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Texto: Paulo Pena
Fotografia: Direitos Reservados

Psico, Tchapo, Klay, Crazy Cribs, DJ Maskarilha, Xonas, Kenzy e Avô Manecas são os nomes que encontramos nos créditos do novo trabalho do rapper.

Syer: “O microfone, para mim, é uma responsabilidade”

Texto: Paulo Pena
Fotografia: Direitos Reservados

Seis anos após o lançamento do seu primeiro álbum, Sujidade Máxima, Syer voltou aos projectos a solo, estreando no passado mês de Junho um EP (que também é um livro de poesia) intitulado Nas Profundezas Da Alma, gravado, misturado e masterizado pelo próprio, em casa, durante a época de confinamento obrigatório.  

Falámos com esta velha raposa, que com o passar dos Invernos se manteve fiel ao seu bosque, e concluiu-se que o velho pode ser novo. É essa certeza que mantém o rapper vivo no hip hop ao fim de tantos anos. Há quem diga que os MCs são como o vinho… o resto vocês já sabem. Fiquem com a conversa com o membro do colectivo (outrora activo) Dominus Família.



Nas Profundezas Da Alma é o teu novo álbum com 10 faixas e 37 minutos. Ainda assim chamaste-lhe EP. Porquê? 

Eu preferi lançá-lo como um EP, porque essa era a minha ideia inicial. Quando comecei a planear fazer as cenas, era um EP. Mas depois de ter os temas todos que queria fazer, tinha uns três temas soltos, que tinha lançado nos últimos anos, já com vídeo, e como não me revejo muito na parte de fazer só singles, aproveitei, ouvi melhor os sons, e achei que fazia todo o sentido tê-los neste projecto. Então, resolvi incluí-los aqui, e foi aí que ultrapassou o que eu projectei para ser um EP. Por isso, considero um EP, porque, para mim, aquelas três faixas são bónus, como já as tinha lançado há algum tempo. 

Novo disco, o mesmo Syer, mas mais maduro. Por tudo o que expressas nele, com uma carga pessoal e emocional bastante forte, este é um projecto de retrospectiva, tanto da tua carreira, como da tua vida? 

Não diria da minha carreira, mas da minha vida, sim. Por situações que passei, que vivi de perto, porque na minha música, sendo introspectiva, tento falar sempre do que eu próprio vivo, experiencio, e reflicto muito nisso. Como o rap para mim é um medicamento, sem dúvida que este álbum ou EP é bastante introspectivo. É ires à guerra: quando vens de lá, em vez de guardares para ti, é uma maneira de libertares tudo o que sentes, porque isso pode eventualmente ajudar alguém. Esse é sempre o meu objectivo.  

Então, retrato algumas fases da minha vida, até relativamente próximas; não tão antigas. Por isso é que notas que está mais maduro, porque, em relação ao outro, o primeiro álbum que fiz, demorou cerca de 10 anos a ser feito. E em 10 anos tu mudas. Quando chegou a fase de o lançar, estava reticente. Havia coisa com as quais já não me identificava, mas, por outro lado, eram sons que me marcavam de alguma maneira por terem sido feitos numa determinada fase da minha vida.  

Neste álbum, estou mais contente, mais satisfeito, porque pessoalmente era o que eu queria fazer. Por tudo. Pela situação em que o fiz – na altura da quarentena – completamente sozinho, desde a gravação à mistura. Depois de tantos anos a fazeres música, em que dependes de outras pessoas, ao conseguires fazer tudo sozinho, tiras várias conclusões. Se eu consigo, mais gente pode conseguir e, principalmente, estou contente por conseguir a minha independência. Não preciso de esperar por ninguém. 

Como dizia o Sam The Kid no episódio do Três Pancadas em que participas, para as gerações mais novas, muitos dos rappers mais velhos passam a ser também eles novos quando esse público os descobre. Sentes que este EP pode rejuvenescer a tua base de seguidores, ou, por seguir um registo mais clássico, vai permanecer no nicho que sempre te acompanhou? 

Eu acho que vai continuar esse nicho a acompanhar-me. Entendo a tua pergunta, e ultimamente têm acontecido alguns exemplos de casos desses, em que algumas pessoas com vários anos de rap conseguem agora atingir outro target, miúdos mais novos, mas acho que tanto pela sonoridade, como pela mensagem que passo, o meu público há-de ser sempre mais velho. Apesar de a minha intenção ser mesmo a de chegar a um público mais novo, porque a minha mensagem também é para eles, na questão de cometer erros, etc. Mas sei que a loucura da juventude não o permite às vezes, porque também já fui um “puto”, e sei como é que uma pessoa pensa nessa altura.  

Ainda assim, também faço música como sendo, pelo menos para mim, intemporal. Portanto uma mensagem que não chegue agora, talvez chegue daqui a cinco anos, e se calhar um miúdo de 20 anos, aos 25 pode olhar para a música de outra forma. Mas respondendo à tua pergunta, sim, acho que vou continuar com esse nicho de público. Até porque também não me identifico muito com a forma como as coisas hoje se processam. E sei que esta fase que estamos a passar é uma outra fase em que as pessoas mais novas levam com outras sonoridades, e é normal que se identifiquem com esse outro tipo de coisas. Sempre que posso chegar a pessoal mais novo, eu tento, mas sei que é mais difícil. 

O que mais me impressiona na tua música é a forma como conjugas uma cadência mais boom bap com registos assumidamente cantados, coisa que não era comum nos rappers da velha escola. No início, o que te fez explorar esses caminhos mais melódicos? 

Há imensa gente que me diz isso. Eu não lhe chamaria cantar. Acho que é apenas dizer as rimas de uma forma mais melódica. Não o considero cantar, mas entendo que me digas isso, porque há muita gente que me diz a mesma coisa. 

Na altura comecei com um amigo, o Xonas, que já rimava há alguns anos. E por volta de ‘97/98, apesar de sermos de Lisboa, no meu bairro não existia tanto a cena do rap. Por ser um bairro maioritariamente de cabo-verdianos, havia muita música africana lá, principalmente de Cabo Verde. Então, havia lá um grupo de kizomba, e o Xonas era rapper, só que ele pertencia a esse grupo e a parte dele era sempre rap. Por isso o estilo dele era super melódico, dava essa melodia às palavras. Depois, começámos a fazer rap juntos e ele passou-me essa cena melódica. O único exemplo que eu tenho é ele; foi ele que me puxou para isso. Quando comecei a escrever, fazia isso sem pensar muito. 

Além disso, antigamente, cada vez que um rapper tentava cantar ou dar uma melodia, eram sempre dicas de amor. E o que eu fazia era tocar noutros assuntos e cantá-los, ou dar melodia às palavras. Na minha opinião, marquei a diferença por esse motivo. Depois, com o passar do tempo, deixei de fazer tanto isso, de uma forma natural. Tornei-me um bocadinho mais agressivo. Neste caso, neste álbum, como estava a gravar sozinho, isso foi bastante positivo, porque tinha o microfone só para mim, o tempo que quisesse, e pude explorar inúmeras situações, sem medo, sem vergonha, e ajudou-me muito. Tinha uma ideia e explorava essa ideia. Estava mesmo à vontade. 

Pegando nesse desenvolvimento do EP durante a quarentena – numa altura complicada para os artistas, e sabendo que és um rapper que prospera sobretudo em cima dos palcos –, uma vez que os concertos não voltarão tão cedo, que outras razões te levaram a lançar este disco agora? 

Uma das razões foi ter outra profissão, além de ser rapper. Por isso, ao ter de estar em casa na quarentena, fez-me querer mexer-me – tinha de acontecer agora. Esse foi o principal motivo. E nunca me vou esquecer quando e como o fiz. 

Em relação aos concertos, eu não penso muito nisso, sabes? Apesar de adorar estar em palco – gosto mesmo –, nos últimos anos, o meu circuito de palcos não é nos festivais. Já fui a convite de alguém com quem participe em alguma música, mas não é a minha cena. Hoje em dia, não existem tantos concertos mais pequenos. Então, tenho vindo a ter cada vez menos. E mesmo nos últimos tempos, tenho ido a alguns concertos em que não me identifico, porque normalmente o concerto não é só meu, e o público que eu encontro, que é mais novo, olha para ti como se eu é que fosse o “estranho”. Antes da altura da quarentena, recusei vários concertos por causa disso. Normalmente, quando dou um concerto, 80% das pessoas nunca me ouviram, e eu estou habituado a isso. Toda a minha vida foi assim, ou seja, estar num sítio a cantar uma música, e olhar para a cara das pessoas e perceber, pelos olhos, pela postura corporal, que é a primeira vez que me estão a ouvir. Mas eu gosto disso. Eu gosto dessa cena de conquistar o pessoal, quando estão dispostos a isso. E acho que esta malta mais nova se calhar já não está tão disposta a isso. 



