Tilt: “Não tenho medo de arriscar e fazer coisas novas”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO/CAPTAÇÃO DE VÍDEO] Sebastião Santana [EDIÇÃO DE VÍDEO] Luis Almeida

Voltar à Margem Sul é muito semelhante a um regresso a casa. É uma zona de conforto e um importante ponto de partida. Tudo começou com a entrada na faculdade, que me levou a sucessivas viagens entre Sintra e Monte da Caparica. Foi curiosamente na FCT que conheci pessoalmente o Tilt. Faz agora precisamente cinco anos desde esse primeiro dia em que me cruzei com um dos MCs que seguia com mais afinco, produto daquela geração que encontrou nos fóruns da Internet um lugar para se mostrar e partilhar conhecimentos.

Ainda antes de Alimentar Crianças Com Cancro Da Mama estar nas ruas, lancei o convite ao Tilt para apresentá-lo ao vivo na faculdade. Tenho a certeza de que o episódio foi dos mais caricatos na ainda curta carreira do rapper que admirava à distância e que, a partir desse dia, passei a acompanhar mais de perto. Esse foi também o “bilhete dourado” para passar a conhecer melhor o circuito de rap independente da Margem Sul — seguiram-se os míticos concertos na Gandaia, as after parties comunitárias com open mic, as noites que rapidamente viravam manhãs à boleia de conversas sobre hip hop, as visitas ao estúdio do Nero, onde a magia acontece, e à garagem do Tilt, local que serviu para muitas das “aulas” da escola CO3. Foi fácil perceber o porquê de o hip hop em Portugal ter nascido naquela banda, rica de um forte espírito de comunidade que recebe de braços abertos quem quer mergulhar um pouco mais a fundo dentro da sua cultura.

Outro dos spots obrigatórios neste roteiro é, claro, o restaurante A Redentora. O local escolhido para entrevistar Tilt serviu de pano de fundo para jantaradas intermináveis, palco de muitas conversas e freestyles. Ao chegar, Tilt vem acompanhado de Igor (aka Roger, outro dos estudiosos presentes em CO3) e Sebastião Santana. No acto de entrada, solicita-se ao Sr. António uma imperial para cada um de nós. Instintivamente, corrijo o seu pedido e peço uma garrafa de vinho branco traçado e quatro copos. “Tu és da Margem Sul, sabes mais que o Tilt”, atira Igor em jeito de brincadeira, apercebendo-se de que as minhas memórias daquele ritual ainda estão bem vívidas. Não foi por aqui que eu cresci, mas, enquanto discípulo do hip hop, foi aqui que eu encontrei o verdadeiro “lar” da cultura.

Cinco anos de ACC/CDM? “Toa ficar velho“!

 



Estamos agora a celebrar os cinco anos desde a saída do teu primeiro EP mas tu já fazes hip hop há, se calhar, o dobro disso.

[Tilt] A minha primeira rima foi talvez em 2004.

Mas não começaste logo a gravar nessa altura, certo?

[Tilt] Eu até sou capaz de ter escrito rimas antes. Mas nunca foi com a perspectiva de gravar. Foi sempre numa de experimentar, eu era puto. Na altura ouvia Eminem e tudo o que rondava esse universo. Também ouvia Method Man nessa altura. Mas nunca tinha pensado em fazer rap. E só comecei a ouvir rap português já bem depois disso. Eram aqueles videoclipes que passavam no Sol Música e assim. Nunca foi uma cena que me acompanhou desde puto.

E qual foi o momento em que isso deixou de ser uma experiência e passaste a querer gravar e a fazer rap? Houve algum projecto que te fizesse pensar “eu quero representar para alguém o que este artista representa para mim”?

[Tilt] Acho que só comecei a ter esse pensamento muito mais para a frente. No início foi sempre fazer por gozo. Tanto que tu notas uma diferença a nível de temáticas dessa época para agora. Mesmo na forma de estar em cima de um beat. Se ouvires as minhas cenas mais antigas, 2009/2010, notas isso. Nessa altura não pensava muito. Até mesmo agora. Eu penso, claro, sei que gosto de fazer isto e que quero fazer isto. Mas não deposito assim tanta confiança como devia depositar às vezes.

