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Technics: as “rodas de aço” estão bem vivas

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Direitos Reservados

No dia em que ficamos a saber que o icónico gira-discos da Technics, o SL-1200, está bem vivo – as primeiras 300 unidades da edição limitada do SL1200-GAE foram vendidas hoje em apenas 30 minutos – recuperamos um texto dos arquivos de Rui Miguel Abreu, para a revista Dance Club em 2008, por alturas da celebração dos 30 anos do SL-1200MK2, uma das ferramentas mais definidoras da sonoridade do hip hop.


technics1


 

Numa época de gadgets cada vez mais fantásticos, no sentido George Lucas do termo, e do desaparecimento da música do terreno do palpável, é admirável perceber que uma invenção com mais de três décadas continua, teimosamente, a ser ferramenta talhada para a descoberta e a invenção. Foi em 1978 anos que a Matsushita, fabricante japonês da marca Technics, colocou no mercado o modelo SL-1200MK2 que, ainda hoje, é usado por DJs de todo o mundo.

A série 1200 da Technics está no mercado desde 1972 e por isso equipou muitas das cabines de Nova Iorque fundamentais na construção da arquitectura disco sound que dominaria boa parte dessa década. Mas só em 1978 é que surgiu no mercado o modelo que ainda hoje serve de base à versão mais comum, a 1210. A Technics introduziu poucas alterações no seu gira-discos desde 1978 sendo sobretudo sensível a pequenas modificações sugeridas pelo próprio uso que os DJs lhe davam. As rodas de aço, como Grandmaster Flash lhes chamou, são, na verdade, o pilar técnico de uma revolução.


Technics SL-1200MK2 © DR


 

Meros 15 anos após o aparecimento dos Beatles, no Bronx nasceu outro tipo de culto: nos bairros sociais de uma das mais devastadas zonas da cidade de Nova Iorque, multidões reuniam-se para observar não um grupo de rapazes com guitarras, baixos e baterias, mas pioneiros como Afrika Bambaataa e Jazzy Jay, Kool Herc, Grandmaster Flash e Grandwizard Theodore, DJ Hollywood, DJ Breakout e outras lendas que mesmo dispensando instrumentação convencional conseguiam concentrar em si as atenções como verdadeiras estrelas.

Nesta altura o hip hop começava a impor os seus códigos, mas a partir de Manhattan outro tipo de revolução já estava em marcha e o DJ como xamã, capaz de conjurar espíritos e manipular emoções pela forma como sequenciava os seus discos, começava a adivinhar-se. Em locais como o Gallery ou o mítico Studio 54 as pessoas reuniam-se em torno de um tipo, muitas vezes italiano, para dançar e estilhaçar convenções arcaicas de identidade sexual e social. No virar da década, o poder e alcance do DJ era uma realidade incontornável e nomes como o de Larry Levan ecoavam como se de semi-deuses se tratassem.

Entretanto, em Chicago e Detroit outras revoluções desenhavam-se tendo igualmente o Technics 1200 como principal ferramenta. O house e o techno nasceram ambos a partir das explorações de DJs como Frankie Knuckles, Ron Hardy ou Electrifying Mojo que em clubes ou na rádio apontavam a direcção pela forma com que usavam os seus gira-discos: mais do que meras ferramentas, os pratos onde se colocava o vinil eram extensões da própria personalidade dos DJs.


Technics1 SL-1200MK2 © DR


 

As bases para uma nova ordem, que se tornou evidente depois da explosão da cultura de clubes no arranque dos anos 90, estavam lançadas e o DJ como superestrela tornou-se realidade. Obviamente muitos dos grandes nomes que hoje fazem o circuito mundial de super-clubes, funcionando como uma espécie de jet-set do mundo dos DJs, há muito dispensaram o vinil como suporte principal da música que tocam. Mas graças a novas tecnologias como o Serato, mesmo armados com laptops esses DJs continuam a utilizar o gira-discos como interface principal para a sua própria relação com a música: podem ter eliminado essa incurável fonte de problemas para a coluna que são as toneladas de vinil que tinham que se carregar para os clubes, mas não dispensaram as rodas de aço que permitem a manipulação da música.

Claro que para a comunidade mundial de gira-disquistas o Technics SL-1200MK2 continua a ser uma referência. Estes guerreiros que nasceram do hip hop, transformaram o gira-discos num autêntico instrumento levando a que DJs passassem a ser vistos na companhia de músicos “convencionais”: desde que Herbie Hancock recrutou Grandmixer DST para “Rockit” que uma nova tribo emergiu e passou a realizar calculadas experiências de manipulação de tempo e espaço a partir dos Technics. Por causa disso, algures no virar desta década anunciou-se que no Japão a venda de gira-discos tinha ultrapassado a das guitarras eléctricas. Ser DJ passou, pelo menos durante um certo período, a ser um objectivo mais desejado do que ser o novo Van Halen ou Slash.

Hoje, são várias as marcas – Vestax, Gemini, Numark, Stanton… – que competem no mercado que a Technics inventou sozinha. E os novos modelos de gira-discos que continuam a surgir no mercado todos os anos funcionam como monumento à longevidade de um pedaço de tecnologia que de facto revolucionou o mundo da música.

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