“The Divine Feminine”: o número 6, uma canção, um pretexto

[TEXTO] Francisco Noronha [FOTOS] Direitos Reservados

 

Vou tentar ser como o Mac Miller a cantar o amor, ou seja, não me vou pôr com floreados. Portanto: pediram-me um texto para assinalar os 60.000 seguidores da página do Rimas e Batidas; que tinha de ser alguma coisa à volta do número “6”; que tinha de ser para publicar ainda esta semana. Muito em cima do joelho, pensei, e estive a um passo de dizer que não, tenho muita pena, mas não vou mesmo conseguir. Foi então que me lembrei: Francisco, e porque não arranjares, a partir do tal tópico do“6”, um pretexto qualquer para falares do The Divine Feminine, um álbum sobre o qual tinhas tantas coisas para dizer e que, pese embora venha passando entre os pingos da chuva, é dos álbuns que este ano de 2016 melhores recordações deixará? Aqui está o pretexto nada surpreendente, então: “Planet God Damn” (c/ a participação de Njomza), a faixa n.º 6 do álbum.

 


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Nunca tive um apreço especial (para não dizer apreço, pura e simplesmente) por Mac Miller, um rapper que sempre associei a uma cena demasiado “teen” (na abordagem e no conteúdo, não na idade – a idade não define nada, vejam o Raios Te Partam do Keso, gravado com 16 aninhos), a muito ruído e pouco sumo, a muitos “likes” e a “seguidores” (termo tão dúbio, nos dias que correm) sem ouvidos de ouvir (se existem “olhos de ver…”). Hoje, a maioria das pessoas “lika” de música, não aprecia música; vê videoclips (vêem música), não ouve música; enfim, como diz o Mundo, “já ninguém conhece álbuns, só conhecem refrões”. Foi, portanto, a este tipo de fenómeno de “imediatização”, acelerado e superficial, do consumo de música – e utilizar a palavra “consumo” já é sintomático disto mesmo… – que sempre associei o rapaz de Pittsburgh (ele que, convém lembrar, além de rapper, é produtor e multi-instrumentista). Aliás, um dos tiques mais irritantes do politicamente correcto actual no que à música diz respeito é essa extraordinária afirmação que corre orgulhosamente pela boca de muita gente quando se lhes pergunta de que música gostam: “Eu? Ah, eu gosto de tudo!”. Como assim, de “tudo”? De todas as canções de todos os álbuns de todos os artistas de todos os géneros de todas as épocas de todos os cantos do mundo? Pois bem, herege me declaro: eu não gosto de tudo – nem quero vir a gostar. É esse gostar-de-tudo – na verdade, um gostar-de-nada, uma falta de gosto crítico e informado (e só estas duas qualidades permitem a alguém falar com propriedade numa tal coisa chamado “gosto”) – que explica que, actualmente, na esmagadora maioria dos smartphones, os seus utilizadores tenham uma faixa de Dealema, outra de Gipsy Kings, “uma mesmo linda da Ana Moura” e ainda “aquela muito conhecida do Anselmo” (“mas é mais para curtir, ‘tás a ver?”). Se isto traz alguma coisa de trágico ao mundo? Certamente que não traz o que de trágico se passa em Aleppo, mas não deixa de ser sintoma de uma desinformação brutal (na dita era da informação), de um esvaziamento cultural que, a pretexto da diversidade e da quantidade, redunda na ausência da formação e consolidação de um gosto autónomo, de uma “personalidade” musical própria (visível noutros campos, do cinema à literatura).

Retomando, quando vi a notícia do lançamento de The Divine Feminine, o meu entusiasmo imediato foi, por isso, de “grau zero”, o dedo já pronto a fazer scroll up, o olhar já a perder-se no tópico seguinte… Mas eis que, romântico incurável, me detive, por uns largos segundos, no título. Pensei logo no Henry Miller e na sua devoção absoluta à Mona no Sexus, depois nestas suspirosas linhas que na noite anterior tinha lido no Dom Casmurro do Machado de Assis (estava na cama quase a adormecer e comovi-me de um salto…). E, por isso, quis saber mais: o Feminino Divino? Mulher? Divindade?