Cresceste na Margem Sul. Segundo os registos históricos, é este o berço do hip hop português. Sentiste que essa ligação tão umbilical da zona à cultura também te influenciou de alguma forma?

[Tilt] Claro. Viver aqui será certamente diferente do que viver noutro sítio. Haverá também outros spots que têm uma ligação forte ao movimento. Mas o hip hop vincou-se muito aqui, a partir dos anos 90.

E houve algum MC desta zona que te tivesse marcado mais?

[Tilt] Eu “tripava” com o Kulpado. Para mim, ele rebentava mesmo a cena toda. Também curtia o people do Miratejo. Mais tarde conheci o Blasph. Ele era meu vizinho, mas não me dava propriamente com ele, temos uma ligeira diferença de idade. Só quando comecei a fazer rap é que comecei a estar mais com ele.

Além dessa ligação mais musical ao hip hop, eu lembro-me que também estavas rodeado de um grande espírito comunitário. Temos aqui o exemplo do Igor, há também o Nero e a malta de ORTEUM… Vocês iam todos juntos aos concertos uns dos outros. Se fossem gravar, mesmo que só gravasse um, aproveitavam para se juntarem todos. De que forma é que isso contribuiu para o teu crescimento enquanto MC?

[Tilt] Acho que isso é muito importante para um MC, trabalhar e rodear-se de MCs. Porque tu assim estás a competir. É uma competição bué saudável. Estás sempre a experimentar cenas novas. Aprendes muito a fazer coisas em grupo. Tudo o que eu aprendi foi a fazer rap com outras pessoas. Não foi ao estar a fazê-lo completamente sozinho. Tudo o que sou é uma soma dessas experiências todas. Era diferente, realmente, éramos mais putos. ORTEUM chegou a ser um colectivo relativamente grande. Foi fixe. Depois, não muito mais tarde, apareceram algumas cenas aqui em Almada. Havia a Gandaia. Eu lembro-me de ir a um ou outro concerto, mais puto, e sentir esse espírito. A Gandaia era um espaço bué pequeno mas tu sentias a comunidade. O pessoal dava-se todo e já se conheciam de estar ali. Partilhavam um gosto especial por tudo que que se estava ali a passar.

 



Isso é outro traço desse forte espírito comunitário. Habitualmente só tens concertos em bares, discotecas, salas de espectáculo. A Gandaia era uma loja de streetwear, com fortes ligações à cena do skate, que não era muito grande. Não seria, se calhar, o local mais óbvio para se assistir a um volume tão grande de concertos.

[Tilt] Ya, foi lá bué gente. Foram lá o Syer e o Beto, o Darksunn, o Kilu, o Beware Jack, Bambino, Sanryse, Blasph… Ya, toda a gente aqui da Margem foi lá. Tanto para actuações como enquanto público. A cena é essa. Era muito especial. Havia malta que levava os filhos e os cães. Parecia que havia espaço para todos. É diferente do que ir a um concerto de rap. Eu não sei como é que eram as block parties mas imagino que fossem algo desse género. Era comunitário. Identifico-me muito com isso. Também havia o open mic e isso era muito importante para os MCs. É uma experiência directa. Na minha opinião, acaba por ser muito mais produtivo do que estares um dia em casa a ouvir.

Falaste da diferença entre os teus temas antigos e os mais actuais, daquela fase mais experimental que terminou, se calhar, quando deste entrada na No Karma. Antes dessa altura, abordavas muitas temáticas distintas. Lembro-me de faixas como a “Sálvia”, “Pirómano”, um ou outro tema de amor.

[Roger] Isso são sons muito iniciais do Tilt, mesmo.

[Tilt] Nunca tinha pensado nisso. Como é que, tão no princípio, já tinha esse lado conceptual. Foi muito inspirado pelo Igor. Até porque eu acho que o “Pirómano” foi lançado enquanto CO3. Nós juntávamo-nos todos em casa do Brodi e estávamos sempre a falar sobre hip hop. Aprendemos muito juntos. Foi a escola que me deu a capacidade de desenvolver as minhas habilidades. Ou até mesmo adquirir aquelas que ainda não eram minhas e que, entretanto, se tornaram minhas. Foi aí que eu abri os meus horizontes. E eles eram muito críticos e isso ajudou-me.

[Roger] O clima ali era crítico. Nós éramos podres [risos]. Sentimos que tínhamos de nos aplicar. Até porque o Brodi, embora só fizesse os beats… nós sentíamos que ele era muito mais forte do que nós. Então eu batia-me com o Tilt. Sabia que tinha de dar o máximo para não ser comido. E tenho a certeza de que ele também sentia isso. E o Brodi produzia muito. Tu sabias que, ao entrar naqueles beats, não podias estar mau. Éramos todos muito críticos uns com os outros.

[Tilt] Foi daí que eu apanhei a cena do rap conceptual. Eu lembro-me que nós queríamos escrever sobre algo específico e espremer esse assunto. Para mim, é isso que é o rap conceptual. Olhares para um objecto e saberes que os detalhes são imensos. Dá para escrever sobre tudo o que está ali. É um universo a explorar. Foi isso que aprendi com CO3, que é a base do meu rap. Eu hoje sei que consigo olhar para um determinado tema e consigo renová-lo, devido a isso de conseguir olhar para as coisas com outros olhos. É possível olhar de um outro ângulo para um mesmo objecto e ver outras coisas. Não ser tão óbvio.

Ainda vamos falar mais sobre CO3 mas antes gostava de continuar a explorar esta linha evolutiva. Sem entrar também no teu EP, tu voltaste a dar outro passo importante quando lançaste o projecto NOIA, no qual aliaste o lado conceptual lírico a uma componente também conceptual e experimental instrumental. Foste até, se calhar, dos primeiros MCs em Portugal a dar o braço a torcer perante uma sonoridade daquele género, tão electrónica. Havia a Monster Jinx, por exemplo, mas não num registo assim tão cru e lo-fi como aquele no qual te apresentaste. Mais experimental, industrial.

[Tilt] Aquilo foi o resultado de várias experiências gravadas na minha arrecadação.

Relembra-me quem era o produtor. Ele estava ao teu lado?

[Tilt] Não. Era o Sickburn. Ele dá-lhe muito. Tinha beats muito fortes na altura. Ainda tenho alguns que ia usar. Quiçá isso ainda saia, não sei [risos]. Mas ainda tenho lá grandes beats dele. NOIA foi uma nóia mesmo. Juntei uma carrada de sons que tinha em beats dele, tudo dentro da mesma sonoridade. Fui eu que montei tudo no Cool Edit. A cena dele já era bué experimental e puxou-me para aquele mundo. Foi, se calhar, a cena mais experimental que fiz até hoje.

Tu nessa altura ainda não tinhas o teu nome tão vincado no movimento. O que é que te levou a criar uma identidade alternativa numa fase tão prematura da carreira? Deve ter dificultado um pouco no acesso a esse projecto. Eu próprio acho que não dei de caras com aquilo mal saiu.

[Tilt] Eu não mudei o meu alter-ego. NOIA sou eu, o Sickburn e o Charlie nos desenhos. Aquilo foi feito para o Tumblr. Tinha imagens feitas pelo Charlie e tu depois clicavas nelas para ouvir a música.

 



Outra das vertentes do rap da qual fizeste escola foi a diss track. É algo que não acontece muito nos dias de hoje e eu gostava de abordar o lado mais educativo da coisa. Acho que não tem de existir ódio misturado, mais aquele lado da competição em que tens de superar alguém e, de certo modo, roubares até alguma parte da sua base de fãs.

[Tilt] O beef é importante no sentido que te permite perceber até onde consegues esticar a corda. És obrigado a esticar a corda. Ou comes ou és comido. E isso obriga-te a seres melhor. Nesse sentido é fixe. Agora no contexto em que ele acontece… Eu confesso que tive alguns mas foi mais cena de miúdo. Confesso que, hoje em dia, não ia perder tempo com isso. Eu actualmente sou capaz de afirmar uma posição, numa forma de pensar e de estar no hip hop, e faz-me mais sentido que o conflito aconteça por essa via. As pessoas que utilizam mal a arte ou que abusam da cultura, que a utilizam para proveito próprio. Isso incomoda-me e seria uma justificação mais legítima para existir algum tipo de debate ou bate-boca. Acho que é importante marcar posições. Sou um gajo de defender as minhas ideias, isso é importante. Ainda para mais se forem ideias que participem para um espírito de comunhão, para servir a todos.

Não consideras que seja importante para elevar um bocado a fasquia, no sentido de teres de superar alguém e manteres-te em forma?

[Tilt] Faz falta estar em forma mas eu não acho que seja obrigatório ir por aí. Para estar em forma não precisas de treinar jiu jitsu. Podes fazê-lo de forma menos violenta. Tens outras formas de querer ser melhor, outros tipos de arte. Eu tento isso com a minha música sem entrar no registo de beef. Mas acho que num início de carreira isso pode ser interessante. Desde que não se arraste para fora da música, que nunca é desejável, embora o possa parecer na altura para quem está envolvido.

Tu acabas por ter uma obra muito dispersa. Tens temas espalhados por várias mixtapes, colectivos e editoras — círculos de pessoas com uma identidade muito própria. Que experiências adquiriste ao trabalhar de perto com projectos como os da No Karma, COLÓNIA CALÚNIA, Consultório, Língua Nativa?

[Tilt] Trabalhar com outras pessoas é o que me faz crescer mais. Em cada grupo em que me encontro exploro uma parte de mim. Não mudo o meu mindset, sou sempre eu, mas tem um espírito diferente. Dá para explorar muita coisa e eu gosto disso. Não tenho medo de arriscar e fazer coisas novas.

E acabaste por te cruzar com pessoas com quem pudeste trabalhar lado a lado. Não foi só aquela cena de trocar instrumentais pela Internet e gravar à distância.

[Tilt] Sim, sempre. Foi uma cena que aconteceu e o destino sempre me levou a conhecer pessoas que estivessem ligadas a uma rede. Conheces um e acabas por conhecer todos. Isso vem até da época dos fóruns. A partir daí dava para conheceres muita gente. Hoje já não é tanto assim. Por exemplo, tu, nessa altura, se querias debater sobre algo levavas uma cena bem pensada, bem estruturada, havia um maior cuidado. Hoje em dia, no Facebook e assim, é tudo muito rápido, muito descartável.

Antes de entrarmos mais a fundo no teu EP gostava de voltar a CO3. Tu explicaste-me que este EP deriva muito da tua experiência de aprendizagem em CO3. Como é que isto surgiu?

[Tilt] Eu na escola era da turma do Brodi, foi lá que o conheci. Nessa altura eu fiz o meu primeiro som, estava lá também o Patrick, com quem eu fazia algumas brincadeiras na casa do Brodi. Mandávamos uns freestyles. O Brodi depois apresentou-me ao Igor e nós formámos um grupo de freestyle, estávamos malucos com isso. Estás a ver a cena das battles? Dumbfoundead, Nocando, a Scribble Jam… Nós criámos uma crew de freestyle. Éramos os Free Agents [risos]. Depois disso veio CO3 e começámos a trabalhar muito juntos.

 



Apesar de serem apenas três membros, tu falas-me desse grupo como uma escola para ti. E eu noto, em ti e no Igor, uma grande vontade em aprofundar os conhecimentos sobre determinados aspectos da cultura. Foi algo que vos uniu logo desde início ou chegaram a um ponto em que quiseram, em conjunto, recuar atrás na história para conhecer as origens do hip hop?

[Tilt] Eu era o puto da crew. Eu não conhecia nada em comparação com eles. Aprendi tudo com eles.

[Roger] Uma das coisas que nós decidimos nas reuniões de CO3 é que íamos levar um caderno para anotar o que discutíamos lá na casa do Brodi. Percebemos que tínhamos de registar as cenas. Mas isso de que tu falaste, de aprofundar mais as matérias, foi numa fase posterior. Foi quando nos passámos a reunir mais na garagem do Tilt. Aí é que a magia aconteceu.

[Tilt] Estávamos prestes a fazer um álbum de rap que poderia ser o primeiro e último que íamos lançar. Acabou por nunca sair. Mas foi daí que tudo nasceu. Depois desse álbum de CO3 não sabia mesmo se ia continuar a fazer rap. Nós ficávamos horas a ouvir e a tentar perceber tudo o que se estava a passar, todos os pormenores. “Como é que aqueles manos fizeram aquilo”, estás a ver? É bué importante pensares assim. Perceber os manos que esticaram a corda e tu próprio quereres esticar também a corda. E não digo isto numa de querer ser igual a eles. É esticar tanto como eles, mas à tua maneira, no teu contexto e com a tua cena. Noites infinitas naquela garagem.

[Roger] Com esse álbum de CO3 nós queríamos chegar e dar o nosso contributo à cultura. Inocentemente e romanticamente. Era o primeiro e último álbum. Deixar tudo ali. Fazer isso implica um estudo, é uma reacção natural. Quando tu queres fazer algo assim tão marcante tens de estudar bué. Percebemos mais tarde que foi isso que nos fez perceber a nós próprios enquanto MCs. Quis o destino que não fosse para deixarmos tudo ali mas o estudo foi feito nesse sentido. É daí que surge esse conceito de CO3 enquanto uma escola. Nós queríamos fazer um álbum e houve esse estudo que o antecedia.

Foi por isso que partiste para a concepção do ACC/CDM? Já tinhas aprendido e absorvido tanta matéria, que sentias que tinhas de aplicar todos esses conhecimentos em alguma coisa, visto o álbum de CO3 ter ficado fora dos planos?

[Tilt] É praticamente isso. Reuni tanto conhecimento em tão pouco tempo. Foi intensivo. Não tinha nada onde exprimir isso e tinha de arranjar outra forma. Ainda assim, acho que me reinventei, comparativamente ao que tinha já escrito para esse álbum de CO3. O Igor, para mim, rebentava. Ele tinha os melhores versos nesse álbum.

O Igor entra no teu EP com algumas frases soltas aqui e ali e nota-se que foi uma pessoa que esteve próxima de ti no processo de criação. Isso influenciou-te, tê-lo ao teu lado a avaliar o que ias fazendo?

[Tilt] Claro que sim. Mas todas as pessoas que me são próximas e de quem curto fazem isso. E também é por isso que eu curto de ouvir MCs bacanos. Dão-me pica. Mas sim, o Igor, por estar bué próximo, influenciou-me bué. Durante o tempo em que eu rimava com ele, sentia que tinha de lhe dar como o caralho. Isso é que faz um MC, fazer rap para rappers. É falar de assuntos com entendidos, não é falar com “anhados”. Não é falar com ouvintes, sem querer desrespeitar só quem é ouvinte, porque até há ouvintes que percebem o que se passa. Mas há que compreender que quem experimenta, quem tem prática e domina, percebe a dinâmica de uma forma completamente diferente. Se fores arquitecto, tu olhas para um prédio de uma maneira completamente diferente de uma pessoa que não sabe fazer uma conta. Consegues apreciar o prédio na mesma, não sabendo fazer uma conta, mas não vês com os mesmos olhos. Não és tão exigente, não tens tanta atenção. E foi com isso que eu cresci. Essa pressão, essa fricção. Para mim, é o ideal. Por isso é que é tão importante existirem MCs bons. A cena da golden age… eu nunca experienciei em Portugal. Pelo menos enquanto praticante. A golden age é muito importante porque aquilo é tipo um vírus de skill. Querem ser todos mais fodidos que os outros. Estou a falar de rap. Não estou a falar do que se passa agora. Agora tens gajos que também estão a tentar elevar a fasquia, mas não é rap. É um contexto completamente diferente. Diferente daquilo que é para mim o hip hop ou o rap, neste caso.

 



Eu olho para este EP dessa forma que tu dizes. É rap para rappers. Querias, de certa forma, que este projecto desse início a uma bola de neve, em que os MCs ouviam e se sentiam na obrigação de se superarem sucessivamente?

[Tilt] Não o fiz com essa intenção mas gostava que tivesse tido esse efeito. E foi por isso que fui buscar o título Alimentar Crianças Com Cancro Da Mama. Foi um bocado nesse sentido mas não de uma maneira convencida. Eu quis fazer de uma forma fixe, da forma que eu acho que um MC deve fazer. E acho que foi para esticar a corda. Eu senti que à minha medida e dentro das minhas capacidades estiquei a corda. Nunca fiz muito a pensar nesse sentido mas acabou por acontecer. Eu acho que é importante. Acabamos todos por nos influenciar.

E eu lembro-me de alguns casos concretos de malta que se sentiu inspirada no teu EP. O Secta menciona-te numa barra na mixtape King Kong vs. Godzilla. O Jota, no álbum com o VULTO., refere numa faixa que foi “influenciado por cancro da mama”. São dois exemplos explícitos de como acabaste por influenciar outras pessoas.

[Tilt] Sim. E são manos que eu aprecio, ainda para mais. Isso é bastante bom.

Queres falar-me do título do EP? Eu tenho a minha ideia mas acho que nunca tirei isso a limpo contigo.

[Tilt] Não é muito complicado, no fundo. Pode não ser um termo cientificamente correcto mas eu pensei em algo do género: “alimentar crianças” é o alimentar os ouvintes através da minha negridão, o “cancro da mama”, transformada em arte. É o que eu sinto ao olhar para esse título. Mas cada um poderá ter a sua própria interpretação. Não foi algo que me tivesse levado a pensar muito mas foi com esse intuito.

Tu abres o EP com o “Epidural”, no qual referes “tamos no beat e o Sam The Kid diz ‘oh meu deus, o que é que eu fiz?’, vou ter que mudar de flow”. Foi, de certa forma, uma resposta ao “Ignorância” do Pratica(mente)?

[Tilt] Não. Por acaso não veio daí. Mas é algo semelhante, sim. Porque nessa altura havia muita malta num fórum, que alguns deles até estão a começar a aparecer agora, que tinham grandes influências do Sam The Kid. A minha rima nesse som, não é bem um props, mas é tipo “boy, estes manos estão a bytar-te feio”. Na altura fazia-se isso. Depois do Pratica(mente) existiu muita gente a seguir a mesma tendência. E faz sentido, porque ele estava a bater bué. Ele estava muito forte. Eu curto bué da cena do Sam agora, mas antes soava mais fresco, por estar menos habituado. Ele renovou-se completamente no Pratica(mente) e, depois disso, ainda surgiu com bué versos em feats… Man, o gajo estava imparável. Mega respect.

Eu pensei que fosse mais numa de tu lançares o nome dele para cima da mesa, em jeito de resposta ao tal som, do tipo “eu estou aqui.” Fazer com que ele prestasse atenção ao teu trabalho. Avaliasse o teu trabalho. Houve alguém da velha escola a dar-te alguma palavra acerca do EP?

[Tilt] Tenho de começar por dizer que, principalmente nessa altura, eu tinha a intenção de chocar. Chamar a atenção. Não de uma forma corny mas queria fazê-lo de alguma forma. Daí também ter criado um título meio chocante. Acaba por ter sido um reflexo dessa minha mentalidade, não foi assim muito consciente. Acerca de malta da velha guarda que me tenha falado do EP… Assim que eu me lembre, acho que não.

Tu optaste por um disco muito técnico mas deixa-nos também um certo sabor a culto. A começar pelas figuras que tu evocas, como o Rasputin, ou a escolha dos beats, com aquela sonoridade meio creepy/horror. Fala-me um bocado dessa ideia que construíste em torno do EP.

[Tilt] Eu tenho alguma influência desse tipo de referências na minha vida. Nesse som em específico — o “1917”, do Rasputin — foi bué influenciado por uma cena do Igor. Ele surgia muito com esse tipo de dicas. Lembro-me de um tema dele sobre o Jimi Hendrix.

E sobre o lado instrumental, qual foi o conceito que te levou à escolha dos beats?

[Tilt] Nessa altura estava com influências de Nova Iorque underground, aquela cena indie. São ambientes todos muito místicos. Vem tudo da cena de CO3. Têm aquele toque clássico mas, ao mesmo tempo, são feitos em torno de uma abordagem completamente nova. Foi tudo aí fundado. Tenho lá um beat do Necro, por exemplo, que foi usado pelo Cage. É esse tipo de beats que puxam por mim.

 



Gostava também de falar no DJ Apu. É um DJ muito underrated na cena nacional e conseguiu seguir à risca o teu guião. Com cortes sombrios, que ajudaram a fomentar essa aura meio mística que quiseste dar ao EP. Como é que foste dar com ele?

[Tilt] O Apu conheci-o possivelmente na Gandaia. Ele era o DJ que bombava lá. Pertence à Máfia do Caril. Por coincidência ele é primo direito do Igor. Foi uma ligação muito fixe. Ele sempre curtiu bué da nossa cena. Ele tripava. Para mim, ele partiu aquela merda toda, ele rebentou. A nível de scratch está um grande trabalho. Ainda no outro dia estivemos em Cacilhas, num evento, e ele rebentou aquela merda. Não foi só pela cena de dar scratch nos sons. Ele, para animar uma festa, arrebenta. E sem precisar das cenas da Rádio Comercial. Ele é desses DJs. Verdadeiro.

Na transição deste EP para o Karrossel, Karma tiveste duas mixtapes de ORTEUM pelo meio. Mudou alguma coisa em ti para chegares ao segundo projecto?

[Tilt] Eu já falei disso noutras circunstâncias. O que posso explicar é que aquilo pertenceu a uma fase muito específica da minha vida. Ainda hoje está bastante presente. Sou capaz de ainda fazer uma faixa nesse registo, em torno da superação pessoal. No fundo, é uma compilação pequena. Eu tenho um álbum a ser preparado neste momento que vai ser uma mistura do Karrossel e o Alimentar Crianças. Entra ali um bocado nos dois mundos. Mas esse segundo EP, como deves reparar, já não é aquela cena de rap para rappers. Embora eu ache que, como MC, podes aprender ali cenas que não vês na ‘tuga a serem feitas. Mas eu não o fiz propriamente para rappers. Fi-lo totalmente para mim. É a grande diferença. Serviu para exprimir sentimentos profundos que eu ainda tenho.

Não sei se acompanhaste, mas no Rimas e Batidas lançámos um trabalho em vídeo que envolveu vários MCs, que nos falaram sobre a ligação entre o processo de escrita e a descompressão emocional. Foi no âmbito do Dia Mundial da Saúde Mental. Podemos concluir que o Karrossel, Karma teve esse efeito terapêutico para ti?

[Tilt] Também. Aquilo foi para marcar um ponto. Foi quase como escrever um diário. Foi a cena mais profunda na minha vida. Serviu para me dar forças para continuar. Foi mesmo para me tornar consciente de mim próprio, para me perceber. Aquilo serviu para isso. Não tanto o trabalho em si mas tudo aquilo que o envolveu. Foi quando eu tive o choque mais íntimo na minha vida. De mim para mim.

Foram letras que foste acumulando ou, num determinado espaço de tempo, decidiste que tinhas de te expressar daquela forma?

[Tilt] Aquilo foram sons que fiz entre 2014 e 2015 e só saiu em 2017… Eram temas que eu ia deixar de lado. No último dia do ano de 2016 fui dar um showcase ao O 36. Toquei alguns desses sons e, depois disso, o Mass deu-me bué força para lançar isto. Porque era para não sair de todo.

Apesar de ser o teu projecto mais pessoal até à data — o que faz com que grande parte dos ouvintes não consiga sequer apanhar todos os significados das letras — esse foi o teu trabalho de maior alcance.

[Tilt] Talvez. Eu não meço bem essas cenas. Mas é possível. Eu não estava à espera de ter aquele feedback. Não foi um projecto de competição, antes pelo contrário. Foi uma cena bué despida. De mim e do Muka, claro. Se calhar, estava mais à espera de me pôr nu à frente das pessoas e elas darem-me com uma espada. Não estava à espera que me abraçassem.

Os temas que gravaste com o Muka também são dessa data que referiste ou foi uma pessoa que vieste a conhecer mais recentemente?

[Tilt] O Muka esteve presente nessa altura. Tenho ideia até que os únicos temas que fiz em 2015 foram os dois em que ele entra. Ele estava muito presente. Eu falava muito com ele na altura. Temos esses interesses mais íntimos em comum. E até foi isso que nos ligou, não foi tanto pelo rap. Lá está. O foco aí não foi o rap. O rap foi apenas o veículo utilizado para me exprimir.

 



Neste momento estás a fazer um disco com o VULTO., falaste há pouco do teu álbum a solo, sei que tens planos com ORTEUM… O que é que nos podes adiantar sobre todos estes trabalhos que andas silenciosamente a desenvolver?

[Tilt] Para o meu álbum a solo já tenho algumas cenas escritas e alguns beats. Mas não tenho tudo. Ainda me faltam coisas. Posso considerá-lo encaminhado. Conseguia até fechar um CD só com aquilo, mas quero fazer um CD grande. Ainda me faltam algumas coisas e eu também não me estou a focar a 100% porque quero primeiro fechar o álbum com o VULTO., por COLÓNIA CALÚNIA. Quero fechar primeiro esse capítulo criativo. ORTEUM está sempre presente. Como é algo que eu considero, de certa forma, menos denso, consigo conciliar com muita coisa. Os meus trabalhos pessoais são mais densos.

Para esse disco a solo, o que é que já tens em mente?

[Tilt] O que eu posso adiantar é que é num ambiente que é uma mistura entre o ACC/CDM e o Karrossel. Vai ter um lado mais negro e outro mais puro. Eu quero abordar várias coisas mas não quero falar muito sobre ele, na verdade. A única colaboração que tenho assegurada é o Kulpado. A nível de beats tenho o Mike, o mais pesado aqui da Margem Sul. Estou sem palavras para a cena dele. Tenho um beat do Deloise. Também há lá um ou outro beat meu, que eu quero entregá-lo a alguém que mo possa melhorar. A base está lá mas eu também nunca explorei muito a cena da produção, fiz umas brincadeiras. Agora estou mesmo a terminar de misturar as cenas com o VULTO. e depois vamos mandar masterizar. Vamos ter um videoclipe. E em ORTEUM estamos a trabalhar em bué merdas. Às vezes é mesmo esse o problema. Metes-te a trabalhar em bué merdas e acaba por acontecer essa cena [risos].

Ouvi falar em três projectos.

[Tilt] Ya, tipo isso. Isso está assim tão ambicioso, é verdade.

Para breve? Ou apostam tudo para um 2019 em grande?

[Tilt] No ano que vem, de certeza. Eu ainda gostava de lançar algo este ano. Até porque nós estamos a trabalhar em vários projectos mais pequenos. Quebrar um bocado aquela ideia do single mas também não fazer um EP. Algo nesse meio termo, para lançar vários. Acho que vamos avançar com essa ideia. Vamos gravando. Também estamos a trabalhar com o Sensei D. e vamos fazer uma cena com ele. Estamos a fazer diversas coisas. Por acaso ainda não gravámos nada para o Sensei mas temos estado a ouvir beats. A nível criativo, estamos a fazer temas para um álbum e depois temos esses pequenos projectos. É isso.

Amanhã tu apresentas o ACC/CDM em Setúbal. Como é que te surgiu esse convite? Preparas algum set especial?

[Tilt] Eu não vou apresentar nada que não tenha ainda apresentado. Eu estou a trabalhar bastante com o VULTO. e sinto que, se agora surgisse com algo novo, não o faria sem ele ao meu lado. A oportunidade surgiu através do William Kai, o meu mano Guilherme, que antes assinava como Dysiled. Também é amigo do Muka, faz parte do mesmo núcleo. Ele ligou-me para fazer o convite e por acaso coincidiu com o aniversário do EP. Não vou ter nenhum conteúdo especial nem vou tocar o EP todo. Vou passar por vários temas do meu repertório a solo. Só devo tocar com o Muka, não sei ainda se o Mass ou o Nero aparecem. Vai ser uma cena simples. Aquilo é um spot muito bacano em Setúbal. Apareçam.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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