Não podemos deixar de falar sobre a homenagem ao Beto Di Ghetto na última faixa, “Quando a Alma Se Despe”. Quando dizes a certa altura “talvez seja a última vez que solto a voz nas ruas”, há aqui uma despedida do rap? 

Essa música é dedicada a uma pessoa muito importante para mim. Passámos uma vida juntos. Foi uma fase mesmo complicada para mim, porque, além de ser uma pessoa que eu adorava como amigo, como família, a nível de rap fazíamos praticamente tudo juntos. Então, quando a cena aconteceu, tive um momento que para mim já não fazia sentido. Custou-me um bocado até encontrar-me outra vez. E o processo de fazer essa música demorou um ano e tal, tanto a gravar, como no vídeo, teve uma carga emocional muito forte. Por isso, naquela altura o meu pensamento era mesmo esse: “não quero fazer mais”. Perdi o meu braço direito, e já não fazia sentido para mim. Mas felizmente renasci. 

A minha faixa favorita do EP é a “Os Teus Olhos Gritam Por Socorro”. Esta música é dirigida a alguém em especial, uma vez que tem uma abordagem bastante directa? 

Na verdade, eu e o Beto, quando estávamos juntos e falávamos com alguém, tínhamos essa dica um para o outro – “olha, os olhos daquele indivíduo gritam por socorro”. Tínhamos essa cena um com o outro. E o tema era exactamente esse: quando olhas para alguém e vês que essa pessoa, por trás daquele olhar, está a pedir ajuda. Então, esse som é uma mistura de todos os momentos que eu senti isso, e que me lembro deles. É eu estar no papel de ser uma esperança para alguém. 

É como dizes no refrão: “a mim também me atiram pedras, mas eu corro”… 

Sim, tem a ver com a esperança. Há muita gente que te tira a esperança; é nesse sentido. E também te posso dizer que é uma das minhas faixas preferidas. Gostei de como saiu, e é exactamente aquilo que eu queria passar. Já várias pessoas me fizeram referência a esse som. Tu identificas-te num dos momentos que está ali dito, porque já passaste por aquilo. 

Aliás, isto para mim é uma responsabilidade. O rap, para mim, é mensagem, e da mesma forma que te identificaste com aquilo que eu disse, também te podia levar para um lado negativo, e podias identificar-te com isso. Então, tento fugir ao máximo disso. O microfone, para mim, é uma responsabilidade. Até porque já senti isso na pele. Já senti o que é fazer uma música, a minha mãe ouvi-la, e sentir-me envergonhado por ela estar a ouvir aquilo. Fez-me abrir os olhos nessa altura. 

De resto, toda a tua escrita caracteriza-se por ter uma forma poética, e materializaste essa componente num livro de poesia agregado ao disco. Fala-nos um pouco sobre essa ideia. 

A primeira ideia foi a de ter capacidade para conseguir fazer música em casa. A partir do momento em que consegui, quando fiz a primeira música, entusiasmei-me e fiz o projecto. Depois, o processo do livro era uma coisa que já tinha em mente há algum tempo. Isto porque eu gosto de poesia, mas acho-a, de certa forma, um pouco secante, por vezes. Eu próprio não sou um leitor de poesia. Leio algumas coisas, mas às vezes distrai-me. Quando estou a ler poesia, não consigo entrar a fundo naquilo, salvas certas excepções. Mas, de qualquer maneira, era algo que eu queria fazer. E o meu objectivo ia de encontro ao que estávamos a falar atrás, que era conseguir chegar a outras pessoas, sem ser através da música, mas através da poesia. Porque acredito que a minha mensagem não é só para o pessoal do rap; é para qualquer ser humano.  

Por fim, o que podemos esperar do Syer daqui para a frente, neste novo capítulo? 

O que eu ainda quero fazer com este EP são os vídeos. Tenho uma ideia que ainda não vou divulgar, porque não sei se a consigo concretizar. Mas quero mesmo fazer vários vídeos deste EP. E fazer música, porque agora não dependo de ninguém. Só dependo mesmo de mim e da minha vontade. De certeza que vão haver mais projectos daqui para a frente. Garantido. 


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