Sem querer parecer o que não sou (nem quero vir a ser) – i.e., um homem encalhado nos 40 a quem o amor cavou fundas mazelas –, a verdade é que, à medida que crescemos, vamos todos – ou, pelo menos, os mais idealistas como eu – sentindo que a nossa relação com o Amor – aliás, a nossa ideia sobre o que é isso do Amor – se vai transformando, metamorfoseando (evitei utilizar a palavra “amadurecendo”…). Eventualmente, endurecendo também. Foi um pouco sobre isso, em boa verdade, que escrevi a propósito da “Nós e Laços”, do Nerve, algo que, para ser franco, escrevi a pensar na letra da canção mas também como se estivesse a escrever sobre mim mesmo. Aliás, como já me perguntei na crítica elogiosa que fiz ao Love (o último filme do Gaspar Noé), será que o Amor… existe? Ou será que é, antes de tudo, uma invenção literária, como uma personagem dizia n’ A Academia das Musas, o mais recente filme de José Luis Guerin?

 


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O certo é que, hoje, muita gente na minha idade, fruto do curso natural da vida (e das lições que ela nos dá), do ritmo e das condicionantes que o trabalho imprime na nossa forma de viver, da distância que, por razões práticas (trabalhar, pagar contas, lides domésticas, etc., etc.), vamos ganhando da dimensão mais romântica (aqui no sentido de idealista) da vida – e, claro, fruto das feridas melhor ou pior cicatrizadas que vamos acumulando –, criamos um certo cinismo, táctico e amargo, em relação ao amor, duvidando, venenosamente, de todas as suas manifestações mais naïfs ou cândidas. Antecipamos as jogadas, prevemos os resultados, prognosticamos as bolas na trave e os carrinhos maldosos. E o pior é mesmo quando, nas nossas relações, substituímos cada vez mais os jogadores fantasistas e endiabrados da frente por defesas manhosos e truculentos na retaguarda…

Todo este palavroso percurso percorrido para dizer, porém, que The Divine Feminine é um soco – dos bons – no estômago dos cínicos, uma chamada à razão, o antídoto perfeito contra a mais viperina gota de cinismo. São 10 canções, 10 cartas de amor – algo raro ou mesmo único num álbum de um rapper – de um tipo completamente apaixonado por uma miúda que compõem um álbum-testemunho de um artista (e do homem por detrás dele) em absoluto estado de graça – com a vida, com a sua arte (e aqui Miller canta mais do que rappa, naquele seu jeito próprio, com a boca de lado, meia fechada), com a sua miúda (embora o álbum tenha começado a ser feito ainda Miller namorava com outra pessoa). Sim, ela é famosa, chama-se Ariana Grande, mas isso é o que menos importa. Na verdade, não importa absolutamente nada, a não ser pelo facto de Grande – dona, ao contrário da maioria das estrelas teen que por aí andam, de um vozeirão com o qual poderá chegar musicalmente longe se estiver para aí virada e for bem orientada – partilhar com Miller não apenas as idas ao cinema, não apenas as mãos entrelaçadas umas nas outras, o sofá para ver filmes chunga debaixo de uma manta, a cama para se dedicarem às fantasias mútuas… Partilhar não só tudo isso, mas, também, a feitura deste maravilhoso disco (as primeiríssimas palavras que se ouvem são dela: “Where are you?…”), emprestando a sua voz a muitos dos coros que pontuam estes 52 minutos e 36 segundos, possíveis de ouvir logo na primeira e retumbante faixa “Congratulations” (onde é audível a não menos extraordinária voz de Bilal) ou em “My Favourite Part”. Reparem bem na forma deliciosa como ela abre esta última canção, um sussurro enquanto pisca o olho ao seu querido: “Don’t know why thinking of him makes me smile…”. Bonito, não acham?

Dizer que The Divine Feminine é um soco no estômago dos cínicos desta vida (re-actualizando os “Vencidos da Vida” queirosianos) não significa, porém, que este seja um álbum naïf, todo ele arco íris e bolhinhas de sabão, o amor é lindo e pum!, final da história. Pelo contrário, nas entrevistas que Miller tem dado (e vale a pena lê-las, Miller é um tipo muitíssimo inteligente), não obstante se descortinar esse homem de bem com a vida, lê-se-lhe a aprendizagem que tem feito sobre esse ser fascinante chamado Mulher, com tanto de divino como de infernal, de anjo e de demónio, de bálsamo e de maldição (feministas, não me ataquem!, estou com a vossa causa, tive uma de vós em casa durante grande parte da minha vida e esta descrição também podia valer para os homens; acontece simplesmente que estou a escrever sobre homens apaixonados por mulheres). É um álbum, por isso, complexo, explorador dos altos e baixos do amor e da relação com uma mulher, a dor e a alegria, o prazer e a crueldade (“A little more pain / that’s just better music“, ouve-se em “Planet Godamn”), se bem que sempre temperado, lírica e musicalmente, por um optimismo e uma boa disposição contagiantes.

