Theon Cross // Fyah

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

Num artigo recente na Mojo (“Dig the New Breed”, de Danny Eccleston, revista de Maio de 2019), Shabaka Hutchings é bastante pragmático ao apontar para um conjunto de razões extra-musicais como justificação para o presente estado de graça da cena jazz em Londres: um complexo processo legislativo que regulamenta a execução de música ao vivo em espaços públicos que desde o início deste milénio sofreu várias mutações, por um lado, e a mudança da política de atribuição de subsídios a músicos de jazz, por outro, conduziu a um presente em que a cena se viu obrigada a encontrar diferentes espaços e novos públicos.

Acresce a esses factores “externos” a mentalidade de uma geração educada em instituições como a Guildhall School of Music and Drama (onde estudaram Hutchings ou Theon Cross) e a Trinity Laban (frequentada por Nubya Garcia ou Joe-Armon Jones) e “deseducada” na escola informal Tomorrow’s Warriors, um programa de educação artística criado por Janine Irons e Gary Crosby, dos Jazz Warriors (colectivo chave da cena jazz britânica dos anos 80 que serviu de palco de afirmação para então jovens solistas como Courtney Pine ou Steve Williamson), por onde passaram músicos que são pilares deste efervescente “caldeirão” como os já citados Hutchings, Garcia e Cross, mas também Binker & Moses, Sheila Maurice-Grey, Femi Koleoso ou Cassie Kinoshi, esta última parte do colectivo predominantemente feminino Nérija que acaba de assinar pela “indie” Domino em mais um sinal da contínua expansão desta cena.

Fyah, a estreia em nome próprio do tubista Theon Cross, é um óptimo retrato desta cena e uma óbvia consequência do cenário descrito por Shabaka Hutchings. O cruzamento de todos estes nomes nas instituições mencionadas e em espaços de concertos paralelos como o Total Refreshment Centre ou o Steam Down torna a ideia de exclusividade própria de outras cenas musicais praticamente impossível. O ano passado, por exemplo, Theon Cross marcou presença no aplaudido trabalho Your Queen is a Reptile dos Sons of Kemet, projecto liderado por Shabaka Hutchings que o homem da tuba também integra, na compilação-manifesto We Out Here (editada por Gilles Peterson e dirigida por Hutchings) e no álbum Where We Come From (CHICAGO X LONDON Mixtape) do americano Makaya McCraven.

Agora, para atear o seu Fyah, Cross requisitou os serviços da saxofonista Nubya Garcia e do baterista Moses Boyd. Este é o trio base de um álbum em que Theon Cross ainda conta com participações pontuais do seu irmão Nathaniel Cross no trombone, Wayne Francis no sax tenor, Artie Zaitz na guitarra eléctrica ou Tim Doyle na percussão. Recursos mais do que suficientes para transformar esta viagem de oito peças numa intensa e variada experiência musical.

É interessante pensar que a generosidade inclusiva da cena jazz londrina se traduz não apenas no equilíbrio de géneros — são abundantes e não excepções as mulheres nestes colectivos — e de etnias — há músicos com ascendências caribenhas, africanas, asiáticas e europeias –, mas também na profusão de solistas de diferentes instrumentos — há líderes saxofonistas e trompetistas, pois claro, mas também teclistas, bateristas ou, como acontece com Cross, tubistas, o que é clara marca de um panorama criativo aberto.



E é impossível não ler no som da tuba de Theon, sobretudo no seu registo mais grave, o mesmo tom sombrio que inspirou nos últimos anos o hardcore continuum de Burial ou The Bug, um trovão fundo que parece ser a tradução musical do funcionamento das entranhas de uma mega-cidade como Londres, sobretudo à noite, quando o registo médio do tráfego diurno desaparece para revelar um drone grave que parece emanar dos circuitos que alimentam os grandes edifícios, do complexo sistema subterrâneo de transportes e, claro, das vibrações abafadas que dezenas de clubes equipados com poderosos sistemas de som deixam escapar pelas frestas das suas portas insonorizadas para as ruas.

O som de Cross, resultado do seu complexo processo de crescimento como músico, dos incontáveis gigs informais em que vai participando (ele é um dos mentores do colectivo Steam Down e das suas escaldantes sessões num clube montado no subterrâneo da estação de comboios de Deptford que todas as quartas-feiras atrai uma multidão de músicos), mas também da música das rádios piratas que emitem a partir das torres da inner city — grime e hip hop, garage e dubstep, house e drum n’bass –, parte da tradição do jazz, mas recusa-se a ser contido aí, alargando-se de forma exploratória para terrenos nunca anteriormente abordados por outros executantes deste instrumento.

Ter ao seu lado músicos de considerável fôlego técnico e de reconhecida bravura criativa como Nubya Garcia e Moses Boyd, eles próprios exploradores de novas paisagens nos diferentes projectos em que estão envolvidos, dá a Cross uma segurança acrescida para se espraiar num conjunto de peças que são esculpidas pela composição espontânea que o improviso jazz proporciona, mas que são em igual medida balizadas pelo dub, afrobeat ou grime.

Cross não é, no entanto, apenas um construtor de fundações, como se começa por revelar com a abertura de “Activate”, tema em que o sax de Nubya soa por momentos como um táxi no meio do trânsito londrino, e em passagens como no final de “The Offering” revela ser fonte de improváveis, mas ainda assim fascinantes arremedos melódicos sustentados por um shuffle rítmico que parece herdado de um qualquer ritual importado das Caraíbas. Já em “Radiation” é o próprio Cross que assume a exposição do tema em que Nubya exibe depois os seus sólidos dotes solistas, com Boyd a revelar ser um baterista que sabe exactamente com quantas letras se soletra a palavra “breakbeat”. E em “Candace of Meroe” é o impulso rítmico do afrobeat que inspira Theon a retirar alguns dos mais originais sons da sua tuba, num curioso registo staccato que depois sustenta mais um arrebatador momento de Garcia, com a guitarra de Zaitz a plantar em definitivo o tema em plena costa ocidental de África, paisagem em que o líder assina depois um dos seus melhores solos.

Na última faixa, a apropriadamente titulada “LDN’s Burning” que remete para o espírito combativo dos Clash, Theon arranca em modo solitário antes dos companheiros se juntarem à festa num efusivo ponto final para uma viagem que se percebe ter sido de intensidade máxima. Theon é um líder cuja generosidade não se deve apenas imputar às limitações naturais do seu instrumento, muito usado como fonte de estímulos harmónicos para a voz solista predominante, mas também porque é esse realmente o espírito que emana do seu fogo particular. O músico tem passagem por Lisboa garantida pela presença no cartaz do Festival Nova Batida de que será, certamente, um dos pontos altos. E aí poderemos todos comprovar se o calor que se desprende deste Fyah é ou não real resultado de uma profunda combustão criativa que alimenta este músico. Deste lado não há dúvidas. E se voltarem a carregar no botão do play aqui em baixo certamente que concordarão…


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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