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Fotografia: Direitos Reservados

Entrevistas, conselhos e recomendações: o co-fundador da Stylus Magazine e antigo colaborador da Red Bull Music Academy assina a Music Journalism Insider desde Novembro do ano passado.

Todd L. Burns: a newsletter é uma arma — para unir o jornalismo musical

Fotografia: Direitos Reservados

Homem branco, heterossexual, acorrentado à guitarra eléctrica: não há muitos anos, este era o arquétipo do crítico musical. Mas o paradigma de Lester Bangs, o iconoclástico jornalista da Rolling Stone — imortalizado no filme Almost Famous — pulverizou-se enquanto se redefinia a música pop: mais permeável à experimentação, cada vez mais um objecto legítimo de análise. Na era digital, os “rockistas” perderam terreno para os “poptimistas”, e emergiram vozes cada vez mais heterogéneas.

Todd L. Burns viu tudo da linha de combate. Depois de co-fundar a influente Stylus Magazine em 2002, foi editor na Resident Advisor e esteve na proa da Red Bull Music Academy (dissolvida em 2019). Agora, procura congregar todos os jornalistas musicais na publicação especializada que intitulou Music Journalism Insider. O formato escolhido confirma o que dizia o The New York Times em 2014: “Para as newsletters de e-mail, uma morte grandemente exagerada”. É disto que nos fala por telefone — para além do optimismo, do fim da academia Red Bull, e da necessidade de dissecar criticamente a música infantil.


Music Journalism Insider

I’m Todd L. Burns, and welcome to Music Journalism Insider, a newsletter about music journalism. I highlight some of the best stuff I hear, read, and watch every week; publish news about the industry; and interview writers, scholars, and editors about their work.


O jornalismo musical parece viver uma época de fragmentação: várias publicações têm sido dissolvidas, com despedimentos em massa; somos bombardeados com diatribes de artistas (e respectivos fãs) no Twitter… E responde a isto com “I think things are as good as they’ve ever been”. Em 2019, como alimenta este optimismo?

Acho que é importante ter entusiasmo, neste momento. [Risos] Porque acho que somos bombardeados com tanta negatividade. As estatísticas são evidentes: montes de pessoas têm sido despedidos dos media, particularmente no mundo anglófono; estes velhos modelos de negócio estão a consumir-se a si mesmos. A razão pela qual disse isso, de estar melhor que nunca, é porque nunca houve tantas vozes, tantas formas que os escritores podem usar para contar histórias. Se a procurares, a qualidade daquilo que está a acontecer é muito elevada. O que é problemático é saber quem vai pagar, como é que isto vai sobreviver. Muitas pessoas são negativas, porque ainda estão a pensar no cenário do escritor que propõe um artigo a um editor de uma revista, e é pago… três meses mais tarde.

Parece que é assim que tem que ser, e que sempre foi — e não é verdade. Tocaste nisso com algumas palavras que disseste, há muita instabilidade, mas aquilo que vai nascer disso vai ser muito interessante. O que está a acontecer agora é melhor e mais interessante do que nunca.

Essa antevisão já formula os esforços futuros da comunidade, que começa a ter discussões — como a do “access problem”, que o Jeremy Gordon associou a um jornalismo musical cada vez mais dependente dos artistas e o seu aparato. É possível olhar para lá de um apocalipse?

É uma discussão importante para se ter. Considero que é um problema para algumas publicações, mas é uma situação em que a necessidade é a mãe da invenção. Quando percebemos que a Beyoncé não está disponível para ser entrevistada por mil publicações sobre o novo disco, é aí que as coisas ficam interessantes. As histórias que se contam viram-se para “quem é o estilista dela?”, “o que é que ela está a usar e porquê?”, “quais as influências deste álbum?”. Uma das peças mais curiosas que li nos últimos anos foi quando entrevistaram o professor de canto do Drake — alguém que viaja muito com ele, e o ajuda a gerir o seu instrumento mais precioso, e melhorar as suas competências. Acabou por ser muito mais revelador do que aquilo que obterias do Drake. Às vezes, os “access problems” derivam de artistas assustados e isolados que, provavelmente, não dariam nenhuma entrevista de jeito.

