Tangerine Dream: no labirinto das gravações ao vivo de uma lenda da electrónica

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] 

O mais recente volume da The Official Bootleg Series – o terceiro! – que compila concertos dos Tangerine Dream em caixas com quatro CDs cada, alinha registos de Detroit (Estados Unidos) e Sydney (Austrália) de 1977 e 1982, respectivamente, e é, como os dois primeiros títulos de resto, um precioso documento que nos oferece um vislumbre de um importante capítulo na história da música electrónica.

Hoje, ouvindo a música que o grupo de Edgar Froese produziu, sobretudo nos seus “Virgin Years”, o período compreendido entre 1974 e 1983 em que estiveram ligados à editora de Richard Branson (período, aliás, a que se referem todas as gravações até agora incluídas nesta série), é algo difícil compreender que este era um grupo que tranquilamente colocava no Top 20 álbuns como Phaedra ou Rubycon, trabalhos feitos de longas suites instrumentais, sem qualquer laivo de aproximação às estruturas e linguagens da música pop e que ainda assim mereciam generosa atenção do público. Estas gravações confirmam-no, com o público americano a fazer-se ouvir de forma entusiástica e ruidosa nas gravações registadas a 31 de Março de 1977 no Ford Auditorium de Detroit, aplaudindo como se se tratasse de um concerto de rock (e é interessante pensar se no público não estariam porventura os então adolescentes Jeff Mills ou Juan Atkins, observando maravilhados o ruído glorioso e absolutamente exótico que se desprendia das grandes caixas cheias de botões e fios operadas pelos Tangerine Dream, sonhando com o seu próprio futuro techno).

Depois das bem sucedidas missões da Nasa à Lua em 1969, o mundo entrou para a década em que Alvin Toffler identificou um choque do futuro com os olhos voltados para o espaço e os ouvidos sintonizados nas novas possibilidades electrónicas oferecidas por Moogs e Oberheims, por Arps e Mellotrons, fascinado com uma nova linguagem musical, envolta em mistério e completamente livre. O cânone crítico das últimas duas ou três décadas pode ter elevado os Kraftwerk – eles sim, com uma linguagem musical muito mais comprometida com uma ideia de pop – aos píncaros da mitologia electrónica, mas não se pode ignorar o provavelmente muito mais amplo impacto de um grupo como Tangerine Dream que não apenas vendia discos em quantidades muito assinaláveis como, a partir de 1977, graças a um convite de William Friedkin para que assinassem a banda sonora de The Sorcerer, passaram a frequentar os círculos de Hollywood, assinando scores para mais de três dezenas de filmes (!!!). Tudo isso, claro, permitia-lhes tocar ao vivo com frequência, atraindo consideráveis audiências a salas de referência por toda a Europa, América e Austrália.

As gravações apresentadas nesta série apareceram no âmbito do projecto Tangerine Tree, uma comunidade criada online por fãs da banda alemã com o intuito de recolher, catalogar e preservar gravações “piratas” dos seus concertos. Na época, a formação mais constante incluía, além do incontestado líder Edgar Froese (falecido em 2015), os músicos Christopher Franke (baterista e teclista) e Peter Baumann (teclados), mas o line-up foi sempre extremamente fluído e entre 1974 e 1982 (os anos em que aconteceram os concertos documentados nos três volumes da série) músicos como Michael Hoenig (teclados), Steve Jolliffe (saxofone, flauta, teclados) ou Johannes Schmoelling (teclados), todos eles com respeitadas carreiras a solo ou em outros grupos, também integraram os Tangerine Dream. Os concertos nesta era, anterior à imposição de sequenciadores mais evoluídos que permitiam programar sequências, eram largamente improvisados e as gravações eram encorajadas, até porque essa era a única maneira para o próprio grupo de ir mantendo um registo de todas as ideias, de todas as marcas de evolução que o seu som ia acomodando.

“Nós éramos um grupo de ensaio durante os anos 70”, explicava, por volta de 2005, Edgar Froese a Wouter Bessels, autor dos excelentes textos que acompanham cada uma destas caixas. “Antes do início de cada set, afinávamos os nossos sintetizadores com auscultadores, de costas voltadas para o público. E depois, a partir do momento em que começávamos cada peça numa determinada nota, tudo podia acontecer. Os sintetizadores desafinavam, os sequenciadores desregulavam o tempo ou então as coisas simplesmente não se conjugavam musicalmente. Os nossos concertos nos anos 70 tanto podiam correr bem como ser um desastre”.

O primeiro concerto incluído no primeiro volume da série, que teve lugar a 13 de Dezembro de 1974 na Catedral de Reims, em França, é talvez um dos mais míticos e notórios dos Tangerine Dream. Numa noite em que Nico assegurou a primeira parte (John Cale e Brian Eno deveriam, supostamente, ter secundado a histórica voz do primeiro álbum dos Velvet Underground, mas nunca chegaram a aparecer), Froese, Baumann e Franke tocaram para seis mil pessoas, mais do dobro das que eram supostas completar a lotação do monumento gótico do século XII. Em declarações ao New Musical Express alguns dias depois do concerto, o padre Bernard Goureau, que exercia funções na catedral, explicou que o templo em que reis franceses chegaram a ser coroados teve que ser “purificado” já que o público deixou lixo por todo o lado, fumou erva e urinou pelos cantos. “E talvez por ser um espaço tão frio”, explicou ainda o padre, “muita gente foi vista abraçada e aos beijos. Cerca de seis mil jovens mantiveram-se ali por três horas, às escuras, esticados no chão, a apreciar a música… e até poderiam ter causado mais estragos e terem-se portado de uma forma mais vergonhosa”. Ainda que algo contidas, as declarações do clérigo de Reims foram suficientes para que o Vaticano viesse a público decretar que os Tangerine Dream não poderiam voltar a apresentar-se em templos católicos, facto imediatamente aproveitado pela igreja anglicana que declarou que o grupo alemão seria bem-vindo às suas catedrais (o trio tocaria em 1975 na famosa York Minster, concerto que se pode ouvir no Youtube, mas que não consta da presente série, e também nas catedrais de Liverpool e Coventry, sendo que há um maravilhoso filme desta última apresentação, disponível online).



Praticamente envoltos pela escuridão (um candeeiro azul no topo do Moog de Franke era praticamente a única fonte de luz no palco), os três músicos socorreram-se de um arsenal incrível: Froese usou o famoso VCS 3 da EMS (ferramenta de eleição para gente como os Hawkwind, Pink Floyd, The Who ou King Crimson) e um Mellotron com sons de cordas; Franke tinha à sua disposição um orgão Elka e um sintetizador Moog com sequenciador; e Baumann tocou Mellotron com sons de flauta, orgão e um piano eléctrico Fender Rhodes. 

Planante e abstracta, a música tem algo de “site specific”, ou seja, o grupo parece reagir à austera e solene catedral em que se encontrava naquela noite de 1974, interpretando, no primeiro de dois sets, sons atmosféricos que podem ajudar a explicar a popularidade desta música. Após a era hippie e todas as convulsões sociais e políticas que se sucederam ao Maio de 1968, a proposta musical dos Tangerine Dream era diferenciada, tranquilizadora e algo espiritual e pacífica, um antídoto para a escalada de decibéis em que o rock parecia ter embarcado com gente como os Black Sabbath ou Led Zeppelin e, a espaços pelo menos, uma espécie de prenúncio de toda a cena New Age que começava também a desenvolver-se em paralelo.

No segundo set, a música assume contornos mais específicos com “leads” claros dos Mellotrons e um pulsar rítmico imposto pelo sequenciador a imprimir alguma dinâmica às peças, uma antecipação de experiências futuras que haveriam de levar a música dos Tangerine Dream a conquistar espaço cinemático.

O segundo concerto incluído na caixa inaugural da série de bootlegs teve lugar na Mozartsaal, em Mannheim, Alemanha, a 31 de Outubro de 1976. O período que mediou as apresentações em Reims e a data final de uma triunfal digressão na Alemanha, a que aqui se representa, precisamente, foi extremamente importante para o grupo que nesses anos lançou Phaedra, Rubycon, Ricochet e Stratosfear com crescente sucesso. Em 1975, após ter visto a banda ao vivo num concerto em Munique, o realizador e produtor William Friedkin convidou os Tangerine Dream a assinarem a banda sonora do seu remake do filme francês The Wages of Fearn que receberia o título Sorcerer, um encontro que se revelaria decisivo no futuro da banda.

