com equipamento analógico. No outro estúdio estivemos muito tempo a equacionar de que forma é que conseguíamos obter um som interessante. E eu sou produtor mas nunca tinha gravado uma bateria com dois microfones. Foi uma nova experiência para mim. Muitas das faixas deste disco foram gravadas assim. É algo raro. Usámos uma data de sintetizadores e equipamento externo, cenas com as quais podes brincar, o que é fixe.

Trocaram referências um com o outro? Mostrar discos para fazer ver as ideias ou direcções que queriam seguir.

Sim, trocámos. O Yussef não faz muito isso. Ele não referencia discos com muita frequência. Eu sim. Durante a mistura procuro muitas vezes discos que sejam referências para me ajudar a perceber ao que eu quero soar. Mas o Yussef não é muito dado a isso.

Esta pergunta tem um motivo: a Vinyl Me, Please descreveu o vosso trabalho como “um álbum moderno de George Benson para a geração SoundCloud.” Achei isso fixe. O que é que vocês sentem quando começam a ler o que se vai escrevendo sobre este disco e de que forma é que lidam com este tipo de rótulos, que de forma educada o tentam catalogar e arrumar em certas prateleiras?

Hum… Isso depende do que dizem [risos]. Os rótulos por vezes são bons. Mas na maior parte das vezes eu acho que tu não consegues colocar um rótulo neste álbum. Nunca é uma coisa só. Se fosse estritamente r&b eu estaria completamente à vontade com isso. Mas a sua natureza é tão diversificada… Mas, tu sabes, as pessoas têm de procurar rotulá-lo de alguma forma.

Ficaste surpreso com algum do material que tu e o Yussef criaram aqui? Foste apanhado desprevenido com algum dos resultados do encontro destas duas mentes?

Sim. Acho que sim. Existiram muitos momentos arrepiantes no estúdio. Lembro-me de muitas vezes ter ficado tipo “wow…” Ouvindo as faixas agora, há coisas que já nem me consigo lembrar de como lá chegámos. E isso é algo bom.



Tu, particularmente, tens estado bastante activo durante esta época de isolamento. É uma necessidade tua, para te manteres mentalmente equilibrado, ou olhas para isso mais como uma contribuição para ajudar as pessoas a atravessar esta fase?

Acho que é um bocado de ambos. É bom para mim ter projectos que me mantenham ocupado. É também uma oportunidade para criar uma pequena série ligada a tudo isto que se está a passar e relaxar as pessoas. Foi esse o pensamento por detrás disso.

E é precisamente nesta época que acabámos todos por também ganhar algum tempo livre. Eu, por exemplo, tenho aproveitado para ouvir imensa música — parabéns pelo teu álbum, já agora; é espantoso.

Obrigado.

Por isso imagino que também tu tenhas dedicado algum do teu tempo a explorar música nova. Consegues deixar-me algumas recomendações?

Claro. Deixa-me pensar. Descobri esta miúda no outro dia, a Ari Lennox. Acho que ela é bastante conhecida mas eu ainda não tinha ouvido nada sobre ela. Ela tem um novo álbum intitulado Shea Butter Baby. Eu recomendo-te isso. Também te recomendo o último álbum do Knxwledge. Tenho estado a desfrutar disso. Tenho andado a ouvir também o Lonerism, dos Tame Impala. Tenho ouvido muitas coisas antigas, como o Idris Muhammad.

Power of Soul é o meu favorito dele, muito por causa da “Loran’s Dance”.

Definitivamente. Eu tenho andado a ouvir mais o Turn This Mutha Out.


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