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Texto: Paulo Pena
Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 22/07/2020

Hip hop tuga expressado em crioulo.

Tchapo: “Cada letra minha é uma carta. E escrevo cada uma como se fosse a última”

Texto: Paulo Pena
Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 22/07/2020

As escrituras estavam certas. Tchapo, um mensageiro dos tempos modernos, desde sempre encontrou no hip hop o veículo por excelência para espalhar a sua mensagem. Assim, sem falsos moralismos ou demagogias, o rapper de Chelas apresenta finalmente o seu disco Turbuléncia, composto por 22 temas, e lançado, para já, apenas em formato físico.

Com os “Rs” carregados de quem reivindica os valores a proteger no hip hop, o MC falou-nos não só do seu álbum, mas também sobre aquilo que o guia nesta jornada que vai além do rap. Felizmente, o hip hop abre, cada vez mais, espaço para todos. Mas mensagens destas não podem ser levadas pelo vento, sob pena de não se sobreviver à tempestade. 



Damz, na faixa “Kuzas Muda”, dizia “hip hop é turbulência”. Este disco Turbuléncia vem nesse sentido? Quais os significados por trás deste título? 

O significado do Turbuléncia é aquele mau tempo, a tempestade. E mau tempo em que sentido? É o momento que estamos a viver. O conhecimento está a perder-se. O “Kuzas Muda” quer dizer que as coisas mudaram; o hip hop está separado. Se não fosse devido a essa separação, talvez muitos levassem isso a sério, porque utilizam isso para promover a criminalidade, apologias sexuais, e por aí fora. E o hip hop é o contrário disso – é inteligência; é elevares o teu povo. Quando eu falo do meu povo, falo do mundo inteiro; de todas as etnias.  

Nesse sentido, este disco duplo, com 22 faixas, e lançado primeiramente em edição física, é dirigido aos fãs que seguem os valores do hip hop? 

Sim, certo. É dirigido a eles, mas também aos que não têm o conhecimento do que é o hip hop, para motivá-los a fazerem a sua própria pesquisa. Tenho uma faixa que se chama “Carta”, que é mesmo uma carta que eu escrevi, e aí até estou a falar para uma geração que ainda não apareceu. 

Com o lançamento de vários singles, acompanhados por vídeos bem produzidos, encontraste um equilíbrio de forma a conciliar a estrutura clássica de um álbum com o modus operandi actual na indústria? 

Sim, digamos que sim. Como na faixa “Kuzas Muda”, quando faço um featuring, não faço nem por mim, nem pela pessoa, mas sim pela cultura. E eu conheci o Damz através do Beto [Di Ghetto], ou seja, era um dos putos dele. Então, o Damz segue aquela mesma linhagem, por isso, fui buscá-lo, porque sabia que ele tinha para dar ao hip hop, e também porque ele é uma geração abaixo da minha. Foi dois em um. Depois, através do Damz, conheci o Xina RBL, que é aquele gajo melódico mas que também tem muita caneta, e fui buscá-los aos dois nesse sentido.  

Eu tenho um tema que é o “Para Bu Pensa” – porque eu dediquei três temas ao hip hop: o “Para Bu Pensa”, o “Kuzas Muda” e a “Carta” (e muitos mais, mas esses são os principais) –, e falo do hip hop mas de uma outra maneira. Depois, fiz a “Carta”, porque o Beto tinha uma dica que era “rappar só não chega”. Nós não somos apenas amigos do rap; somos desde infância, e ele é um irmão para mim. E temos de dar continuação ao que ele começou, porque éramos um trio, eu, ele e o Syer. O Beto foi buscar o Syer aos Dominus Família pelo hip hop. E ele achava que o Syer tinha uma cena à parte, e como o lema dele era o de resgatar, foi buscá-lo, e eu fui daqueles que levou também com esse lema sem me aperceber de nada. Porque eu era da rua, e aos poucos ele foi me moldando até eu me interessar pela cultura hip hop. É tudo no âmbito de fazer pela cultura; é esse o objectivo. 

És um rapper com uma mensagem muito forte. Sentes que ainda há uma desvalorização do rap crioulo enquanto rap com mensagem? 

Ainda hoje publiquei no meu Facebook que me expresso em crioulo, mas é dirigido ao mundo inteiro. Mesmo que cantasse em inglês, nem toda a gente compreenderia. Então, quem me compreender, se puder traduzir a minha palavra, nem que sejam uma ou duas quadras, salvar uma ou duas vidas é gratificante. A única barreira é a língua, mas o hip hop é universal. 



E com esta exposição massiva de fenómenos como o Dino D’Santiago ou o Julinho KSD, achas que o rap crioulo mais lírico pode ganhar espaço no nosso panorama nacional? 

Eu prefiro dizer que o hip hop não tem nacionalidade. Se formos a ver, é um movimento que começou na Jamaica, e o processo acabou nos EUA, em Bronx, onde o Afrika Bambaataa formou os pilares. E se falarmos de cá, eu acho que o hip hop é “tuga”. Hip hop tuga expressado em crioulo. A realidade que eu conto é cá que se passa, mas é rap para o mundo. A minha poesia é para o mundo. Eu não fico só num núcleo, no bairro, e acho que isso é que causa separações.  

Então, para responder à tua pergunta, acho que devíamos fazer mais parcerias entre o crioulo e o português, tal como eu, o Damz e o Xina, ou o Beto e o Syer. Devemos aproximarmo-nos mais uns dos outros. Porquê? Porque o hip hop em si não tem nada a ver com a música. O rap é uma expressão do hip hop, mas o rap em si não é o hip hop, assim como o graffiti é uma expressão do hip hop, mas o graffiti em si não é o hip hop. O hip hop é política de rua; começou com os negros a lutarem contra a segregação racial, ou seja, a lutarem pelos direitos de igualdade. E o hip hop é para homens; não é para miúdos. Por isso, devemos estar todos juntos. 

No seguimento do que dizias há bocado, a “Carta” é um tema que qualquer fã de hip hop devia ouvir. Como encaras a tua luta neste jogo, se, por um lado, fazes rap para quem procura mensagem, e, por outro, queres que a tua mensagem chegue a toda a gente? 

Como é que eu encaro isso tudo…? Eu direi que só nos dão valor depois de mortos. E cada letra minha é uma carta, e escrevo cada uma como se fosse a última. Se reparares no que estou a dizer nessa, é como se já não estivesse neste mundo. Então, eu estou a falar para uma geração que sei que vai compreender o que estou a dizer à letra. Temos o exemplo do Marquês de Pombal, que disse, virado para a Avenida da Liberdade, “hoje é uma avenida pequena, mas amanhã será uma avenida grande”. Na altura, quando ele disse isso, ninguém percebeu o que ele quis dizer. E, nesse sentido, eu acho que os poetas são visionários – não adivinhamos, mas como desejamos uma sociedade assim, é como se já tivéssemos visto. 

Dantes, tinha paixão por carros e por motas, mas hoje em dia não me interessa estar a ver a vida a 200km/h. Quanto mais me aproximo do hip hop, mais quero andar lento, a observar. Gosto de passear por Lisboa, ver uma parede com azulejo, um prédio velho, e imaginar. Como digo no “Para Bu Pensa”, ontem eles andaram no chão que hoje tu pisas. E hoje tu pisas no chão que muitos hão-de pisar. Se reparares, meto Eça de Queiroz, Luís de Camões, Fernando Pessoa nessa parte em que falo dos poetas. E quando ando pelas ruas de Lisboa, imagino-os, porque nós somos os sucessores da poesia, mas à letra. Estou a falar para uma geração que ainda não veio. Sei que muitos me compreendem, mas ainda são poucos. 

Com tantas participações no álbum, e com as dificuldades provocadas pela pandemia, vai haver oportunidade para se ouvir o Turbuléncia ao vivo? 

Eu creio e espero que sim. O objectivo do Turbuléncia é isso, ter um concerto, para que me possam ver também. Eu sou um MC. O rapper vem do MC, o mestre de cerimónias, e eu num álbum não posso interagir com ninguém. Eu tenho a certeza que se cantar num concerto como no álbum, não vai agradar a muita gente. As pessoas são cativadas pela interacção, porque se fosse para ouvir igual metiam o CD a dar em casa. Falar da actualidade, contar anedotas, fazer rir o pessoal, mandar um “props” a outro rapper (mas aquele “props” que nunca é à toa – para as pessoas irem ouvir com atenção). Posso mandar um “props” para o Syer ou o Samuel Mira, no sentido das pessoas irem ouvi-los. 

Entre faixas especiais como a “Carta”, “Madja Bu Ego”, “Genocídio Oficial”, e outras, qual a que te toca mais neste disco? 

O tema que mais me toca, e que me fez chorar mesmo, é a “Carta”. Porque estou a falar como se já estivesse morto. Uma vez disse, “eu sei que as verdades que digo podem fazer escorrer o meu sangue, mas o meu sangue amanhã será um tapete vermelho sobre o qual deixarão caminhar a minha descendência”. Eu ando no mundo como se já estivesse morto, porque sei que, instantaneamente, um dia, se calhar, agarram-me desprevenido. Mas quem conhece o real hip hop tem de estar preparado para isso tudo. A vida é curta demais para estar a correr atrás de dinheiro; estar a perder o meu tempo com coisas que não valem a pena. Se agarrar um bocado de dinheiro, é para o essencial. E volto às palavras do Beto, “rappar só não chega”. Temos de estar no terreno. O hip hop veio para educar, e falando na primeira pessoa, muitos de nós tiveram problemas com drogas, com prisão, de crescer só com uma mãe, um pai, ou até mesmo sem os dois, e ajudando os outros a fazer esse corta-mato, talvez os faça ver que nos meteram cá, mas podemos sempre lutar. A tartatuga põe os ovos na terra, mas a cria volta sempre para o mar. Não é porque nos meteram num bairro social que temos de estagnar aqui. É lutar para sair desse ciclo. Eu não rappo só para o bairro, o meu rap é para o mundo. Quando subo ao topo do parque da Bela Vista, vejo a capital; subo a um miradouro, e vejo vidas; vejo avenidas, e cada avenida tem prédios; dentro dos prédios há casas; em cada casa vive uma família; cada família tem os seus problemas. E eu venho trazer aquele remédio. É o que eu tenho na minha mente, e o que carrego comigo; carrego o real hip hop. O meu objectivo é abrir mentes.


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