The Miseducation of Lauryn Hill: uma urgente declaração de independência, 20 anos depois

[TEXTO] Miguel Alexandre [ILUSTRAÇÃO] Bruno Lisboa

Japão, 1999. Ms. Lauryn Hill entra na arena Budokan para tocar perante uma plateia esgotada de cerca de catorze mil pessoas na capital nipónica. Com ela, uma banda composta por mais de 16 elementos, que variam entre um baterista — e outros percussionistas –, dois guitarristas, um baixista, três vozes de fundo, um MC, e uma orquestra de instrumentos clássicos, ocupa o palco. Hill entra tímida, mas momentos depois agradece à audiência dizendo: “queremos trazer Nova Jérsia para a Ásia, para a Europa, para as Américas. Queremos levar África para o mundo inteiro”. A voz de Hill é humanamente universal, mas esta tinha sido a primeira vez que se apresentava pelos seis continentes em nome próprio; claro que houve espaço para “Ready or Not” ou “Killing Me Softly”, dos tempos da sua banda The Fugees; porém, Lauryn tinha outro propósito: apresentar a sua deseducação, uma que demorou a conseguir e que, vinte anos mais tarde, mostra-se igualmente influente, visceral e veemente, colocando o hip hop como o conhecemos em ordem.

A idade joga aqui um papel importante na maneira como apreendemos a música. Aliás, uma das variáveis que influencia a forma como um disco é recebido é precisamente a maneira como amadurece com o passar do tempo. Miseducation saiu em 1998: um ano marcado pelos sons exuberantes e concisos de “Aquemini”, dos Outkast; pelos versos assertivos e certeiros de Big Pun; e pelas letras introspectivas e pan-africanistas de Mos Def e Talib Kweli. O hip hop era o género mais consumido na altura, balançando com a emergência do movimento grunge que surgiu pouco antes, predominantemente em Seattle. Havia um equilíbrio saudável entre rappers masculinos e femininos naquele tempo. Artistas como Foxy Brown, Lil’ Kim, Ivy Queen e Missy Elliot alcançaram sucesso comercial –- até duos como Salt-N-Pepa chegaram a nº1 em vários países. No entanto, nunca se igualou ao nível de P. Diddy, Snopp Dogg ou até mesmo Ice Cube. Ninguém chegou aos calcanhares de um Reasonable Doubt ou de um Illmatic. Miseducation não se apresentou como uma possível solução, até porque não era a sua premissa nem a intenção inicial de Hill; em vez disso, tornou-se em algo tão único e memorável que, ainda hoje, não se conhece um sucessor fidedigno.

O background artístico de Lauryn é possivelmente uma das suas habilidades mais desenvolvidas: plenamente assente em hip hop, vai ao mesmo tempo buscar influências aos tons serenos do neo-soul, às tenuidades candentes do reggae e aos ritmos cativantes do r&B feitos em 808s que na altura bombardeavam as entradas da Hot 100. Nenhum destes territórios sónicos eram inexplorados pela artista, pois compunham grande parte do reportório dos The Fugees, especialmente do The Score, o segundo álbum do trio. Nos anos 90, o hip hop ainda se regia muito pela norma de “tits and bras, ménage à trois, sex in expensive cars”. Mas Hill não queria saber disso. Num universo ainda focado na sua auto-indulgência, Hill veio para educar as pessoas.

É com este mote que se deve entrar no disco. Miseducation of Lauryn Hill é um exercício bem executado pela artista e pela sua banda, mas a essência é exclusivamente dela. Ao longo das catorze faixas, forma-se um conjunto de momentos que apelam à capacidade de cada um ultrapassar problemas, dúvidas, inconstâncias, medos e todos esses sentimentos que nos fazem plenamente humanos. Há uma lição no final de cada música, há uma história que merece ser partilhada por quem passa por algo semelhante. E tudo isto é feito com uma devoção tremenda.

Miseducation oscila entre o espiritualmente apaixonante e o assertoricamente imprudente. Em 1 hora e 10 minutos, Lauryn sofre (e bastante), aprende e supera. Este é um álbum de junções: entre a adolescência e a idade adulta, entre cantora a solo e 1/3 dos Fugees, entre uma jovem e uma mãe. Há desencantos e desencontros, há amores perdidos e amores que se ganham. A primeira música, “Lost Ones”, é o perfeito exemplo: um manifesto ressentido, duro na sua execução, que joga levemente com o hook de “Bam Bam”, da Sister Nancy. A canção faz tudo menos mencionar o nome da pessoa que azedou o amor; em vez disso, põe-na directamente no olho da tempestade: ““L been this way since creation/A groupie call, you fall from temptation/Now you wanna bawl over separation/Tarnish my image in the conversation”.

 



Já “Ex-Factor”, a faixa seguinte, revela outro lado. Aqui, somos confrontados com uma faceta mais taciturna e melancólica de Hill. O tema envolvente continua a ser o término da relação amorosa da música anterior; contudo, desta vez há humanidade, e o sofrimento não é mascarado de dureza e insensibilidade: está lá, puro e simples. Ao seu lado, o trabalho vocal baseia-se fortemente em “Amazing Grace”, de Aretha Franklin, enquanto a produção contém em si Wu-Tang Clan, Gladis Knight e um overdub de “Concrete Jungle” dos The Wailers.

Lauryn não foi a primeira artista do género a ter uma aproximação pessoal na sua mestria, mas ajudou a cimentar esta tendência em gerações futuras. A balada “To Zion”, sobre o nascimento do seu primeiro filho e de todas as decisões que teve de tomar para continuar com a sua carreira, ajudou a criar um debate não só sobre o humanismo do hip hop, como também sobre a maneira de como são tratadas as suas vozes no feminino: “quando engravidei, o meu manager aconselhou-me a fazer um aborto. Disse-me que ter um filho podia arruinar a minha carreira. Ainda não tinha álbum pronto nem músicas minhas nas rádios. Decidi não o fazer. Nenhum rapper masculino tem de pensar neste tipo de decisões. Por que tenho eu de as fazer, então?”, contou à MTV, numa entrevista sobre a música.

 



Dentro da artista está uma história de sobrevivência, a narrativa de uma compositora presente e atenta, que não se consegue desprender de canções que nos atacam de frente, cada vez mais ferozes, empoderadas, que dão voz a pequenos arquétipos, como raparigas que “really are a gem” ou rapazes “more concerned with his rims and his Timbs than his women” – há espaço para todos, pois podemos ser cada um deles; mas há algo que não consegue ficar indiferente a Ms. Hill: algo impudente, atiçado e incomensurável. Podemos chamar a esse algo ser-se mulher.

E é justamente na sua afirmação enquanto mulher negra e americana que Hill centra o seu foco. Neste sentido, Miseducation é combativo, político dentro dos seus próprios limites. Lauryn não questiona o estado do mundo à sua volta, mas sim as acções de quem o constrói – começando na Casa Branca, passando também pelas editoras. Em “Superstar”, a cantora mete o dedo na ferida a quem se vende facilmente por meros minutos debaixo do holofote. Produções megalómanas e superficiais nunca foram o seu ponto de interesse, nem se devem coadunar com a sua direcção artística: “Music is supposed to inspire/How come we ain’t getting no higher?”. Não é possível ouvir a cantora sem primeiro ouvir as histórias de Nova Jérsia, de Kingston e de todos os sítios que são homenageados em “Every Ghetto, Every City”. Estas canções não existem sem um contexto específico, o que é musicalmente extraordinário, e ao mesmo tempo historicamente frustrante.

 



Esta frustração advém de uma exigência em entender o histórico de cada música: entender que tal é grande refém de deambulações políticas e sociais que abalaram não só a América no final dos anos 90, como também o hip hop. E por vir de tal década, não perde folgo na mensagem e a data não nos faz mudar de faixa. Lauryn consegue transmitir à sua audiência uma dose certa de filosofia punk, que mesmo com composições tão densas, aposta numa expressão musical imediata, simples, sem obstáculos nem confusões. Ao seu lado, músicos como Mary J. Blige e D’Angelo ajudam-na a elevar a carga emocional das suas palavras nos momentos mais vulneráveis e crus do álbum: “I Used To Love Him” e “Nothing Even Matters”, respectivamente. Mas Lauryn volta rapidamente à sua irremissível e eficaz execução com “Everything is Everything”, no final do alinhamento: os vocais são confiantes sem roçar na presunção, e fazem justiça à tendência quase perene dos 92bpm.

Antes de partir para os encores, Lauryn encerra o seu concerto em Tóquio com a música que dá nome a este álbum. Na mesma canta, “deep in my heart, the answer it was in me/ And I made up my mind to define my own destiny”. Afinal, este disco reflecte prioritariamente sobre amor: um amor que começou em primeiro lugar com os outros, mas que depois se descobriu em si mesmo. Lauryn sempre teve amor-próprio. No entanto, quando o nosso corpo e a nossa essência são utilizados como armas da nossa própria opressão, a única maneira de encontrarmos liberdade é através da arte da autopreservação.

 


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