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Tilt ao vivo no centro comunitário Disgraça: rimas, batidas e um curto-circuito

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTOS] Sebastião Santana

Qual a melhor forma, ou pelo menos a mais eficaz de se rematar um concerto? Há quem goste de se despedir do público sob uma chuva de confettis, serpentinas e outros tantos artefactos festivos, acompanhados por um conjunto de irrequietos canhões de fumos e uma tonelada de gambiarras num insistente exercício de acende-apaga, como servem de exemplo os concertos da camada superior da esfera musical. Há quem abandone o palco duas ou três vezes, ciente que o público se vai desfazer em pedidos de encore, regressando logo de seguida ao palco com aquele ar de quem está a fazer o maior favor do mundo aos presentes. E há quem, de forma completamente involuntária, se despede dos presentes com um apagão geral, deixando palco e plateia às escuras e sem som, numa manobra quase houdinesca.

Foi o que aconteceu ontem, no concerto de apresentação do EP Karrossel, Karma, do rapper Tilt, membro do colectivo ORTEUM, no centro comunitário Disgraça. Quando tudo fazia prever um final intenso e de celebração junto dos fãs ao som de “Loop de Pensamentos”, tema que partilha com Muka (um dos convidados do espectáculo, que, para além de participar no tema que partilham em conjunto e de ter servido algumas das músicas do seu repertório, ainda tratou de garantir os backvocals a Tilt), isto depois de ter servido uma acappella recheada de afiadas farpas ao mundo do hip hop, nomeadamente ao topo da pirâmide de atenção e visualização, eis que, do nada e, curiosamente, no tempo da batida, o quadro eléctrico decide enviar as luzes e o sistema de som do espaço para um descanso profundo.

 


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“Não podia ter acabado de melhor forma… Foi o final perfeito!”

As palavras partilhadas por um dos elementos da plateia resumiram, de modo geral, a satisfação dos presentes, que, sem grande alarido ou contestação, correram com visível ar de satisfação em direcção ao bar do piso superior deste local (já lá vamos à descrição) para recolocar os níveis de etanol no sangue. Para trás ficara um concerto caracterizado por uma ligação intensa entre público e artistas, num ambiente familiar que beneficiou em muito a prestação do anfitrião (maculada apenas pelo desempenho de Muka que, apesar de ter sido prejudicado pela discrepância entre os volumes dos microfones, não mostrou garra e fluidez na interpretação das suas partes). Tilt serviu o EP Karrossel, Karma com eficácia e naturalidade, aproveitando para sublinhar, aqui e ali, nos discursos proferidos entre músicas, a importância da palavra no estilo articulado, ou não fosse essa uma das suas maiores valências.

O percurso da porta de entrada do espaço Disgraça e a sala destinada a concertos faz-se por entre escadas e corredores algo sinistros e com mobiliário peculiar e disruptivo (destaque para uma estante destinada ao depósito e levantamento de roupa e outros objectos com a frase “leva o que quiseres e traz o que tens a mais em casa, este espaço funcionará melhor se cuidarmos dele juntos”), atravessando uma generosa cozinha, que será certamente palco de workshops e outras actividades, e desembocando numa sala escura com um mini bar que desempenha igualmente o papel de régie (a pessoa que serve ao balcão trata também de subir e descer vias) e dois PAs montados sobre um par de grades de cerveja vazias. É neste cenário de paredes escuras e baixa luminosidade que os temas do mais recente EP de Tilt encontraram o conforto desejado, aliando ao constante elogio da demência presente nas suas estrofes um cariz claustrofóbico, qual sala de pânico na ala mais recôndita do edifício situado no número 116 da Avenida do Brasil.

 


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“Bilheteira (entrada)” e “Panis et Circensis (amoraroma)” foram duas das músicas interpretadas, marcando a incursão no EP depois de um início salteado com músicas de Tilt e Muka (“Loop do Pensamento”, a tal que serviu de remate ao concerto foi, igualmente, utilizada para a abertura). Anda assim, foi em “Homem do Lixo”, canção de ACC / CDM (acrónimo para Alimentar Crianças Com Cancro da Mama), que o espectáculo atingiu o seu ponto alto, altura em que o público celebrou com maior intensidade.

 


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