The Comet Is Coming no Lux Frágil: isto não é um teste de colisão

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Luís Luz

Nos últimos dias, as notícias davam conta da iminente queda de um cometa em Lisboa, sem se perceber muito bem de onde viria, nem que tipo de impacto teria no local onde caísse. Por azar, ou sorte (só o futuro o dirá), a colisão aconteceu no Lux Frágil, em Santa Apolónia, com bastantes pessoas a testemunhar o improvável: afinal, o “cometa” não era nada mais nada menos do que uma nave alienígena conduzida por três seres que se apresentaram como King Shabaka, Betamax e Danalogue.

Quando chegámos ao piso de baixo do clube lisboeta, o trio já se teria adaptado às condições térreas, mostrando-se de pele e osso e recorrendo a uma bateria, vários teclados e pedais e um saxofone tenor. Lá em cima, no palco, todos pareciam ter assumido, de diferentes formas, os traumas e as sensibilidades mais belas da história da humanidade, transpostos pelos fraseados poéticos (com mais ou menos potência, conforme a música pedia) por parte de Shabaka Hutchings, a impetuosidade e a técnica de Max Hallett e o virtuosismo (com extravagância nos gestos) de Dan Leavers.

Com a passagem do tempo, estes extraterrestres foram-se assemelhando cada vez mais a britânicos do séc.XXI, com tudo o que isso implica: uma situação política complicada, uma cena jazz (e musical, diga-se) a borbulhar fervorosamente e, no seu caso particular, uma belíssima discografia com os dois últimos discos a serem editados pela Impulse! e o primeiro a merecer nomeação para os Mercury Prize.



Este cenário pode ser complicado para quem acaba de “nascer”, mas nada demoveu os forasteiros: a viagem pelo cosmos em “Super Zodiac” — com o teclista e o baterista a pintarem a tela que o saxofonista iria, intencionalmente, salpicar –, “Summon The Fire”, circular na forma e “apunkalhado” no feitio, ou “Blood Of The Past”, cujo título pode muito bem significar um qualquer roubo de sangue do corpo musical dos Massive Attack — o tema remete-nos imediatamente para uma espécie de versão musculada de “Angel”. No meio disto, riffs de teclas a tecerem melodias etéreas, linhas de saxofone que viajam entre o espaço e o tempo e ritmos que tanto vão directos ao assunto como se metem com padrões que nos confundem os movimentos.

Em 2019, ser-se psicadélico, punk, raver e jazzman ao mesmo tempo não é algo estranho; e a heterogeneidade do público, que deixou a sala bem composta, reflectia essa capacidade da música do trio receber pessoas com diferentes gostos e credos — e dançou-se bastante, não se enganem. Aliás, este concerto poderia ter acontecido no Sabotage, na Galeria Zé dos Bois ou num qualquer festival mainstream.

Em suma, The Comet Is Coming é um projecto dificílimo de definir –progressivo e transcendental, com jazz, trip-hop, rock, ambient, pós-dubstep e house à mistura –, mas não é incompreensível: como qualquer puzzle complexo, o segredo é perder tempo com ele. Depois de vê-los ao vivo, é-nos dada a possibilidade de juntarmos mais uma peça e vislumbrarmos, mesmo que ainda incompleto, o quadro todo. Para lá chegarmos, basta que não partam para outro planeta…