ToiToiToi // Earthworks

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

Em 2017, ToiToiToi lançou Im Hag na Ghost Box afiliando-se de imediato com a estética hauntológica que interpretou de um ângulo muito próprio. Sebastian Counts de seu verdadeiro nome, artista conceptual residente em Berlim, criou esta identidade — ToiToiToi — para explorar outra vertente do seu impulso criativo. A Ghost Box ofereceu a seguinte descrição do seu trabalho: “Recolhe inspiração em contos folclóricos, genéricos de TV europeus esquecidos e desactualizados documentários etnográficos e de viagens”. Essas mesmíssimas coordenadas servem para descrever Earthworks, o novo álbum que ToiToiToi acaba de disponibilizar em cassete através do seu Bandcamp (página em que podem igualmente encontrar o álbum em formatos digitais, claro).

Explica Sebastian nas notas que acompanham Earthworks que por ser obrigado, por motivos profissionais, a passar tanto tempo em frente de um computador, desafiou-se a si mesmo a juntar um setup de produção musical alternativo, básico e barato, portátil e prático. Ou seja, e presumivelmente (já que Sebastian não esclarece quais as ferramentas que agora usa), um par de pequenos synths (julgo ouvir ali alguns sons típicos da Casio), um gravador multipistas (provavelmente um Fostex de 4 pistas ou algo equivalente), um processador multi-efeitos e uns quantos pequenos instrumentos (flauta, xilofone…). O suficiente para que pudesse criar mais perto da natureza onde vive, como revela, parte do ano.

Ou seja, a “tempestade hauntológica perfeita”: o isolamento que favorece a nitidez das memórias, tecnologia ultrapassada que funciona, ela mesma, como uma cápsula de tempo e uma abordagem psicogeográfica à música (tal qual o caso já por aqui abordado dos portugueses Folclore Impressionista), que valoriza contextos geográficos específicos e as deambulações reais e imaginárias por espaços de forte carga simbólica e ancestral.  Os títulos das peças são, aliás, reveladores — “Nature Always Wins” (o encontro com uma ruína tomada pela vegetação?), “Mud Chapel”, “Medieval Moshpit” (marcas de arquitectura na paisagem?), “One Year of Seeding”, “seven Years of Weeding” (o regresso à natureza?) — dessa relação com um lugar concreto.

ToiToiToi soa neste Earthworks como um devoto discípulo das ideias exploradas no catálogo da Ghost Box (o pendor mais “folky” do Focus Group ou o lado mais melódico de Belbury Poly podem ser pontos de partida para a sua própria música), mas acrescenta a essa qualidade uma igualmente nítida dívida para com a electrónica “primitiva” de pioneiros como Bruce Haack ou talvez Tom Dissevelt. Há também um tom de memórias de infância que atravessa todo o disco, pequenas melodias que bem poderiam vir de obscuros filmes de animação como os que Vasco Granja “importava” do Leste europeu quando a geração nascida entre finais dos anos 60 e inícios dos anos 70 estava a crescer.

Limitado, certamente, pelo setup eleito para produzir música desta forma, Sebastian constrói então estruturas muito simples e delicadas, muito espartanas, mas profundamente evocativas, com um pendor vincadamente lo-fi (a designação escolhida para a “editora” nem deixa margens para dúvidas — Lo-Fi Longings) e uma ambição exploratória que lhe permite cruzar ténues ecos folk e manipulações básicas de fita que integram os pequenos erros e imprecisões de execução de melodias, por exemplo, nos arranjos finais.

Memórias de um tempo nunca vivido impressas num local que não nos é revelado e que por isso mesmo podemos nunca ter visitado, mas o curioso é como tudo pode soar familiar, como se a paisagem que imaginamos poder ser a que afecta esta música fosse afinal a que temos diante dos olhos quando espreitamos pela janela ou se os filmes e documentários que inspiraram ToiToiToi fossem afinal os mesmos que nos fascinavam quando tínhamos 11 anos e lá fora chovia demasiado para se brincar na rua…


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu