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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 25/02/2026

Dois músicos de diferentes esferas em colaboração.

Tiago Sampaio e João Mortágua: “Quanto mais dás à música, mais ela te devolve”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 25/02/2026

Tiago Sampaio (guitarra eléctrica) e João Mortágua (saxofone) são os novos incumbentes do Trabalho da Casa, um desafio em modo de residência criativa lançado pelo gnration, em Braga. POMES é a resposta a esse desafio, um encontro que também se traduz em disco a ser lançado pela Timbuktu Records e numa apresentação que terá lugar já este sábado, dia 28 de fevereiro, pelas 18 horas, na blackbox do gnration.

Para cima do palco, os dois músicos propõem-se a largar o lastro de experiências anteriores — Tiago fundou Grandfather’s House, dá a cara a St. James Park e é portador de uma vasta experiência que o cruza de diferentes formas com gente como Tokimonsta, Holly, FKAjazz, Conan Osiris ou, entre vários outros artistas, Adolfo Luxúria Canibal e Cláudia Guerreiro; já João Mortágua tem-se afirmado como um dos mais fulcrais valores dos mais criativos e exploratórios terrenos do jazz liderando formações como o Math Trio ou o sexteto Axes e sendo igualmente membro chave de colectivos como Mazam, Quang Ny Lys, Kitsugi, STAU, Calcanhar ou Supernova Ensemble e colaborador de artistas como Bruno Pernadas, Carlos Bica e Jeffery Davis. A experiência é obviamente profusa, mas este cruzamento traz algo de inédito que a dupla procura explicar nas respostas às perguntas que lhes fizemos chegar por email.


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O encontro entre saxofone e guitarra elétrica em POMES aconteceu em modo de residência artística. De que forma descreveriam esse primeiro momento de escuta mútua?

[Tiago Sampaio] Mais do que forma, eu diria lugar. Nesse primeiro momento, ainda não havia uma estrutura a emergir, havia sobretudo a procura de um espaço comum. Quando começámos a compor os temas, tanto no Arda, em 2024, como depois em Coimbra, em 2025, não existia praticamente nada definido: nenhum ponto de chegada, nenhum território previamente mapeado. O nosso objetivo foi sempre encontrar um lugar, e, se ele não existisse, criá-lo. Não partimos de estímulos externos nem de um conceito fechado, e também não havia expectativa a cumprir (o que é incrível quando crias). Éramos apenas duas pessoas num estúdio, a tocar, a escutar profundamente e a reagir uma à outra. Esse primeiro momento foi, acima de tudo, um exercício de atenção: ouvir antes de decidir, deixar que o diálogo desenhasse o terreno.

O projeto nasce da improvisação, mas não soa a algo acidental. Que tipo de regras invisíveis, escutas ou limites foram surgindo no vosso método de trabalho?

[João Mortágua] Como na mais sã democracia, as regras foram desenhadas em prol do bem comum. A partir da escuta mútua, surgiram ideias de ambas as partes, que, à medida que se foram fundindo, vieram definir estruturas e ambientes, que por sua vez se afirmariam como barcos e faróis para uma fluída navegação conjunta. 

Durante a residência no gnration, em que momentos sentiram que o som deixava de ser apenas material musical para se tornar matéria espacial, quase arquitetónica?

[Tiago Sampaio] Para conseguires passar o sentimento que queres às pessoas tens primeiro de conseguir estar nesse local, e isso aconteceu de forma muito involuntária para nós. Essa noção de matéria e espaço surgiu quase naturalmente durante as gravações, porque se queres mesmo transmitir uma mensagem tens de te deixar levar por ela, por esse estado de espírito, sem grande controlo. Acaba por ser um jogo de dar e receber, quase um loop, um feedback contínuo. Quanto mais dás à música, mais ela te devolve. E nesse processo houve momentos em que o som passou a ocupar um espaço mais físico, mas vazio, quase arquitetónico como dizes. Como se deixasse de ser só algo que está a acontecer no tempo e começasse a construir um lugar onde nós próprios estávamos dentro.

POMES é descrito como uma viagem entre estados emocionais e energéticos. Essa narrativa foi intencional desde o início ou emergiu naturalmente do diálogo entre vocês?

[João Mortágua] Com a naturalidade da criação em estúdio, a residência foi-nos devolvendo ao âmago de nós mesmos, aquele sítio de que partimos, mas onde nunca sabemos se já chegámos. Dessa impaciência domada brotaram vastos rasgos de narrativa; estes viriam a construir o puzzle, que agora vira disco de estreia. 

Há uma ideia de “ressignificação” associada ao projeto. O que é que cada um sentiu que teve de desaprender ou reconfigurar da sua própria linguagem musical para que POMES pudesse existir?

[Tiago Sampaio] Acho que tem a ver com aquela vontade de voltar a colocar questões sobre as fórmulas de criar. O que é música? Será que precisamos sempre de tempo e de pitch para que exista música? Ou isso são apenas estruturas às quais nos habituámos? Não temos respostas fechadas. O disco, em alguns momentos, é precisamente essa tentativa de procurar respostas, ou pelo menos de manter a pergunta viva. Não tanto para concluir alguma coisa, mas para abrir espaço para outras possibilidades.

Sendo ambos músicos com percursos muito distintos e extensos — o João Mortágua no universo do jazz e composição e o Tiago Sampaio numa prática que atravessa cinema, teatro e arte sonora — onde é que esses mundos colidem e onde é que se dissolvem?

[João Mortágua] Da paixão assolapada por drones de uma nota, subtis mundos que habitam o timbre, a dinâmica e a reverberação, pendem fios de pedra que respiram vida e aproximam comparsas menos prováveis. É na união pelo concreto abstracto e pelo indizível que se dissolve o ego e renascem os lugares eternizados pela escuta e pela partilha. 

O primeiro registo do projeto é lançado no mesmo dia da estreia ao vivo. O disco documenta o que já existia ou tornou-se parte do próprio processo de descoberta?


[Tiago Sampaio] O disco, a música, a vontade de criar e experimentar foram sempre o trigger para tudo o resto, incluindo o próprio processo de descoberta. Não existia nada antes de começarmos a criar as músicas. Não havia conceito, nem plano definido. Isto começou quase como uma experiência, ir para estúdio e ver o que saía, sem pressão de editar, sem compromisso com um resultado. Era só explorar. Só depois é que começámos a perceber que havia ali qualquer coisa mais… A partir daí começou realmente a viagem. O disco acabou por não ser apenas um registo do que já existia, mas parte activa dessa descoberta.

Para quem vos vai ouvir no gnration, o que é mais importante: tentar compreender o que está a acontecer ou simplesmente deixar-se atravessar pela experiência?

[João Mortágua] A experiência, sempre. O antes e o agora em comunhão sísmica, onde só a pedra vibra e o cosmos prevalece.  

Depois desta residência e desta estreia absoluta, sentem que POMES é um ponto de chegada ou o início da exploração de um território que ainda agora começou a revelar-se?


[Tiago Sampaio] Foi ao mesmo tempo ponto de partida e consequência do processo. POMES representa a chegada de uma busca, mas também é claramente o início de uma experiência que ainda agora começou. Sentimos que o projeto só ganha verdadeira dimensão quando é tocado ao vivo. Queremos muito levar o disco para palco, perceber como é que ele respira noutros espaços, diante de outras pessoas. Já estamos a preparar as datas de apresentação e acreditamos que aí o território vai continuar a revelar-se, talvez até de formas que ainda não imaginamos…


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