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SXSW: Chicago desceu a Austin e rebentou com a noite

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

As filas são longuíssimas e começam horas antes dos eventos, única forma de assegurar lugar em salas e outros espaços que permitem ver de muito perto artistas que muitas vezes só se conhecem da televisão. Rick Ross, por exemplo, foi host numa massiva festa da MTV com D.R.A.M. ou Jidenna no alinhamento num recinto de tamanho generoso ao ar livre e horas antes as filas já contavam com milhares de pessoas a aguardar pacientemente por uma hipótese de entrada.

À noite a mesma coisa acontecia em torno do Stubb’s: um cartaz com gente como Rapsody, Aminé, Denzel Curry ou Lil Wayne que atraiu centenas e centenas de pessoas e que gerou filas impossíveis de ultrapassar. Mesmo ao lado, no Mohawk Outdoor, numa sala com patrocínio Vans, uma embaixada de Chicago gerou uma onda mais “surfável”.

Pelas ruas, a mesma animação de sempre: artistas com vontade de arrancar com uma carreira fazem de tudo – distribuem CDs como quem entrega flyers, tocam em qualquer canto em que possam instalar um mini-sistema de som, convencem amigos a percorrer as ruas com cartazes iluminados, como se carregassem ecrãs de plasma às costas enquanto gritam informação sobre a nova mixtape com um megafone. Outro planeta, de facto.

Dentro do Mohawk, um espaço com capacidade para umas mil pessoas, dominado por um palco e com duas mezzanines que acomodavam muita gente, a atmosfera era de celebração da vibrante cena de Chicago. No PA ouvia-se Kanye West e Chance The Rapper e até isso deu para perceber como o hip hop é hoje a cola que une toda uma geração: brancos e negros, twenty somethings sobretudo, entoavam todas as letras, sabendo de cor e salteado cada dobra dos instrumentais, reagindo como reage alguém que sente estarem a falar-lhe directamente. Na estrada ao lado, bloqueada, um carro de polícia com as luzes intermitentes acesas não nos permitia esquecer que América é esta, afinal de contas: anteontem mesmo ouviram-se tiros na noite de Austin, diziam as notícias na manhã seguinte. E até nas gelatarias há avisos a proibir a entrada a qualquer pessoa que tenha armas escondidas…

Em palco, Dreezy começou por se fazer ouvir com uma receita a oscilar entre uma toada trap e um R&B moderno, acompanhada por duas bailarinas que davam, literalmente, o corpo ao manifesto, funcionando como tradução visual de palavras duras e agressivas. Arrancou os primeiros aplausos, Dreezy, mas a primeira reacção séria foi para Saba, que se apresentou seguro em frente do seu DJ. Cantou “Angels”, pois claro, o tema em que colabora com Chance The Rapper, dedicado a um primo tombado há um par de semanas. Noname, outra colaboradora próxima de Chano, também veio ao palco, revelar talento, capacidade de domínio de público e entrosamento perfeito com Saba.

Uma nota para a comunidade hip hop portuguesa: numa noite com meia dúzia de artistas diferentes, com DJs e músicos em palco, com diferentes posturas, houve um denominador comum – a qualidade do som, vozes perfeitamente audíveis, beats bem masterizados, baixos redondos e tarolas cortantes, sem oscilações de volume de batida para batida ou sequer de artista para artista. Parte do impacto de uma noite assim tem a ver com esse cuidado técnico.

Joey Purp foi a presença seguinte e um dos momentos altos de uma noite que, em boa verdade, nunca abrandou no capítulo da qualidade. Mais street do que Saba, Purple tem um flow prodigioso como tão bem demonstrado no enorme “Girls”, tema que conta com um verso de Chance The Rapper que foi, de facto, a presença espectral em palco durante toda a noite.

Entre a saída de Joey Purp de palco e a entrada de Noname, ouviu-se “Fuck Donald Trump” no PA, facto que imediatamente gerou um coro entre os presentes. E se há um coro a que qualquer pessoa pondera juntar-se certamente que este será um deles…

Noname fez-se acompanhar de guitarrista, baterista e baixista/teclista/cantor – aparentemente primo do ex-namorado da menina ao nosso lado que não se cansava de gritar o seu nome – “Mike!” – e as frases “oh my God” e “I’m so proud”. Seis graus de separação e tal… o concerto foi fantástico: a sua voz invulgar ganha uma nova relevância em palco e a sua presença particular ajuda a defini-la como uma artista diferente, capaz de congregar atenções e energias. A dada altura, Saba, Purp e outros artistas juntam-se-lhe em palco. Energia no máximo, pois claro.

A casa, entretanto já cheia, veio no entanto abaixo com os Cool Kids e French Montana: os primeiros têm um recorte old school nas vozes que equilibram com produções ultra-modernas, quase sempre económicas, com baixos puxados e baterias carregadas de bounce. Estes rapazes são definitivamente cool e sabidos. E depois, French Montana, foi a figura pop que se esperava, carregado de swag e com o bravado na dose certa. O público respondeu com elevação ainda maior dos níveis de entusiasmo, mas já se fazia tarde e o caminho a percorrer de volta ao hotel era longo. Pelas ruas, entretanto, há um mar de CDs espezinhados, sonhos de grandeza esmagados por uma realidade competitiva muito dura. A América pode ser a terra dos sonhos e das oportunidades, mas nem todos os realizam ou as conseguem agarrar. Daí que a embaixada de Chicago tenha dado tudo por tudo no Mohawk. É o que todos estes artistas estão a fazer aqui no SXSW: a darem tudo por tudo!

 


Querem espreitar a actuação de Saba no #SXSW2017 ?

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