Table Sports: “Queremos editar o que nos apaixona”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Direitos Reservados

De Lisboa a Bruxelas, dos DJ sets às edições de discos, da paixão à concretização. Hugo Moutinho, Pascal Vermeulen e Mário Valente formam uma nova (e fortíssima) equipa editora que responde pelo nome Table Sports

Thinking of Eternity de PBK e o disco homónimo dos Achwghâ Ney Wodei são os dois primeiros lançamentos da etiqueta que trabalha com amor comprovado — as capas feitas à mão são só uma das provas…

Falámos com o trio para saber mais sobre este recém-criado projecto. E temos uma mix exclusiva (tracklist aqui) para nos ajudar a entender o quadro completo.



Como é que surgiu a ideia da Table Sports? Apresentem-se, por favor, e expliquem como tudo começou.

A Table Sports é consequência de anos de partilha musical entre três pessoas: Hugo Moutinho, Mário Valente e Pascal Vermeulen. Estamos ligados ao DJing, a programas de rádio, compramos imensos discos, gostamos de descobrir e redescobrir o presente e o passado. No início o nome servia apenas para nos juntarmos em DJ set, a ideia de fazer uma editora veio depois.

Qual o conceito que norteia a editora? Que zonas musicais pretendem explorar?

Não existe um grande conceito por detrás da Table Sports. Queremos editar o que nos apaixona. O formato pouco nos importa. No caso dos discos queremos que as capas sejam feitas à mão e que se tornem únicas. Acreditamos que isso fará a diferença, como coleccionadores que também somos.

Podem falar sobre os dois primeiros lançamentos? Que música é esta? Porque acreditam que merece esta atenção do presente? Como chegaram até ela?

O primeiro a ser pensado foi o álbum do PBK, que é um compositor ligado à música experimental, já com anos de carreira. Em 2017, ele descobriu umas gravações feitas em 1998, sob o efeito de LSD e como tributo a um disco dos Cluster, e que por alguma razão estranha ficaram esquecidas. Quando ouvimos um dos temas que o PBK postou no Facebook imediatamente quisemos ouvir mais e foi aí que a ideia de fazer a editora começou. Enquanto o processo do primeiro LP estava a decorrer surgiu a ideia de reeditar a primeira cassete dos Achwghâ Ney Wodei (banda/colectivo artístico francês), originalmente lançada em 1986, dentro de uma miniatura de carro em barro, raríssima como se imagina, e que nunca tinha tido uma reedição em formato algum. Apesar de diferentes, ambos os discos são importantes para nós e temos vontade que mais pessoas os ouçam. As capas feitas à mão — e por isso únicas — acrescentam valor às edições.

Três pessoas a operarem a Table Sports significa três pessoas a pensarem. Vão sempre procurar explorar terreno comum aos três, ou haverá derivas por áreas específicas que possam interessar só a um ou dois de vocês?

O importante será estarmos os três de acordo em relação a uma determinada edição, independentemente do formato: LP, livro, poster, totebag, cassete, etc. Os nossos gostos encontram-se em muitos pontos, mas somos pessoas diferentes em termos de referências, de crescimento, de formação, de cidade… Confiamos uns nos outros o suficiente para acreditarmos nas ideias de cada um.

Falem-nos da imagem da editora: papel pardo nas capas das edições em vinil, mais stencils… isto remete para uma estética muito específica. Que mensagem procuram vocês comunicar com este posicionamento gráfico?

O nosso crescimento pessoal sempre passou pela estética DIY e é isso que queremos trazer para a Table Sports. No caso dos discos, as capas em papel pardo são como uma tela em que tudo pode acontecer. É nossa vontade que as capas sejam sempre feitas à mão, idealizadas por nós, pelos projectos que editamos ou por pessoas próximas ou que admiramos. A capa do LP do PBK foi concebida pela Susana Mendes Silva, que pensou num carimbo que fosse a reprodução da cassete original, com o nome escrito à mão. A capa dos Achwghâ Ney Wodei foi pensada por um dos elementos da banda e pelo Hugo, com a ideia de tornar cada capa igualmente única, numa combinação de stencil, serigrafia, selos e carimbos. É de loucos fazer as capas assim, porque cada processo demora imenso tempo e andamos todos envolvidos em mil outros projectos, mas esta será uma das qualidades da Table Sports e algo que nos distingue de outras editoras a operar nos mesmos terrenos que nós.



Vêm juntar-se a uma série de outras propostas editoriais com abordagens muito particulares à ideia de memória musical, da Holuzam à Groovie ou Mar & Sol, da Armoniz à Golden Pavilion… que pensam deste panorama editorial nacional e de que forma é que vos inspirou — ou não… — a darem este passo?

Temos bastante afinidade e proximidade com as portuguesas Holuzam e a Groovie, até porque somos todos grandes amigos de longa data. Ambas pensam o passado projectando-o para o presente, não é uma simples repescagem. A Holuzam é talvez a que mais de nós se aproxima em termos estéticos, mas não se pode falar em inspiração directa, porque quando eles apareceram com os primeiros lançamentos já nós tínhamos o disco do PBK pronto. Mas como amigos e colegas, são uma inspiração constante, isso sim.

Falem-nos das vossas edições em vinil: como abordam o mastering, onde fazem as vossas prensagens, porque apostam neste suporte?

O mastering e a passagem das cassetes para digital foram feitos no mesmo estúdio em Inglaterra, o The Cage. Ficámos tão satisfeitos com o trabalho que o Martin Bowes fez com as gravações do PBK que lhe confiámos a cassete dos Achwghâ Ney Wodei. Este segundo projecto era mais delicado porque não existiam masters originais e o trabalho de estúdio era mais complicado. O resultado não é perfeito porque a fita tinha mais de 30 anos, mas é um pequeno milagre.

Vão procurar manter uma linha no que à estética musical diz respeito? Ou a ideia será variar?

A ideia é não é ficarmos estanques. Já estes dois discos são bastante diferentes. Se nos apetecer editamos um álbum de disco e a seguir um de voz processada ou de noise japonês, é a piada de sermos três e haver tanta ideia a borbulhar.

Falem-nos um bocadinho do futuro: já há mais edições alinhadas? Quantos lançamentos planeiam fazer até ao final do ano?

Colocar estes dois discos cá fora era a nossa prioridade. Queremos promover e distribuir da melhor maneira que conseguirmos para abrir caminho às próximas edições. Cada um tem as suas ideias que vamos cruzar em breve. Dependendo do formato talvez ainda saia alguma coisa antes do fim do ano.

Vão relançar música portuguesa esquecida em gavetas, lançamentos obscuros que só surgiram em cassete, ou vão olhar mais para fora?

Tudo é possível. Cá dentro ou lá fora há muita coisa que merece uma primeira ou segunda oportunidade. É só dar prioridade ao que mais nos agrada.

E quanto ao presente? Vêem-se a lançar música feita agora?

Claro que sim. Ainda não tínhamos editado nada e já recebíamos propostas de peças feitas agora. Houvesse dinheiro e tempo e podíamos editar um disco por mês. Seria incrível!


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu