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Fotografia: Raquel Castro

A nostalgia da velhice, o lado popular e a solidão no processo de criação.

Tó Trips: “Tive a liberdade para fazer o que quisesse na banda sonora do Surdina

Fotografia: Raquel Castro

Começa com uma guitarra. Começa sempre, com Tó Trips. Mesmo que o espaço no cérebro de onde surgem melodias, timbres, acordes e dedilhados nos remeta de imediato para o instrumento de seis cordas, o imaginário sonoro de António Manuel Antunes é muito mais expansivo que o que soa vindo dessa caixa de ressonância de madeira. Dessas mesmas seis cordas germina uma pequena orquestra, composta ainda por piano, contrabaixo, bateria e acordeão, dando forma e musicando Surdina (curiosidade: apesar da “surdina”, os sopros não tiveram lugar na sonorização do filme).

A longa-metragem de Rodrigo Areias, com argumento de Valter Hugo Mãe, é uma história que localizamos no espaço, Guimarães, e na qual a velhice, o amor, a nostalgia, a coscuvilhice e a solidão se encontram numa esquina mal vincada entre o trágico e o cómico. É mesmo a partir desses temas que, num bonito jogo semiótico, Tó Trips decide interpretar o leit motif melódico da banda sonora ao piano (que lhe lembra o passado e envelhecer), sendo, então, para si, aos 54 anos, uma estreia no uso do instrumento.

O espírito libertador que surge de trabalhar de forma mais solitária na música possibilitou uma exploração muito menos filtrada pelo feedback dum eventual parceiro, e talvez tenho sido isso mesmo que lhe permitiu expressar tão bem o sentimento de solidão de Surdina. Talvez este caminho mais solitário o tenha aproximado de determinados trabalhos doutros guitarristas, seus contemporâneos da música portuguesa, como Filho da Mãe ou Norberto Lobo – na sua fase mais bucólica e solitária do princípio de carreira –, mas o artista vai para lá disso no arranjo para acompanhar o andamento da narrativa.

Nos últimos anos, o músico tem trabalhado em duo com Pedro Gonçalves (mesmo em bandas sonoras), mas também no projecto Dub Infected com a sua mulher, Raquel Castro – uma junção entre dub e spoken word, mais electrónico e distante das guitarras a que associamos usualmente Tó Trips –, e ainda com a sua banda Club Makumba, com quem ia editar um disco nestes meses (adiado pela impossibilidade de ser apresentado em tour).

O filme Surdina estreou ontem nos cinemas portugueses e foi também apresentado em formato cine-concerto no Cinema Trindade no Porto. Essa mesma apresentação será ainda repetida durante este mês em Guimarães (hoje, dia 10), em Lisboa (dia 15) e em Aveiro (dia 16). Através da Revolve, o disco está disponível em formato digital e em vinil.



Como surgiu a oportunidade para fazeres a banda sonora do Surdina?

Eu costumo trabalhar com o Rodrigo Areias, faço muitos cartazes. Como ele é produtor do Edgar Pêra, faço cartazes para filmes dele e para outros filmes que ele produz. Já nos conhecemos há uns anos. Ele até entrou na produção do vídeo dos Dead Combo do “Bunch Of Meninos”, fomos lá para o estúdio dele, lá para cima, para Guimarães. Temos uma relação de amizade e ele lembrou-se de me convidar para fazer a banda sonora do Surdina.

Já era uma relação de há algum tempo, já fazia sentido estar a convidar-te, claro. Tu já tinhas tido mais experiências a trabalhar para audiovisual de alguma maneira? Sei que no ano passado foste desafiado pela Galeria de Arte Urbana, que até depois falaste com o Gerador sobre isso, para um projecto que já aliava a imagem ao som, também. Há mais tempo, vocês como Dead Combo, também já tinham cedido para a série Sul, certo?

Sim. Fizemos também para um filme do Bruno de Almeida, acerca da traição que houve com o Humberto Delgado. Fizemos também a banda sonora para um filme do Daniel Blaufuks que se chama Um Pouco Mais Pequeno Que O Indiana, já tem uns anos também. Já fizemos bandas sonoras para teatro, para dança. É uma coisa comum de acontecer. Acontece, por exemplo, pedirem-nos músicas, principalmente de Dead Combo, e até mesmo minhas a solo, para filmes de escola, da faculdade.

Normalmente é mais Dead Combo do que tu a solo, não é?

Sim. A solo também já me pediram para filmes… Para um filme pequenino, para uma curta de alguém que a produção foi lá de cima, do Rodrigo Areias, mas agora não me lembro qual é o nome do filme. E também para um documentário.

Tu sentes uma grande diferença entre estar a compor para audiovisual ou para um disco normal? Claro que há sempre a diferença de teres de ter em conta a imagem, mas sentes que a forma como compões é semelhante? Vem do mesmo sítio?

Depende do que é pedido e do filme. Por exemplo, ainda há um ano, quando o Pedro esteve doente, eu estive a fazer uma cena para um filme francês e aquilo tinha várias nuances. Desde cenas tipo rock, uma coisa mais pesada, assim mais “punkalhada”, até coisas mais ambientais e mais… Tem esse lado ecléctico que eu gosto, estás a perceber? Agora, a maneira de compor… Normalmente componho sempre à guitarra, pronto.

Daí vem sempre mais ou menos do mesmo plano, mas claro que é sempre diferente. Lá está, quando estás a fazer um disco, mesmo que estejas a fazer com outra pessoa, estás a fazer porque queres expressar-te de alguma maneira em som. Enquanto que quando é para acompanhar alguma coisa, ou quando te é pedido por alguém, tens sempre de responder às necessidades e ao que a outra pessoa quer, não é? Por isso é sempre um bocadinho…

Normalmente quando me pedem… no caso do Rodrigo, ele confiou em mim. Por exemplo, nos Dead Combo quando convidamos alguém é porque gostamos das coisas que essa pessoa faz e admira-se, então convida-se a pessoas e tem a liberdade de fazer o que quiser. Neste caso, dentro do filme, do universo dele, tive a liberdade para fazer o que quisesse.

Acho que era o Roger Waters que dizia que se estás a convidar alguém é porque gostas do que essa pessoa faz, não é para ficar dentro da caixa do que tu queres, não é?

É lógico. Se eu te convidar a ti, é lógico… Depois posso dizer, “olha, Vasco, se calhar o universo é este…”. É lógico que depois pode haver alguma [alteração]… No caso do Surdina nem sequer houve, sei lá, alguns reparos!

Com que mote é que tu começaste a trabalhar na música deste filme? Foram dadas algumas coordenadas pelo Rodrigo para começares do princípio, ou foste buscar também alguns rascunhos do que já tinhas? Como é que se deu neste caso?

Não. Aproveitei uma malha que tinha do Guitarra Makaka – que é para o fim – e aproveitei uma malha que tinha meio perdida, e que ainda não tinha trabalhado muito, para o filme. Mesmo essa malha foi desenvolvida com o filme. Comecei pelo início do filme. Comecei até mais pelo tema, o genérico, vá. Depois, a partir daí haver… outros temas. Mas normalmente tento sempre arranjar um genérico, e depois até tenho uma extensão mais longa no fim.

Sim, uma espécie de leitmotiv que depois vais pegando em porções ao longo do filme

Exacto. Ao fim ao cabo o que reúne, mais ou menos, o espírito daquilo tudo.

Acho sempre muito curioso ver isso quando são bandas sonoras que não são orquestrais, porque isso tu vês muito com trabalhos mais sinfónicos. Tem mesmo aquela linha melódica e depois vai pegando, modificando um bocado…  Acho isso muito fixe, mais a ver com mudas em termos tímbricos e de ambiente. É sempre curioso ver isso quando são bandas sonoras não-orquestrais, lá está.

Por acaso neste não, [mas] uma coisa que eu costumo fazer: às vezes, gravo um tema; depois na pós-produção faço uma [alteração] – pões imenso reverb naquilo, que aquilo fique quase um drone, um ambiente –, mas que faça um reminder ao tema, estás a perceber?

A última faixa foi exactamente isso que fizeste, não foi? Na última faixa deste, se não estou em erro. Uma assim mais curta. Nem sei se puseste o áudio invertido, ou se só puseste pitch down, e aquilo depois tem muito reverb e fica exactamente como estás a dizer: assim uma cama, depois tu a tocar a melodia por cima, se não estou em erro.

Sim, sim.

Sei que havia também uma relação importante com Guimarães, dado que tanto o Rodrigo como o Valter Hugo Mãe são de lá. Isso fez parte do teu imaginário a compor ou nem sequer te passou pela cabeça? Num sentido um bocadinho mais etnomusicológico da coisa.

Não, eu até fui mais pela cena da velhice, ao fim ao cabo do que fala o filme, e também às vezes um lado… O filme também tem um lado cómico. Tem aquela história de amor, tem aquela cena da idade. E depois aquele lado de humor daquela coscuvilhice. Foi por aí que eu fui.

Por acaso ia-te perguntar exactamente isso. Eu ainda não vi o filme. Andava a ler um bocado sobre o filme e achei graça exactamente porque estava classificado como comédia – ou tragicomédia, como o Rodrigo disse – e a banda sonora é muito mais melancólica do que cómica (visto de uma maneira relativamente superficial). Claro que essas questões dos géneros e dos ambientes podem ser um bocado transversais, mas não deixa de ser curioso, porque ler que é uma comédia e ver que a banda sonora é quase o contraponto, achei graça a esse pormenor.

Sim, por exemplo, há um [momento] que é quando eles entram numa tasca, fiz a música para estar na rádio – e agora já não me lembro se aquilo ficou no rádio se não, se acabaram por tirar –, mas tinha esse lado mais cómico, mais “aciganado”, mais de tasca. Não sei se eles depois chegaram a meter. O som era como se tivesse a dar na rádio da tasca. Dá-me ideia que o Rodrigo não chegou a meter, mas está no disco.

Relativamente ao disco, onde é que ele foi gravado? O processo foi todo em estúdio ou foi muito feito em casa? Como é que foi neste caso?

Basicamente gravei aqui neste estúdio. Tenho um estúdio em casa e gravei aqui. Depois fiz a masterização no Namouche.

Que é onde vocês também costumam gravar com Dead Combo, certo? Ou já gravaram alguns dos discos. Pelo menos o Odeon Hotel eu tenho ideia que foi.

Sim, o Odeon foi lá gravado. Também já tínhamos gravado Dead Combo E As Cordas Da Má Fama e com os Makumba também gravámos lá.

Por acaso achei que tivesse sido em estúdio, como vi que havia alguns instrumentos – por teres lá a bateria, contrabaixo também, há piano.

Sim, mas isso eu gravei aqui.

Quem foram os músicos? Ou tu gravaste tudo?

Gravei eu.

Então foi um processo muito mais solitário que o normal.

Foi sozinho aqui em casa. Eu tinha feito assim também um [filme] francês. Às vezes é um processo um bocado solitário.

E preferes?

Para compor acho que é fixe, mas depois para desenvolver será melhor convidar outras pessoas também.

Sim, é sempre bom ter aquele feedback da ideia, não é?

Sim, feedback e outras propostas.

Quando estamos na nossa cabeça é um bocado diferente.

Mas um gajo aprende sempre com o trabalho. Está sempre a aprender e a ver como é que há-de fazer melhor.

Mas também, lá está, não tens esse feedback mas depois, apesar de às vezes ser um bocadinho mais extenuante, é mais livre. Se eu quero levar o arranjo para ali, levo para ali, não interessa. Às vezes é bom para encontrar outras possibilidades que se calhar nunca encontraríamos com outras pessoas.

Sim, eu acho que o processo de criação é fixe ser sozinho, mas depois chamar pessoas para executar aquilo, essas próprias pessoas trazem-te outra sabedoria e outra maneira de ver as coisas e, à partida, melhora.

Sim, mas neste caso até acho que seria… Não quero dizer esta palavra, mas, de certa maneira, “contra-producente”, porque tu tens também uma maneira muito característica de tocar guitarra. Se calhar se se chamasse outra pessoa, perder-se-ia a grande parte da textura, não é?

Sim, mas no caso da guitarra toco eu. O caso do piano, ou o caso do contrabaixo, ou de baterias, se calhar chamava outras pessoas que sejam especialistas nisso, que sejam músicos que toquem esses instrumentos.

No caso destes arranjos, qual foi a razão de escolha destes instrumentos?

Por exemplo, no genérico, o “Tango Surdina”, como é uma cena assim meio tango, lembrei-me de pôr um piano. E também associo muito o piano a coisas mais velhas [risos]. É um bocado cliché, mas associo a esse lado mais maduro.

E à cena mais da nostalgia, da melancolia, que é sempre mais óbvia… o piano sozinho.

Sim. A velhice também tem esse lado nostálgico de olhar para trás.

Por acaso eu até estava à espera de ouvir a meio um trompete, de alguma maneira – por causa do título do filme, da surdina [dos instrumentos de sopro]. Estava à espera que aparecesse lá no meio um trompete escondido. [Risos]

Mas vê bem, o trompete eu associo sempre a cenas de noite, [da] cidade. Associo o trompete um bocado àquele universo do Chet Baker e do Dave Douglas; noite, bares, jazz. O som do trompete, também do saxofone – isto é um cliché, um preconceito, não é? –, associo sempre a sons de cidade, urbanos. Já ouvi o disco do Bill Frisell com o Dave Douglas, é guitarra com trompete, e realmente aquilo passa muito América do campo, mas associo normalmente a coisas muito urbanas. Neste caso a Surdina é ao pé de Guimarães, é um bocado aldeia também.

Sim, o ambiente mais bucólico. É o papel que nós damos aos instrumentos. Como uma guitarra portuguesa ser automaticamente para fado.

Sim, por exemplo, há um tema que tem acordéon. Esse som assim manhoso de acordéon. Associo muito sempre a esse lado de aldeia, vila, uma cena popular.

Onde, neste caso, não “caberia” o trompete ou o saxofone.

Não é que não poderia caber. Estou a dizer-te porque é que não me lembrei assim!

Mas é curioso que tenhas associado exactamente por uma questão temática. Não é que se não fosse por esse tema se calhar te fosses lembrar do trompete ou de outro instrumento, mas curiosamente tem uma razão lógica ao nível da semiótica dos instrumentos, por assim dizer. Por isso, faz sentido. Em que parte do processo é que pensaram editar esta banda sonora em disco? O Rodrigo sugeriu-te logo isso à partida ou foi uma ideia que se foi desenvolvendo?

Foi o Rodrigo que sugeriu, falou com a malta da Revolve – eles vão editar o vinil. Até já tinha feito umas capas para bandas sonoras do [Legendary] Tigerman, que fez para o Rodrigo também. Para o Estrada de Palha, já tinha feito umas capas, e eles normalmente editam sempre os discos das bandas sonoras. Não de todos os filmes, mas de alguns. O Estrada de Pallha, do Rodrigo Areias, tem disco…

Nesta altura também voltaste a dar alguns concertos online, mais recentemente, continuaste activo a compor durante esta quarentena. Sei que também lançaste aquele tema “Aos Justiceiros do Sofá”, com a Raquel Castro (que também está muito fixe). O que mais fizeste durante esta fase? Conseguiste compor alguma coisa?

Sim, tenho feito coisas de guitarra. Estou a pensar editar um disco a solo mais para a frente, coisas que venho sempre a trabalhar. A guitarra é sempre uma coisa com que se vai trabalhando os temas. Ou seja, tem de se tocar muitas vezes para perceberes quando é que aquilo terminou e arranjar mais uma parte. Tenho um disco, para aí com 10 temas, com a minha mulher, para Dub Infected. Lançámos para aí três temas em vídeo online. Uma cena assim mais electrónica, mais dub. E é isso, basicamente!

Tens alguns lançamentos para estes próximos tempos que já tenhas assim também alinhavados?

Com os Club Makumba, gravámos o disco no final do ano passado. Íamos lançar o disco em Abril ou Maio, distribuído pela Sony. Íamos ter uma tour por clubes e depois aconteceu isto, então decidimos adiar isso para o próximo ano. É o primeiro disco dos Club Makumba.

O mesmo [aconteceu] agora com o final dos Dead Combo, não é? Também acabaram por adiar para o próximo ano por causa da despedida.

Sim, tínhamos para aí 60 datas e algumas foram canceladas – que é o caso dos festivais – e outras foram adiadas para Outubro, Novembro. Mas também não sabemos o que é que se vai passar nessa altura. Outras foram para o próximo ano. Então decidimos adiar mais um ano, vá. Está tudo assim em…

Claro, agora ficou tudo muito mais incerto. Mas sempre dá para estar mais em casa a compor!

Sim, está tudo assim um bocado… Vamos lá ver o que é que se vai passar, não é?

Pois, mesmo que se componha já nem se sabe muito bem para onde. Como o projectos vão parando todos, uma pessoa fica sem saber, do tipo: “estou a compor isto, vai para o quê?”. Perde-se um bocadinho a direcção, não é?

Agora em Julho [temos] os cine-concertos com o filme. O Rodrigo lembrou-se de fazermos várias datas. Começa em Guimarães no dia 9 de Julho, depois há o Teatro Aveirense, há Lisboa, há Porto (cinema do Porto, Cinema Trindade), … Ou seja, tudo em cinemas. Ele apresenta o filme e eu toco ao vivo

E vais estar com outros músicos, ou vais tocar tudo sozinho?

Não, não. Vamos fazer diferente. Sou só eu. Ou seja, não vai ser igual ao que é a banda sonora.

Mas vais só fazendo com guitarra ou vais usando loops…?

Vou usando loops. Algumas coisas de loops, outras só com guitarra. É diferente.


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