Tecla Tónica

Autor: Eduardo Morais

Desde muito novo senti uma enorme atração por aquilo que só há pouco tempo percebi ser o princípio da síntese sonora, nomeadamente a subtractiva, mas aplicada à composição eléctrica. Passei muito do meu tempo livre em adolescente a experimentar todo o leque sónico que os inúmeros pedais de efeitos que tive me permitiam criar. Mesmo nunca tendo feito nada de muito concreto com eles, foi algo que me marcou até hoje.

Essa possibilidade de “desumanização” no som é algo que procuro cada vez mais nos últimos anos nos discos que oiço, e é um dos princípios básicos da música electrónica, desde a concreta à modulada.

Não quero dizer que seja obrigatoriamente uma saturação elitista de géneros e temas que soam todos ao mesmo, mas atrai-me cada vez mais na música o facto de não perceber que instrumento está a ser tocado ou o que está a gerar certo som que me soa estranho. É aí que o sintetizador entra e está cada vez mais presente naquilo que escuto nos últimos anos.

Tal como no cinema, o facto de me perguntar a mim mesmo “porque não?”, ou não ter resposta para essa pergunta, é sinal que a música me está verdadeiramente a tocar. Imagina o Meio Metro de Pedra lançado como um single há umas décadas atrás, sendo o próprio o lado A. O Tecla Tónica seria o lado B, aquele mais estranho com menos apetência comercial, mas que (pelo menos neste momento) reflete mais o gosto do “artista”, reflectindo outra sonoridade ou até sendo uma remix, sei lá.

Não pretendo de todo tentar recriar ou alterar a história da música portuguesa, mas se puder criar documentos que acompanham ou ilustram de uma forma imparcial e correcta a mesma, e a puder partilhar com terceiros, dou-me por satisfeito com o trabalho que faço. Sou apenas um intermediário como qualquer outro gajo o poderia ser.

Acredito vivamente que a relação tempo & espaço é muito importante para o crescimento e amadurecimento humano e é um facto que, por uma questão financeira, quase nunca viajei em toda a minha vida para fora do país, fazendo-me perder a coordenada “espaço”. Por isso, tento compensar essa falta com a coordenada “tempo”. Como? Tentando estudar cada vez mais sobre a história da música moderna, porque é o que realmente me atrai; porque só conhecendo o passado é que se compreende o presente. Não deixa de ser uma visão egoísta e hedonista, mas também deixa de ser individualista a partir do momento que a posso partilhar com outros.

O Tecla Tónica está a ser, sem sombra de dúvida, o documentário mais difícil que fiz até hoje, pois estou a entrevistar pessoas com uma noção de matemática e arquitectura de som que me ultrapassa completamente (nunca fui muito bom a matemática), mas essa aprendizagem a cada entrevista que faço é pessoalmente notória e gratificante. Podem tentar acusar-me de não perceber nada das temáticas que retrato, mas não de oportunismo, pois é sempre uma tarefa sentida e vivida acima de tudo.

O desmistificar do papão da música electrónica somente como género barreirado no house/techno e derivados, e apenas criado para ser ouvido e dançado em clubes, foi também uma das ignições deste projecto. Há uma corrente tão importante que precede essa. Interessa-me não retratar a história da música electrónica, mas sim o uso da electrónica na música feita em Portugal, desde o aparecimento do sintetizador ao das drum-machines por cá, usados desde a música erudita até ao Marco Paulo, não ignorando a vertente ligada ao clubbing, claro.

Aliás, esse lado consumido pelo entretenimento nocturno foi seguramente o que levou ao interesse de uma marca como a Jameson a patrocinar este documentário. Para mim também é extremamente satisfatório ver que o trabalho que tenho feito ao longo dos últimos anos foi levado em conta e foi-me depositada uma forte confiança da marca, que me garantiu, desde logo, total liberdade criativa.

Tecla Tónica é o quarto documentário produzido por Eduardo Morais cuja estreia está marcada para Setembro.

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