A Lizzo e a Ariana Grande, por exemplo, foram duas artistas pop a lançar farpas aos críticos. Na sua entrevista com o Aaron Gonsher, é dito que “nem toda a cobertura de música pop animada precisa de ser substituída por barulho estridente”.

O Aaron é um grande amigo meu, portanto acredito em praticamente tudo o que ele diz [risos]. Sobre a situação da Lizzo e da Ariana, não vejo muita gente a falar disto: quanto mais cobertura que é uniformemente positiva, mais um artista nem sequer compreende — ou fica perplexo, como tem acontecido — uma apreciação crítica, analítica de um álbum, em vez de dizer apenas “este álbum existe, oiçam-no!”. Algo triste sobre o facto de haver menos crítica musical é o quase esquecimento da sua utilidade, do porquê de existir; se não estão familiarizados com este tipo de crítica, reagem negativamente, porque lhes será alheio.

Estaremos a mimar os artistas com uma abordagem mais suave?

Possivelmente. É um hábito para os jovens artistas, que não cresceram numa era em que havia muito mais sítios do que a Pitchfork a escrever críticas. E quando se fala de críticas de discos, pode-se discutir sobre o seu propósito nos tempos que correm — e tenho montes de ideias sobre isso.

De que propósito falamos, então, nesta idade do streaming?

Antes desse período, a crítica de música tinha um manancial de funções, dentro delas uma particularmente funcional [risos]: descrever a que soa um álbum. Continuamos a ter um elemento de “será que quero ouvir isto?”, mas acho que decaiu muito, porque o nível de acessibilidade é muito maior. A pergunta torna-se: “Vale a pena escrever sobre um álbum, um single, um mix? E para quê? Que tipo de escrita seria útil?”. Para mim, uma crítica a um álbum é sobre dar contexto e contar a história daquilo que o objecto é, donde veio, e porque poderá valer a pena ouvi-lo.

Saiu recentemente da Red Bull Music Academy (RBMA), onde cumpriu várias funções de 2013 a 2019. O encerramento da “academia” foi algo monumental na Internet; como foi estar envolvido no processo?

O meu papel na RBMA mudou até aos meus últimos meses lá: estava a trabalhar com festivais de música e países da Red Bull para os ajudar a criar conteúdo editorial e histórias à volta dos festivais nesses locais. Eu estava a observar tudo simultaneamente de dentro e de fora. Foi triste, foi uma desilusão ver a Red Bull passar a tratar do seu marketing dentro da própria organização, mas estou muito orgulhoso daquilo que fizemos nos últimos anos. Egoisticamente, espero que as pessoas sintam que falta algo [risos], agora que já não existe. Pelo menos, da parte de publicar novo conteúdo, porque estávamos a fazer algo — e de uma maneira — que mais ninguém estava a fazer. O Aaron Gonsher, que mencionaste, estava a fazer um trabalho incrível enquanto editor.

No cessar de funções, o que é que estava no seu horizonte?

Foi um período de tempo engraçado. A minha esposa estava grávida. Tivemos o nosso primeiro filho no passado mês de Abril. Para ser honesto, tem sido um ano muito estranho [risos], no sentido de que tirei algum tempo para ser pai, e lidar com o desfecho desta situação. Ainda estou a processar isto um pouco — acho que é a melhor forma de o dizer.

É nessa altura que tem a ideia para a Music Journalism Insider?

Sim, talvez um mês antes. Já sabíamos há muito tempo do que iria acontecer com a Red Bull, o que nos deu tempo para pensar e reorganizar. Estava a pensar muito naquilo que poderia ser útil, interessante, e eu amo o jornalismo musical, obviamente. Senti que uma das coisas que poderia trazer para a mesa seria uma espécie de “trade publication”; há exemplos semelhantes em áreas complementares, mas não nesta.

Chega-nos numa altura bastante dinâmica para o jornalismo musical, em que o debate ocorre muito no Twitter; há camadas que só agora tiveram acesso à indústria — jornalistas queer, de cor… A newsletter parece querer congregar todas as diferentes vozes. Foi assim que a projectou?

