THE BLACK DOG // Neither/Neither

 

Hoje custa a crer que o histórico selo britânico Warp Records tenha em tempos colocado o trio The Black Dog ao mesmo nível de favoritos como Autechre ou Boards of Canada. Já se sabe que no topo da Warp só há mesmo lugar para o semi-deus Aphex Twin, mas convenhamos que ninguém fica triste por permanecer logo depois dele na escala de filhos mais queridos de uma editora tão respeitada. Ao escutarmos Spanners (o único álbum gravado para a Warp pela formação original de Black Dog) quase vinte anos depois, torna-se porventura mais fácil explicar a posição privilegiada do trio britânico nessa altura. Cheio como um ovo, Spanners (1995) reflecte ainda hoje o entusiasmo da electrónica britânica num momento de intensa absorção e renovação estética.

Repare-se em como os canais de Spanners são suficientemente amplos para a passagem de beats de hip hop (depois de Bristol ter aberto as portas), resquícios de jungle e as inevitáveis incursões por registos ambient e dub. Essa variedade (algo abstracta) de tonalidades, que tão bem representa a Warp de meados dos anos noventa, serve igualmente para colorir aquele que ainda hoje será talvez o disco-bandeira de Black Dog. Algumas tensões no interior do trio levaram a que algum tempo depois Ed Handley e Andy Turner deixassem The Black Dog com Ken Downie de modo a concentrarem-se nos Plaid. O que acontece é que a química desenvolvida solitariamente por Ken Downie cedo se revelou bem diferente da desencadeada com os seus ex-companheiros, e isso muito contribuíu para que, a partir de Spanners, o rendimento de Black Dog fosse demasiado flutuante para chegar a uma identidade consistente.

Entre álbuns alusivos (e em resposta) à obra ambient de Brian Eno e vários outros compostos com uma nova formação de trio (que inclui Martin Dust e Richard Dust), a elasticidade do nome Black Dog esticou ao ponto de englobar quase tudo o que Ken Downie entendesse. O mais recente longa-duração Neither / Neither, de acordo com o próprio press release, surge como continuação para o trabalho iniciado com Further Vexations e Radio Scarecrow, Ao que parece, trata-se de um disco apostado em reflectir o clima actual de total guerra de informação, com todos os perigos que isso envolve (nomeadamente a nível de manipulação). “Profundíssimo”, diria o Paulo Futre.

Entende-se que os britânicos (vigiados até no que cagam) tenham motivos para este tipo de preocupações, mas esta fórmula Orwelliana está claramente gasta e já foram mais que muitos os discos debruçados sobre esse sentimento de vigilância constante (repare-se, por exemplo, em Tapping the Conversation, a estreia de Kevin Martin enquanto The Bug). Neither / Neither não traz nada de novo ao género e em diferentes ocasiões soa a disco encalhado numa fixação desinteressante por grandes atmosferas pós-dubstep cheias de eco e vertigem (uau). O próprio título sugere uma experiência sensorial encravada numa só palavra (um pouco como os Underworld ao repetirem “lager, lager, lager” numa profunda trip). Mais do que nunca, The Black Dog parecem o tio que meteu uma dentadura postiça de vampiro para meter medo às crianças. Infelizmente nada aqui provoca qualquer assombro.

 

Miguel Arsénio

Miguel Arsénio

Escreve, desde 2004, sobre música, filmes, actualidade no mundo e na sua querida Ericeira. Ocasionalmente também faz imitações de vozes célebres.
Miguel Arsénio