O sucesso permitiu também ao grupo investir em tecnologia. O Projekt Elektronik, um sequenciador massivo feito por encomenda, foi pela primeira vez usado nas gravações de Stratosfear e levado para a estrada na digressão que se seguiu, podendo ouvir-se já no registo de Mannheim. Embora ainda largamente improvisada, a música aqui apresentada beneficia já de maiores possibilidades de sequenciação e pré-programação e soa mais estruturada, com algumas partes a serem adoptadas de material de Stratosfear e outras a serem posteriormente repescadas para peças de futuros trabalhos como Encore ou a banda sonora de Sorcerer.

O segundo volume da The Official Bootleg Series documenta passagens dos Tangerine Dream pelo Palais des Congrès, de Paris, em 1978 e pelo Palast der Republik, de Berlim Oriental, em 1980. Este foi o período que sucedeu à edição de Encore, duplo álbum ao vivo compilado a partir de gravações da muito bem sucedida digressão de 1977 na América do Norte e o último registo com participação de Peter Baumann, e também de Cyclone, álbum em que Froese e companhia começaram a explorar as possibilidades dos primeiros sequenciadores digitais, mais seguros e exactos, imunes às oscilações de voltagem que tanto comprometiam nas apresentações ao vivo, desregulando os ritmos programados.



Cyclone trouxe outras mudanças, com Froese a recrutar o baterista Klaus Krieger e o multi-instrumentista Steve Joliffe (que já tinha integrado a banda por um breve período em 1969) para se juntarem a si e a Franke. Jolliffe, além das suas capacidades de músico, ofereceu também à fluída equação dos Tangerine Dream os seus préstimos como vocalista, ideia muito debatida entre Edgar Froese e o próprio Richard Branson da Virgin, certamente reflexo de uma estratégia para aprimorar o potencial comercial do grupo.

Antes de embarcarem na digressão de 1978, os renovados Tangerine Dream passaram bastante tempo a ensaiar, forma de acomodar as novas ferramentas que teriam em palco e também de consolidar as dinâmicas da nova formação. A improvisação continuava a ser uma constante, mas a música era mais estruturada e da interacção da bateria de Krieger e dos sequenciadores de Franke emergia uma dimensão rítmica mais pronunciada, talvez até mais “rock”, com o grupo a querer, nitidamente, agarrar uma parte do público prog que acorria em massa a aplaudir concertos de gente como Emerson, Lake & Palmer ou Yes.

O concerto de Paris integrava-se na programação de uma enorme feira de material de alta-fidelidade, o que é um detalhe importante. Nesta era dourada do hi-fi, marcas como a Pioneer ou Marantz, MacIntosh, Akai, Thorens, JBL ou Tannoy, entre tantas outras, fabricavam amplificadores, gira-discos e colunas que reflectiam as necessidades impostas pela própria música da época e os Tangerine Dream eram o típico grupo cuja música pedia para ser escutada em sistemas de qualidade, capazes de dar o correcto foco aural a todas as nuances da sua electrónica.

“Entrámos no palco às escuras”, recorda Jolliffe nas páginas do livreto que acompanha este segundo volume da The Offcial Bootleg Series. “Nunca dava para ver exactamente a quantidade de gente que estava diante do palco, mas nesta ocasião logo que as pessoas no público perceberam que nos estávamos a movimentar em palco começaram a a acender os charros que tinham já preparado. Através da escuridão eu fiquei chocado ao conseguir ver um mar sem fim de pequenas luzes. Foi a primeira vez que fiquei nervoso em palco. Mas na verdade nem me devia ter preocupado. A reacção ao concerto foi de êxtase. Lembro-me do nosso carro ser perseguido por fãs em busca de um autógrafo no final de alguns concertos”.

De acordo com as notas de Wouter Bessels, porém, Edgar Froese revelou em entrevistas concedidas no arranque de 1980 que essa digressão não foi assim tão conseguida – “não seguimos novas direcções”, admitiu. Surgiu imediatamente uma tensão com Jolliffe, que se sente de facto na gravação de Paris, tensão que se acumulou até explodir num concerto em Londres, no Hammersmith Odeon, não incluído nesta série. E seria já sem os préstimos de Jolliffe que os Tangerine Dream – Froese, Franke e Krieger – gravariam, em 1978, o álbum Force Majeure. O baterista abandonaria o grupo pouco depois, para se juntar à banda de Iggy Pop, e, através de contactos efectuados durante a gravação de um trabalho a solo nesse período, Froese chegou até Johannes Schmoelling, que seria convidado a juntar-se a si e a Franke a tempo de participar em dois concertos programados para a Berlim Oriental, uma produção que demorou dois anos a ser negociada.



Com a benção do governo da República Democrática da Alemanha (RDA), que não encontrava na música instrumental do grupo mensagens políticas explícitas, e sobretudo mensagens que pudessem de alguma forma antagonizar o regime político aí vigente, o grupo apresentou-se no importante Palaast der Republik (que já não existe) perante público entusiasta, altos funcionários do estado e imensa imprensa internacional que queria testemunhar o primeiro concerto de uma banda ocidental na Berlim do lado de lá do muro.

No alinhamento da apresentação em Berlim antecipava-se algum do material que seria integrado em Tangram, trabalho que só seria editado alguns meses depois, em Maio de 1980. Dessa vez, parte importante do trabalho foi entregue a sequenciadores que debitavam partes pré-programadas, cabendo ao trio os improvisos “planantes” que sobrevoaram essas bases.

Do material gravado em Berlim Oriental – e que seria transmitido pela rádio – o trio extraiu os 45 minutos base de Quichotte, álbum que seria lançado pela Amiga, a editora estatal da RDA (e que mereceria, alguns anos depois, edição ampla no mercado ocidental com o título Pergamon). Este é também um documento importante pois marca o fim de uma era: seria a última vez que Edgar Froese utilizaria o seu Mellotron em palco, já que novo equipamento digital começava a entrar na esfera do grupo, capaz assim de levar para a estrada mais material previamente programado em sintetizadores, conferindo à música que executavam estruturas mais definidas e encurtando o espaço para a improvisação.

O terceiro volume desta Official Bootleg Series inclui, em relação ao segundo, dois saltos no tempo e no espaço: um para trás, até 1977, com a apresentação em Detroit, Estados Unidos, que começou por se descrever neste texto, e outra para a frente, para 1982, em Sydney, na Austrália.

Depois de completarem os trabalhos para Sorcerer e com Stratosfear, o álbum de 1976, a revelar-se um sucesso, os Tangerine Dream ganharam o impulso ideal para se atirarem ao mercado da América do Norte, com Edgar Froese, Peter Baumann e Christopher Franke a atravessarem o oceano com uma pesada bagagem que incluída guitarras eléctricas, dois Mellotrons, um Moog e um Arp modulares e ainda o enorme Projekt Elektronik, o sequenciador e sintetizador modular feito por encomenda para Baumann. Na digressão que teve início em Milwaukee, no Riverside Theatre, foi introduzida uma importante novidade, o espectáculo luminoso assinado pelo colectivo Laserium.

O sucesso das primeiras apresentações e a atenção da imprensa colocaram o grupo nos píncaros e esse renovado ânimo sente-se no concerto de Detroit, 100 minutos de grande interacção entre o trio, com solos de qualidade, tão exploratórios como musicalmente coerentes. E Froese, entusiasmado na sua guitarra, carrega pontualmente o grupo para o que o autor Wouter Bessels descreve como “heavy metal electronics”, uma demonstração de guitarrismo com peso e medida que levou o público ao rubro. Como se fosse, de facto, um concerto de rock.



O segundo concerto aqui documentado representa novo salto no tempo, até Fevereiro de 1982, período que se sucedeu à edição de Exit, álbum de Setembro de 1981, e que imediatamente precedeu o lançamento de White Eagle, trabalho de 1982 gravado antes do trio de Froese, Franke e Schmoelling embarcar para a Austrália, país onde o grupo considerou mesmo estabelecer-se e onde, de acordo com declarações de Edgar Froese, só não acabou a viver devido a complexas questões burocráticas: “vemo-nos muito mais como uma banda cosmo-política do que como algum tipo de exportação nacional. Nunca nos sentimos alemães, por exemplo, só aconteceu termos nascido lá por acidente”.

