TAMBINO: “Há canções que perduram porque um coração despedaçado é um sentimento universal. Quem é que não se identifica com o amor?”

[TEXTO] Pedro João Santos [FOTO] Barrett Sweger

Que atire a primeira pedra quem nunca se trancou no quarto a ouvir My Bloody Valentine. No final dos anos 80, o irlandês Kevin Shields começou uma banda para continuar a visão esbravejada por The Jesus and Mary Chain (também por Cocteau Twins ou A.R. Kane). Foi preciso transformar a pop farpada de Psychocandy num vapor de guitarras, levar uma editora à falência e chegar à catarse. Quando o fizeram, deram ao mundo uma nova forma de ouvir música.

Kam Tambini não é filho do shoegaze. Antes de conhecer essa doce e carcomida confecção, o artista cresceu entre Lima e Bogotá, as capitais do Peru e da Colômbia – dois embalos diferentes, entre as valsas de Chabuca Granda e os vallenatos [música popular colombiana] de Carlos Vives. A adolescência trocou-lhe as agulhas: do Sul para o Norte da América, em Washington D.C.; dos ritmos latinos para tudo o que apanhava em cassetes VHS de skate, fosse rap obscuro ou Pixies. É na escola secundária que entra como amador na cena punk, tornando-se a música uma constante. O shoegaze só o conquista nos anos 2010, em digressão com a banda Glass Gang, pouco depois da licenciatura em Nova Iorque.

As guitarras que embriagaram o início dos anos 90pelas mãos de Slowdive, Ride ou Yo La Tengo – nunca morreram. Apenas se dispersaram para além da anglosfera: na Europa ou na América Latina, os nichos fizeram-se ninhos. Hoje, os argentinos BOSQUES, os porto-riquenhos Un.Real ou os mexicanos Mint Field são alguns dos nomes que continuam a violentar acordes com pedais de distorção; uns a mondar qualquer sentido de harmonia e outros a usar o feedback como tempero. Uma cama de pregos em que se deitaram vozes angelicais, para sobreviverem apenas na assombração das melodias. Mas essa tradição manteve-se voltada para dentro, sem se congeminar com as heranças dos países em que aportou.

No distante ano de 2019, o músico e jornalista peruano quis encontrar-se a solo e pegou no shoegaze como base. O que veio a seguir foi nada menos que um golpe de asa. Sobrepôs às camadas de guitarra uma batida de cumbia: a música e dança colombiana de compasso binário, que nunca se confinou a fronteiras – cedo nasceram iterações no Panamá, Chile, Peru. Da experiência resultou “Blonde Undone”, o primeiro tratado de “cumbiagaze”, que tem levantado o dilema de chorar ou rebolar; mais tarde, o dembow encontra a sua expressão mais triste em “Lo Amanecer”. Cada single ocupa uma ponta em TAMBINO, celebrando todas as cores que compõem Nova Iorque – pelo meio, vêm as tonalidades mais deslavadas, o rescaldo da noite.

Num telefonema ao Rimas e Batidas, Kam Tambini descreve a experiência multicultural na cidade – e como é passar de receber milhares de e-mails por dia, para ser ele próprio o protagonista de um pressrelease. O TAMBINO EP está disponível no Bandcamp. 



Soube que estás confinado em Bogotá, embora indiques no Twitter que és de Nova Iorque e de Lima.

Sei que parece um pouco confuso. Eu nasci no Peru, em Lima: sou peruano. Vivo e trabalho em Nova Iorque, onde gravei este EP, ao contrário da minha mãe e da minha família, que estão em Bogotá. Vim visitá-los, passar algum tempo com eles, até que a quarentena rebentou e os aeroportos na Colômbia tiveram que fechar. Por enquanto, estou aqui preso, mas fico feliz por poder estar com a minha família.

É uma situação mais rara estares em Bogotá?

Regresso frequentemente, pelo menos uma ou duas vezes por ano. Acho que estou aqui há um mês e isso é raro para mim: passo a maior parte do tempo em Brooklyn, Nova Iorque. Eu nasci e cresci no Peru, mas a minha infância foi um intercâmbio entre Lima e Bogotá, onde a minha mãe estava a trabalhar. Mudei-me para os EUA na minha adolescência. Estive primeiro em Washington D.C., que me permitiu mergulhar na música punk e no skate; aos 17 anos, migrei para Nova Iorque, onde vivo desde então.

Não posso deixar de notar que és editor-sénior na revista digital Okayafrica.

Exactamente. Ao longo da minha vida, sempre gravei a minha música e formei as minhas próprias bandas, entre outros projetos – é algo que sempre farei. Mas também trabalho na indústria musical, num cenário editorial, e alegra-me muito poder promover a música africana, em particular. Também me tranquiliza o facto de nunca ser um conflito de interesses, porque a minha música nunca apareceria na Okayafrica, sabes? Não há problemas aí [risos].

Quando tiveste esse despertar musical?

