The Pyramid Sessions: “Um marco original da história da música popular do século XXI feita em Portugal”.

[TEXTO] Nuno Catarino (Ípsilon/Jazz.pt/Bodyspace) [ARTWORK] Filipe Cravo

 

Quando editou, em 2005, The Pyramid Sessions, D-Mars contava com um percurso sólido. MC e produtor dos Micro, Marko Roca era figura omnipresente da cena nacional, com múltiplas colaborações, tendo já um nome sedimentado. Editar um disco de hip hop exclusivamente instrumental, assumindo o lado de produtor, deixando de lado a voz, seria um gesto ousado. Tão raro como imprevisível. Até então eram poucas as referências próximas em Portugal, com a excepção de um fenómeno pontual: Sam The Kid tinha editado o seu Beats Vol.1: Amor, que surpreendentemente conquistou o país, ou pelo menos “editoras e jornais e esses tais intelectuais que não percebem rimas, só instrumentais” [como afirmou Samuel Mira no seu disco seguinte].

Aventurando-se exclusivamente como produtor, D-Mars criou um alter-ego, passou a assinar com outro nome: Rocky Marsiano. Desenvolveu um trabalho de corte e colagem sobre velhos discos de vinil, criando material novo e reluzente a partir da junção de bocados de música empoeirada. Na altura em que o disco saiu publiquei no Bodyspace um texto sobre o disco.

“(…) É o resultado de muitas horas de pesquisa, de extensa investigação. Marsiano é uma criança a brincar com um baú cheio de discos antigos de jazz. Fascinado com o brilho dos velhos discos, procura incansavelmente os excertos perfeitos para o trabalho de corte e colagem. Adivinha-se este prazer da descoberta da música em cada batida. D-Mars mostra a sua faceta de artesão ao transformar com mestria os retalhos de swing num harmonioso e novíssimo tapete instrumental. Nesta investida Marsiano tem a companhia da guitarra de T-One, o líder dos raw-funkers Mr. Lizard (…), que fornece uma nova camada de brilhantina (…). Outro elemento que adoça esta rodela de música nova é o convidado Rodrigo Amado, que seduz o saxofone sobre o tema ‘LX Extravaganza’, um dos momentos superiores do álbum.”

Estranhamente, aquelas palavras continuam a fazer perfeito sentido. Entretanto passaram 10 anos e passaram por estes ouvidos muitos mais discos de hip hop instrumental. Com os anos perdeu-se alguma inocência. O efeito da novidade já não encandeia, esta música já não soa, inevitavelmente, tão original como soou naquela altura. Mas, voltando a ouvir aqueles temas, continuamos a sentir a frescura desta música piramidal. Percebemos que The Pyramid Sessions não vale apenas pela ousadia do gesto ou pelo simbolismo: a música de Marsiano mantém, neste Dezembro de 2015, uma intemporal vitalidade. Com a mesma alegria de quem reencontra um velho amigo de quem não se tinha notícias há demasiado tempo, a audição deste disco é um prazer renovado.

Passaram 10 anos, Marsiano continuou a fazer colagens instrumentais – como a recente viagem africanizada de Meu Kamba (2014). Sabemos agora, este disco The Pyramid Sessions não foi apenas inovador, não fixou apenas o seu lugar no seu tempo, ficou como marco original da história da música popular do século XXI feita em Portugal. E esta música merece ser ouvida de novo.

 

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