Em 1981, Froese também abordou a mudança no som da banda em entrevista com a revista Electronics & Music Maker: “O nosso som é agora muito mais estruturado. Isso não significa que tenhamos esquecido como se improvisa. Conseguimos fazer ambas as coisas – conseguimos sentar-nos e estruturar a música tal como a queremos tocar e ainda assim conseguimos manter a nossa identidade individual construída ao longo dos anos. A ideia dos TD era apenas sentarmo-nos para tentar tocar uma peça criativa de música electrónica. Mas algo em que tivemos todos que concordar foi em passar do universo analógico para o digital, dos computadores. Claro que temos que estar mais conscientes das possibilidades de controle, bem como dos sons. Não podemos apenas dizer: ‘vamos todos deixar-nos levar e deixar o hardware fazer todo o trabalho’. Por isso agora temos que estruturar tudo com muito mais cuidado”.

Essa nova realidade sente-se claramente na performance do Regent Theatre de Sydney aqui imortalizada, após se terem descoberto as fitas da gravação do concerto que seria transmitido pela rádio ABC-FM em 1982. Algum do material aí executado, como sempre aconteceu ao longo da carreira dos Tangerine Dream, seria posteriormente trabalhado em estúdio, com algum a ser integrado em Logos Live, também de 1982, com pontuais acrescentos, e até, já nos anos 90, numa edição independente de título Sohoman, realizada a partir de uma gravação de oito pistas efectuada pela própria banda. Mas o que se escuta nos CDs 3 e 4 do mais recente volume da The Official Bootleg Series é a gravação da própria estação de rádio, sem manipulação posterior de estúdio, sem overdubs, um documento autêntico do momento que a banda protagonizou na noite de 22 de fevereiro de 1982.

Escreve Bessels que depois destas apresentações dos Tangerine Dream na Austrália, em 1982, o grupo demorou 32 anos a regressar ao país, com dois “monumentais” concertos realizados em Melbourne em Novembro de 2014, meras oito semanas antes do falecimento de Edgar Froese, a 20 de Janeiro de 2015.

A discografia dos Tangerine Dream é muito vasta, com mais de uma centena de registos ao vivo e de estúdio a que acrescem 34 bandas sonoras e dezenas de compilações. É por isso mesmo profundamente diversa e desequilibrada, com o grupo a soar, sobretudo nas décadas mais recentes, como um pastiche datado de algumas das suas próprias facetas menos interessantes. Mas o período a que correspondem as gravações apresentadas nesta série carimbada pela Esoteric/Cherry Red foi musicalmente rico, mostrando a banda a navegar por entre revoluções tecnológicas e alterações de paradigmas técnicos e de pensamento enquanto, em paralelo, procurava impor uma nova linguagem, não apenas musical, mas talvez performativa. E é essa busca que se sente, antes de qualquer outra coisa, nos concertos aqui arquivados: uma busca de músicos guiados por uma visão de futuro, que acreditavam que novos instrumentos electrónicos deveriam, antes de mais nada, servir para tocar uma nova música, igualmente electrónica e livre de modelos pré-existentes. Os Zombi de A.E. Paterra e Steve Moore, por exemplo, estudaram atentamente tudo o que os Tangerine Dream deste tempo fizeram, as bandas sonoras, mas também os concertos, os sons e as dinâmicas que descobriram e imortalizaram. E não terão, certamente, sido os únicos a fazê-lo.

Quem porventura possa conhecer a obra de estúdio dos Tangerine Dream e pelo menos algumas das suas mais bem conseguidas bandas sonoras, tem nesta série um fascinante labirinto onde se poderá perder, deixando-se levar por todas as nuances de uma demanda que nunca teve, na verdade uma conclusão, com Froese a conduzir sucessivas versões da sua banda numa constante exploração das possibilidades que a tecnologia ofereceu à música.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu