Na infância, o trabalho de casa era um prolongamento da escola, uma forma de domiciliar a aprendizagem e o estudo. A expressão poderá ter conquistado novos significados com a realidade do trabalho remoto imposto pela pandemia de COVID-19, embora, em boa verdade, talvez fosse inevitável que a própria evolução da tecnologia e da sociedade nos tivesse trazido até esse ponto, mesmo sem qualquer emergência sanitária.
No gnration, em Braga, no final de tarde do último sábado, assistimos à apresentação de um outro tipo de trabalho de casa, resultado do encontro em residência artística de criação do guitarrista e compositor Tiago Sampaio e do saxofonista e criador espontâneo João Mortágua. POMES é a designação do projecto.
Na natureza, a pedra pomes é uma consequência directa da actividade vulcânica, uma rocha porosa, vítrea e com uma textura muito distinta. Na blackbox daquele espaço bracarense, POMES foi uma outra coisa, ainda que a ideia de actividade “vulcânica” possa ser usada para descrever a música que escorreu, líquida e espessa, dos instrumentos altamente processados que ambos os músicos usaram na sua performance.
Posicionados no centro da sala, com as cadeiras dispostas em círculo ao seu redor, Sampaio e Mortágua surgiram após alguns minutos em que o público presente foi submetido a uma massagem aural através do que soava a um loop de flauta que logo impôs uma atmosfera imersiva, convidando-nos ao abandono da realidade em detrimento de uma dimensão sonora alternativa.
João Mortága usou flauta e saxofone alto na sua prestação, com dois microfones por diante com diferentes processamentos, tendo ainda um pequeno arsenal de pedais e processadores de sinal à sua disposição. Efeitos diversos era coisa de que também não carecia o setup de Tiago Sampaio, que tocou uma guitarra ultra planante e etérea ao longo de todo o concerto.
A electrónica usada é aqui a lava que escorre. Na verdade, é um recurso que permite esculpir drones de alta densidade por parte de ambos os músicos, que escutam atentamente o que o outro faz, reagindo em conformidade numa espiral de apontamentos melódicos e rítmicos de poética brevidade, mas de planante efeito. Mortágua usou ainda pequenas percussões, um saco com pedras que chocalhavam entre si, produzindo um som que remetia para a natureza. A música produzida por ambos era, por isso mesmo, exploratória no verdadeiro sentido da palavra, um estudo em tempo real das possibilidades de interacção dentro de um quadro técnico muito específico. O próprio chão parecia estar amplificado e ser câmara de ressonância, com o bater do pé ritmado a servir de matéria para o pedal de loops nos devolver uma estrutura compassada sobre a qual os dois músicos foram erguendo espirais de fumo sonoro. O uso do delay no saxofone por João Mortágua é prova de que os ensinamentos do dub na gestão do espaço há muito que abandonaram os domínios do reggae para inspirarem até as estéticas mais experimentais.
Na música que POMES apresentaram há igualmente um drive rítmico muito particular que a espaços os aproxima da estética exótica “quarto-mundista” de Jon Hassell, o que reforça a ideia da dimensão paralela em que, por 45 belíssimos minutos, aquela sala escura do gnration se transformou. Agora aguarda-se a fixação destas interessantes ideias num disco para memória futura.