Sim e um dos pontos nevrálgicos, além do que disseste, é que a academia musical tem uma grande dificuldade em contactar com o jornalismo de música popular — e vice-versa. Académicos e jornalistas podem aprender mutuamente: toda a gente está a pensar nas mesmas coisas, apenas falam linguagens diferentes.

O jornalismo musical parece fugir um pouco à lógica académica, e não há recursos teóricos — no caso português, a opção principal é aprender na tarimba.

Já perguntei a muita gente como é a situação em faculdades específicas, e é exactamente isso. Faz sentido que isto ainda não seja tão valorizado pela academia, a crítica e o jornalismo em geral; desces até ao jornalismo de artes e a situação ainda piora. É um nicho de um nicho. Mas, pelo facto do mundo se estar a unir, a comunicar mais, a interagir tão facilmente, parece-me termos aqui um bom momento para amalgamar muitas tendências. Poder criar novos formatos, novas plataformas.

E a newsletter tem um cuidado especial com os jornalistas aspirantes ou mais novos — na secção das “Journalism Tips”, ou no guia “How to Pitch”, e algo que anunciou há pouco, a subscrição gratuita para universitários. Projectou a newsletter como um ponto de partida, um repositório de recursos que gostariam de encontrar na academia?

Espero que sim. Parece-me que não existem estes recursos lá fora, agora — estou interessado em providenciar este serviço. Estou a aprender à medida que vou fazendo: o que fará mais sentido, como estruturar as coisas… Mas o princípio magno, para mim, é que se não abraçarmos novas pessoas, falar-lhes de como já se têm feito as coisas na área — façam disso o que quiserem, mas eis as dicas que vos poderão ser úteis; guardem as que fazem sentido, deixem as outras para trás. Se não fizermos isso regularmente, a indústria pode desaparecer. Quem me dera ter tido algumas destas referências quando comecei, portanto espero poder retribuir, dá-las a quem está agora a aparecer interessado nesta matéria.

A newsletter começou gratuita e transita em 2020 para um modelo de subscrição paga. É arriscado? A receção tem sido positiva?

Ainda não tive feedback negativo, o que é bom, mas por vezes o feedback negativo vem na forma de silêncio [risos]. De maneira geral, todos compreendem a situação em 2019/2020: as pessoas precisam de fazer dinheiro para viver, e não penso que uma paywall seja algo extraordinário. Veremos se será sustentável como actividade a tempo inteiro, ou parcial, ou sem tempo [risos], mas não recebi nenhuma impressão negativa. O truque está na abordagem: como decides o que apresentar, e o que não apresentar, enquanto elemento gratuito ou pago.

Referiu que vai averiguar se a newsletter será algo a “tempo inteiro, ou parcial, ou sem tempo”. No que toca à sua situação, deixa as suas opções profissionais em aberto?

Sim. Tive sorte suficiente para poder amealhar algum dinheiro depois do caso da Red Bull, pelo que tenho conseguido fazer esta newsletter há meses, e apurar a reacção. No ano novo, vou reavaliar as outras coisas que posso fazer para ganhar algum dinheiro.

Parece ser o problema universal dos jornalistas musicais. Cada entrega (duas por semana) da Music Journalism Insider está carregada com conteúdo: há entrevistas com outros jornalistas, há anúncios de emprego e de freelance que compila… É o trabalho de algumas semanas compactado numa única newsletter. Como tem conseguido fazê-lo a este ritmo?

Trabalho na newsletter três dias por semana, o que ajuda. Por outro lado, falando pessoalmente de mim, tendo a gostar de “life hacks” — penso em sistemas, tácticas, como fazer tudo eficientemente. Se leres entrevistas suficientes, percebes que são quase sempre as mesmas questões para toda a gente. O que é excelente aqui é que estou a enviar estas perguntas por e-mail a vários escritores, que as fazem seguir por direcções radicalmente diferentes entre si. Também as formulei para serem tão abertas quanto possível. As outras secções dão-me bastante mais trabalho, mas é só uma questão de criar feeds RSS para podcasts, subscrever milnewsletters, ou criar uma folha de cálculos com jornais universitários, de onde extrair informação. O trabalho acumula-se, é muito, mas cada secção é bastante eficiente — fico contente que não pareça assim [risos].

No contacto com jornalistas, é complicado aceder a vozes mais diversas no jornalismo?

Não é, de todo, se te esforçares um bocadinho. Também já criei uma regra mental: vou sempre falar com uma pessoa de identificação feminina e outra de identificação masculina. Se questiono um, o que se segue será o outro, porque só assim me posso aproximar de assegurar algum balanço de diversidade. Nem todos dizem que sim, o que cria problemas, mas essa é outra história.

Em termos de diversidade territorial: para o próximo ano, tentarei organizar edições temáticas — talvez uma por mês, em que converso com três ou quatro jornalistas de um país específico, e faço-os decalcar o panorama do jornalismo musical lá. Tive a sorte de trabalhar com países da Red Bull, o que me fez adquirir contactos que me poderão ajudar a ganhar um ponto de partida, e que tipo de questões devo colocar. Sei um pouquinho do cenário japonês, por causa disso.

Vê o formato a extravasar as fronteiras do e-mail?

Não de momento. Quanto à newsletter, tornar-se um livro ou uma zine, acho que este método de entrega é muito bom, uma forma de apresentação que me é muito natural — o que é óptimo. Organizar conversas ou workshops seria a extensão mais natural a considerar no futuro, mas ainda não pensei nisso. Isto ainda só está a acontecer há sete semanas. [risos]

Este é outro projeto seu com repercussão; o maior terá sido fundar a Stylus Magazine, uma revista cujo impacto — na cobertura editorial dos media de música — perdura anos depois da sua dissolução. Ainda sente isso?

Sim, com certeza. É engraçado, porque não o perspectivo da forma que descreveste, mas quando me afasto um pouco, espanto-me com o número de pessoas que escreveram para a Stylus e que hoje estão a fazer coisas incríveis. Jeff Wise, Ian Cohen, Jayson Greene, Alfred Soto, há muitos mais.

Como se a Stylus fosse uma universidade e o Todd fosse o reitor.

Tu é que disseste isso, não fui eu! [risos]

A newsletter pode considerar-se prospectiva, ao compilar e educar várias vozes que farão a diferença na área. Mas tem algum benchmark para a era perfeita do jornalismo musical?

Não! [Risos] Para reiterar o que disse sobre haver boa música em toda a parte, acho honestamente que houve muito bom jornalismo musical nos anos 80, 70, 60… Provavelmente não tanto nos anos 50 e antes, mas não subscrevo ao conceito de épocas de ouro. Sou mais da ideia de que há movimentos específicos que brotam e acontecem por algum tempo. Mas não acho que haja uma golden era para o jornalismo.

Como é ser pai e jornalista musical?

Dado que todas as melodias orelhudas que tenho na cabeça têm algo que ver com a Rua Sésamo… Honestamente, é algo bom, porque significa que vou ter de ouvir exponencialmente mais música para tirar tudo isto da minha cabeça. O que também quero dizer é que fiquei extremamente fascinado com música infantil; acho que é um género muito pouco explorado. De forma geral, os pais apenas despertam para isto durante três ou quatro anos, dependendo de quantas crianças tiverem, mas parece-me que é um negócio titânico, e há muito a acontecer discretamente que poderia ser um bom objecto de análise.

Talvez o vejamos a escrever sobre música infantil brevemente?

É certamente possível, tenho pensado muito sobre isso.

Acho fantástico. Precisamos mesmo de desconstruir esta ascensão meteórica da Peppa the Pig.

E se quiseres falar de diferenças internacionais, a música infantil é um filão particularmente rico — talvez esta coisa seja enorme em Portugal, mas não faça sentido nenhum, nem tenha sido ouvida noutro sítio.

Mal posso esperar ouvi-lo falar da Xana Toc Toc.

Sim [risos]. Talvez tenha de falar contigo também sobre o panorama da música infantil portuguesa.


Todd L. Burns

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