Relativamente novo. As primeiras memórias de me apaixonar por música vêm daquilo que a minha mãe ouvia em casa dela: discos peruanos, como [a cantautora] Chabuca Granda; as estações de rádio repletas de estrelas colombianas, como Carlos Vives. Cresci com esses ritmos.

Entreguei-me à música ainda antes de escrever sobre ela, ou trabalhar na parte editorial. Isso aconteceu em Washington D.C., durante os meus anos adolescentes: é engraçado que foi a ver vídeos de skateboarding que descobri muitas das minhas primeiras paixões musicais. Cassetes [VHS] como Baker2G, da empresa Baker Skateboards, incluíam canções dos Pixies, dos Ramones, bandas que conhecia pouco até então. Esses vídeos também eram ricos em hip hop: Project Pat [rapper de Memphis, Tennessee], Andre Nickatina [de São Francisco, Califórnia]… Esse foi o momento em que comecei a compor. Tive várias bandas no liceu e em Nova Iorque, onde comecei grupos de punk e pós-punk.

Quando é que encontraste tempo para gravar o EP, que é uma clara amálgama dessas influências?

Há um ano, ano e meio, comecei a gravar com o produtor Michael Beharie, no estúdio dele em Brooklyn. Há cerca de oito meses estávamos a gravar músicas de shoegaze, quando tivemos uma revelação. Surgiu-me a ideia de colocar uma batida de cumbia sob as guitarras pesadas, e isso propulsionou o projeto no sentido de incorporar mais elementos latinos, música urbana, reggaeton, e coisas que tais.

Como conheceste o Michael Beharie?

Eu e o Michael andámos no mesmo liceu, em Washington D.C., mas ele é mais velho que eu. Admirávamo-lo, eu e os meus colegas, porque tinha uma banda fixe e um talento imenso para tocar guitarra. Um belíssimo músico e produtor que tive sempre em mente, especialmente quando comecei a planear este disco a solo. Tem sido um prazer trabalhar com ele, porque se mostra sempre muito aberto a qualquer ideia. Tivemos muito tempo e espaço para experimentar com sons, livremente, no estúdio.

Calculo que seja um orgulho para o Kam do secundário.

O Kam do secundário ficaria feliz. [Risos]

Não posso deixar de perguntar, até porque também trabalho no teu campo: como te sentes a lançar a tua própria música e seres tu o objeto do press-release?

É algo a que me habituei um pouco, porque tenho uma banda chamada Glass Gang, em Nova Iorque. Tocamos juntos há algum tempo, na verdade – pelo menos cinco anos –, e tivemos alguma cobertura na imprensa. Ao primeiro impacto, é interessante: sinto que sou fluente em ambos os códigos [do jornalista e do artista]. É engraçado ver o teu próprio press-release a fazer as rondas, mas, ao fim do dia, sei aquilo que é necessário e a missão principal é levar as pessoas a ouvir este EP e levar dele aquilo que possam. Sobretudo, que gostem dele.

Suponho que, se não fosse pela quarentena, estarias em bares e clubes a dar vida a este disco.

Com certeza. Estava a magicar uma festa de lançamento [e outros concertos] por esta altura, o que infelizmente se tornou impossível. Estou a ver isto de forma positiva: dá-me mais tempo para perceber e limar o som ao vivo, já que ainda estou a testar o desenho de palco com a banda. Dá-me mais tempo para aperfeiçoar tudo, até que possamos voltar aos concertos. Brevemente, espero.



Há uma frase interessante no texto promocional, que resume o disco como uma “autêntica expressão Nuevayorquina do cenário musical e multicultural da cidade”. Lembro-me da Azealia Banks a falar de como ouvia merengue e hip hop hardcore na mesma casa, de um barrio para o outro. Este imaginário é apenas mitológico?

Acho que acertaste em cheio. Isso influenciou todo o EP, que é, de várias maneiras, uma carta de amor para Nova Iorque, o meu lar há mais de dez anos: todas as suas culturas e sons diferentes. Posso descrever o disco da mesma forma que o fiz a amigos: estás a andar pela cidade e ouves reggaeton ou bachata, vindo de uma bodega [loja de conveniência tipicamente latino-americana] aos altos berros. De repente, uns putos passam de skate por ti, com uma boombox a dar hip hop. Entras no metro e há um tipo a ferir uma guitarra, a tocar rock por dinheiro. Dentro da carruagem, o som dos teus auscultadores mistura-se com o par ao lado, e poderá ser pop, ou algo completamente diferente. É uma mistura amável disso tudo, de interações que Nova Iorque te permite, se andares na rua ou de transportes.

Percebe-se na playlist que publicaste recentemente, com as pedras-de-toque que moldaram este disco. De Bad Bunny a cumbia peruana, de Four Tet a J Hus ou Sun-El Musician, é um cocktail tremendo. Não conhecia Los Hijos del Sol, mas agora a “Cariñito” não me sai da cabeça.

Ó, que malha. Fico contente por gostares, é um clássico do Peru. Muita da comunidade peruana e sul-americana conhece-o, mas espero que essa canção chegue a mais gente. Essa playlist é uma selecção folgada de temas que inspiraram o projecto TAMBINO. Como mencionaste, vai do Bad Bunny e outros novatos, até Lous And The Yakuza – uma rapper belgo-congolesa que está a arrasar – ou Four Tet e J Hus, que eu adoro. A cena nigeriana do afrobeats influenciou bastante os ritmos do EP, desde o Wizkid até ao Davido.

Tencionas arranjar espaço no teu concerto para algumas versões de clássicos peruanos, talvez com guitarras de shoegaze?

Seguramente já pensei nisso. Embora não possa prometê-lo antes de experimentar com a banda inteira, é algo que me daria prazer.

A foto de capa no teu Twitter é um comentário hilariante de um ouvinte teu que não sabia se havia de “perrear o llorar” [fazer twerk ou chorar]. A cumbia é, dentro da música folclórica, um dos ritmos binários mais icónicos – mas parece ter uma semiótica ambivalente. Fala-se muito da pop para “chorar na pista de dança”, mas a cumbia também não parece novata nisto.

É um ponto de vista muito interessante e acho que tens razão. Muitos clássicos de cumbia, os verdadeiros hinos que movem as pessoas – como a “Cariñito” que mencionaste –, acabam por ser sobre corações partidos. Faz parte do ADN do género: enquanto a batida sugere felicidade, as letras – se as ouvires – relatam um amor perdido. Concordo contigo.

Achei muita piada a esse comentário, é dos meus favoritos. Apesar de ainda só terem saído dois singles, felizmente já chegaram a miúdos na Cidade do México, em Buenos Aires ou em Lima, o que é bonito de ver. Fartei-me de rir com esse comentário, achei que acertou na mouche.

Talvez nunca tenha prestado atenção suficiente. Mas se pensar numa “Como La Flor”, da Selena, por exemplo…

É um clássico enorme; a “techno cumbia” da Selena foi outra grande influência no uso do sintetizador. Essas canções perduram, porque um coração despedaçado é um sentimento universal: quem é que não se identifica com o amor?

Dirias que essa sensação fica patente no disco?

Não sei se a mensagem é necessariamente essa. Passa muito pela introspecção relativa a viver na cidade de Nova Iorque, às escolhas que fazes e talvez não devesses, às tuas relações com amigos e toda a gente. Diria que é… como diria? Talvez seja uma ponderação mais profunda sobre a vida moderna na cidade grande. Há muita cultura de sair à noite por lá – não de momento, é óbvio –, mas depois de dez anos, realmente imerges nessa rotina: estar constantemente em festas, em bares, sempre ocupado com eventos sociais. Encontrei-me a escrever estas canções, meia-noite ou uma da manhã, quando regressava da festa, a questionar a razão para ter ido sequer, para me ter embriagado.

O EP transparece isso, através de uma progressão sonora cada vez mais melancólica. Cada faixa parece alimentar-se da melodia-base da anterior.

Sim, fico muito feliz por teres apanhado isso. Eu e o [produtor] Michael Beharie usámos uma estrutura de chamada e resposta: o refrão da “Blonde Undone” – “Si mi ves por la calle, no me ponga atención” – arranca a segunda faixa, “Shadow”. Para o final do disco, a “5AM Spirit”, que é mais lenta e meditativa, partilha os acordes da “El Amanecer”. Essa meditação transforma-se numa espécie de festa infeliz, à falta de uma melhor palavra na minha cabeça [risos].

Quem acreditas que vai encontrar este disco? A tua família já o ouviu?

É engraçado que menciones a minha família: não acho que a minha mãe vá gostar muito. Ela prefere quando só canto e toco guitarra acústica. Coloquei no IGTV uma pequena versão acústica da “Blonde Undone”, que é a coisa favorita dela. Fez-me rir. “Mãe, eu passei um dia a fazer isso. Este disco demorou um ano!” E ela prefere que eu toque apenas guitarra, mas está tudo bem.

Fico realmente feliz que esteja a chegar a miúdos novos e latinos, de acordo com o que vejo nas estatísticas do Spotify e nos comentários do Instagram. Quando interajo com eles, o perfil é algo como um skater jovem latino e desajustado – lembram-me um pouco de mim nessa idade. Espero que [o EP] seja para toda a gente e que possam retirar dele o que queiram.

É possível que vejas isso nos concertos que eventualmente faças. Qual é o futuro deste projecto?

Quero continuar com o projecto TAMBINO, especialmente porque está a ser bem recebido. De momento, só estou concentrado neste EP, mas logo que me reúna com o meu equipamento em Nova Iorque, vou escrever novas canções. Planeio trabalhar com o mesmo produtor, Michael Beharie, porque penso haver mais espaço para explorar esta mescla de guitarras, batidas latinas e tudo o que vem à rede.


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