 



Ora, “Planet Godamn”, a tal faixa n.º 6, é um bom ilustrativo de tudo isto. Canção soulful como todo o disco (se bem que adornada com um bombo e, sobretudo, uma tarola sintonizados com a “trappização” que o rap tem conhecido nos últimos anos), começa logo na mó de baixo, sem confettis nem brilhantina, seta directa aos corações de saudosistas como eu: “Yeah, I think I’m stuck inside nostalgia / My mind are in the times when this love was so divine”. Estamos no “pós-fim” de uma relação ou, então, na iminência desse fim: “But now it’s feelin’ like without ya / Feelin’ like how the fuck did / We get into a place we ain’t accustomed to lovin’ inside of”. Estamos, definitivamente, num momento crítico, momento em que o amor, talvez pela monotonia, talvez por atitudes menos boas, talvez simplesmente porque os sentimentos não são “auto-sustentáveis” (pera usar um termo tão na berra), perdeu a chama – e não me venham dizer que a paixão é que tem chama e o amor é outra coisa… – e o casal, se ainda não se deslaçou, é apenas porque está preso às memórias, ao que um dia foi bonito e (aparentemente) eterno. É como se terminar a relação, por mais racional que se afigure, signifique trair essas memórias, não lhes fazer honra ou justiça, desistir, atirar a toalha ao chão. Ser fraco. Podia ilustrar isto com um filme, o Blue Valentine do Derek Cianfrance, mas porquê ir ao cinema quanto temos a vida – as vidas de todos nós – como exemplo?

Todo o refrão é um esforço em falar das coisas como elas são, mesmo que isso signifique abordar – afirmar – o seu fim: “Tell the truth, tell the truth, tell truth…”. Há todo um desencanto a percorrer a canção de uma ponta à outra, sem dúvida uma das menos luminosas do disco, sem dúvida também uma das menos claras no que ao seu sentido respeita: “You don’t have to protect me / We both know how it ends / I just need your presence/ Wanna feel you feel me / You just landed from the Planet God Damn”. Em que ficamos? “How it ends” – o amor, a relação dos dois que acaba (e em que, mesmo nessa hipótese, ele reclama a presença dela, como um cachorro abandonado em busca da mãe) ou um “how it ends” no sentido de que, apesar de saberem como aquela relação já não é o que um dia foi, acabam os dois sempre por ceder, inevitavelmente, ao prazer e à carne (foi  sobre esta “irresistibilidade” que também escrevi na crítica ao Love)? Planet God ou Planet Goddamn: de um destes planetas ela veio, como um Deus (ou um Diabo?), à terra, o trocadilho a sublinhar apenas o facto de ela ser isso mesmo, alguém fora deste planeta, out of this world. Uma Deusa. E, se é assim, o fim daquela relação compreende-se: aos homens o que é dos homens, aos Deuses o que é dos Deuses…

Se, como disse, esta é uma das faixas mais desencantadas, mais “pragmaticamente tristes”, a forma como o álbum terminará, em “God Is Fair, Sexy, Nasty” (com a colaboração de Kendrik Lamar), é, definitivamente, um balde de água fria para o ouvinte – quero dizer, um balde de optimismo e leveza. Um happy end que, sendo convencional, faz sentido, bate certo com tudo o que ouvimos para trás, um happy end que, acima de tudo, nós, ouvintes, queremos. E se a força da arte está na emoção que desperta em quem a contempla, então tudo está alinhado e não há que ter complexos: sim, o end é happy, e que bom que assim é! Não vou dizer muito mais, esperem que a canção termine e oiçam o hidden monologue (em vez de hidden track), o qual se pensa ser proferido pela avó do próprio Miller: “We got to know each other little by little living very close in the same building and he would help me with things…”. Bonito, bonito, bonito.

Estão a ver as crónicas do Miguel Esteves Cardoso no Público sobre a sua mulher? Exceptuando o tom excessivamente glicodoce e a absoluta ausência de espinhos, o álbum de Mac Miller é uma dessas crónicas: apaixonante e apaixonado, feliz, optimista, bem-fazejo. Ouvimo-lo e, os que ainda não o estão, vão querer apaixonar-se (enquanto escrevia um artigo sobre uma actriz pela qual sou meio obcecado, pus o disco de Miller a tocar propositadamente…). Aproveitem agora, que ainda há sol… depois a Primavera ainda vai demorar a chegar.

 


Francisco Noronha

Jurista, investigador universitário e crítico de música e de cinema em diversas publicações. Autor do programa de rádio "Regresso ao Futuro" (Antena 3, Rimas e Batidas). obosforo.blogspot.com.