Tim Bernardes: “O incómodo da angústia e do vazio em atrás/além aparecem muito como combustível pra sonhar e buscar o novo”

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

O autor de Recomeçar está numa relação assumidíssima (e bastante apaixonada) com Portugal: depois de ter feito uma mini-digressão a solo em Setembro, Tim Bernardes regressa agora com a sua banda, O Terno, para duas actuações em solo nacional: a 15 de Novembro no Capitólio, em Lisboa, e a 16 de Novembro no Festival para Gente Sentada, em Braga.

E não é só de concertos que se alimenta este amor: há uns meses, o multi-instrumentista brasileiro fez o upload de duas colaborações, uma com Salvador Sobral, outra com os Capitão Fausto, dando uma nova visão para o original, “Anda estragar-me os planos”, do primeiro, e permitindo aos segundos que se apoderassem de “Recomeçar”, tema-título do seu único longa-duração a solo.

Com uma discografia que o coloca a si e ao seu grupo na linhagem de nomes como Os Mutantes ou Los Hermanos, por exemplo, Bernardes impôs-se como representante fidedigno do melhor que o Brasil nos deu nos últimos 60 anos.

A propósito deste regresso a Portugal, o Rimas e Batidas enviou sete perguntas ao líder d’O Terno, que nos falou sobre o futuro, a influência das apresentações ao vivo nas músicas ou dos livros Lindo Sonho Delirante.



Comecemos pelo futuro, Tim. O título <atrás/além> já sugeria essa ideia de dinâmica que o tempo nos impõe: o que poderemos esperar d’O Terno nos tempos vindouros? O que virá a seguir?

Acho que o <atrás/além> fala muito sobre um salto pro desconhecido. O medo e a vontade de dar o salto, e isso aparece nas músicas em muitos sentidos concretos e simbólicos. Essa sensação de um disco de passagem, de uma transição, do fim dos vinte anos, fim de uma fase da vida, fim de uma década, de relações, de convicções e com essa pulsão pra o que pode vir. Isso pra dizer que talvez pela primeira vez em muito tempo não sabemos tão claramente os próximos passos. Sabemos da vontade de tocar juntos e da turnê que temos pela frente, da vontade de fazer música, clipes, etc. Mas também talvez a vontade de planejar e prever menos, de actualizar nossos jeitos de viver pra quem somos agora.

O vosso concerto tem evoluído com a experiência que os sucessivos shows vos vão oferecendo? As canções estão vivas? Crescem e mudam?

Sim! Parece que vão sendo incorporadas. Aos poucos vamos tocando mais soltos, sem tanto esforço, se acostumando com as músicas. Entendendo algumas reacções comuns do público, aprendendo a jogar com isso pra ir aprimorando o show. Estamos sempre dispostos a mexer nos arranjos ou na estrutura do show pra ir chegando num resultado que agrade o público e nós. E vai vindo com tempo e estrada.

A vossa música parece inserir-se numa longa tradição de busca brasileira, uma tradição que foi documentada, por exemplo, nos dois livros Lindo Sonho Delirante que Bento Araújo criou: se ele fizesse um terceiro volume dedicado ao presente, a obra d’O Terno faria sentido ser incluída?

Tem uma música brasileira muito livre e potente feita nos anos 60 e 70 que é parte enorme da nossa formação musical, e que foi juntando com nossa busca de se contextualizar e entender onde estávamos no tempo-espaço, dialogar como membros da MPB e membros do indie no mundo ao mesmo tempo. E isso criando uma identidade, som e caminho próprio. Eu sinto sim que hoje chegando nos anos 20 [risos], O Terno se encaixa sim nessa linha de desenvolvimento dessa música brasileira na história.

Quando pensa na música que O Terno tem oferecido ao mundo, que referências acha que essa música carrega, quem foram seus mestres ou seus guias para chegar a esse som?

Tem uma bagagem grande de música brasileira, que por si já é muito misturada e ampla. Coisa que ouvimos muito como o tropicalismo e o Clube da Esquina, por exemplo, tem por si ali dentro Beatles, música clássica, folclore regional, jazz, rock, soul, muita coisa! Fora isso ainda ouvimos muito dessa musica pop mundial dos anos 60 — que eu sinto como especialmente inspiradora por ser uma manifestação muito livre e sensível de experimentação com cultura de massa. e por cima disso ainda o indie e outras bandas que assim como nós buscaram fazer coisas novas tendo bagagem do passado. Dos Fleet Foxes ao Mac DeMarco. Manifestações de música autoral boa hoje com estética e alcance que também somaram nesse caldeirão todo.

As suas canções são mais angustiadas ou esperançosas? Ou a angústia não vive sem ter as mãos dadas com a esperança?

[Risos] Sinto que elas tem muito das duas coisas sobrepostas. O incómodo da angústia e do vazio nesse disco aparecem muito como combustível pra sonhar e buscar o novo. Escrever alguma história. Uma das letras diz, “hoje o nada vai dizer tudo o que pode ser/ silêncio pra cantar/em branco pra escrever/ vontade pra empurrar/ tristeza pra esquecer”. Acho que é por aí!

No “Volta e Meia” há a participação do Devendra e do Shintaro. Que outros encontros desse género gostaria de provocar no futuro? Quem está na sua lista para futuras colaborações?

Nenhuma lista concreta! Mas tenho muitos contemporâneos que admiro e teria muita honra e prazer em trabalhar junto. Rodrigo Amarante, Sérgio Dias, Robin Pecknold, Caetano Veloso, poderia citar inúmeros!

E Portugal? Já é seu também? O que tem descoberto por aqui?

Portugal tem sido uma experiência mesmo linda. Fico tão feliz com a receptividade do público daí ao meu disco solo e à música d’O Terno, muito agradecido. Gosto muito de tocar aí, de estar aí, do clima, das pessoas, dos teatros, da cena cultural e o modo como consomem cultura. Pra mim é muito empolgante e é um lugar onde tenho vontade de sempre seguir trabalhando e conhecendo. Já conquistou meu coração!


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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